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Pedrógão cinco anos depois. Rui, o bombeiro que ficou com o incêndio gravado no corpo

17 jun, 2022 - 13:56 • João Carlos Malta

Para quase todos os que foram apanhados pelo fogo, direta ou indiretamente, há um antes e um depois de 17 de junho de 2017. Rui sente-o na pele. Diz que o tempo não está a ajudar, pelo contrário. Esquecer não é uma opção.

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Quando Rui foi retirado do local do fogo, após o acidente do carro de combate em que seguia e transportado para o centro de saúde de Castanheira de Pera, já sabia que a vida que conhecera até àquele dia nunca mais seria a mesma. Ao olhar para o corpo e o que as chamas tinham feito com ele, não se reconheceu. O que se passou a seguir confirmou-o. Tudo mudou: no trabalho, na família, na vida social, nos afetos.

Só três meses depois, voltou a acordar do coma em que foi colocado para suportar as dores e as cirurgias de reconstrução da pele. No total, permaneceu meio ano hospitalizado.

Rui Rosinha − o ex-bombeiro da corporação de Castanheira de Pera que esteve entre a vida e a morte e já leva na ficha médica 14 intervenções cirúrgicas − tem no corpo as marcas da tragédia, o que não o ajuda a esquecer o trauma.

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"Tento-me afastar, fugir um bocado da minha pele e olhar as coisas mais friamente. Quem diz que melhora, não melhora. As coisas estão sempre muito presentes”.

A isso soma-se a polineuropatia − disfunção simultânea de vários nervos periféricos por todo o organismo – que lhe marca a rotina.

Fugir da pele

Cinco anos depois do incêndio que vitimou 66 pessoas e feriu mais de 250, para Rui Rosinha, “por incrível que pareça, está tudo muito presente”. Ele bem tenta fugir dessas imagens e desses pensamentos, mas é uma batalha impossível de ganhar.

“Tento-me afastar, fugir um bocado da minha pele e olhar as coisas mais friamente. Quem diz que melhora, não melhora. As coisas estão sempre muito presentes”, lamenta.

Hoje, Rui não consegue andar sem a ajuda de uma muleta e tem uma nova companheira inseparável: uma almofada para se conseguir sentar. As várias operações à zona do cóccix e nádegas assim obrigam.

Mas essas são apenas as mudanças que todos veem. Há aquelas que quase só ele sente no seu dia a dia. Deixou de poder trabalhar, as sucessivas baixas tiveram de dar origem a uma reforma antecipada, teve de deixar os bombeiros que o ligavam à comunidade, e com a família deu-se a mudança mais dolorosa.

“Deixei de poder fazer coisas que fazia com os meus filhos, principalmente atividades físicas, como jogar à bola”, observa.

“Não consigo ajudar a família, os meus filhos e a sociedade em coisas que antes fazia. Isso custa muito”, acrescenta.

Mágoa sem revolta

Ainda assim, diz que não sente “revolta”, prefere a palavra “mágoa” para descrever tudo o que aconteceu a 17 de junho − e que veio a vitimar o amigo e também bombeiro Gonçalo que com ele seguia no carro de bombeiros.

Rui, agora com 44 anos, confessa que, ao contrário do que podia ser expectável, logo no início até lhe era possível distanciar-se do que tinha acontecido. “Conseguia ter uma análise mais fria da situação, do que seria o meu futuro, do que é que poderia acontecer ao longo destes anos. Tive que me consciencializar que tinha que ser assim, mas psicologicamente não tem sido fácil”, sentencia.

Desde aí, há dias bons, outros menos bom. “Invariavelmente dou comigo a pensar que foi um dia muito complicado e que mudou a minha vida totalmente. Psicologicamente tornou-se mais massacrante nestes últimos anos”, revela.

Desde que saiu do hospital que tem acompanhamento psiquiátrico e psicológico.

Chato

Quando se lhe pede que descreva o seu quotidiano desde os fogos, a primeira palavra que lhe sai é “chato”.

O sentimento vem das infindáveis e intermináveis consultas de seguimento das várias especialidades, mas também da fisioterapia, e que fazem com que, pelo menos três vezes por semana, tenha de ir a Coimbra para os tratamentos. “Desenvolvi uma relação de amor-ódio”, diz.

Mantém a ida ao café para conversar, e tem a Associação de Vítimas dos Incêndios de Pedrógão Grande para lhe preencher as horas. Ainda assim, há um vazio.

Ele quer preenchê-lo e não perdeu a capacidade de sonhar com o futuro. Sabe que terá de arranjar outras ocupações. A ideia de fazer uma formação na área da Proteção Civil está nos planos mais imediatos.

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"Mudou a minha vida completamente. Não mais voltei ao meu trabalho, deixei o meu trabalho no município. Estive três anos de baixa e depois foi me proposto a reforma".

Rui ganhou o rótulo de “bombeiro herói”, mas isso é algo que não gosta de ouvir. Para ele, foram os que morreram os verdadeiros heróis da tragédia. Mas esse título popular também não o ajudou, pelo menos a nível material.

Após um processo moroso, acabou com uma reforma a rondar os 700 euros, abaixo do vencimento que auferia como técnico da autarquia local (762 euros).

É uma situação que lida com alguma tristeza. “Isso era uma forma de reconhecer que quem teve um acidente, um problema qualquer, na proteção às populações, lhe fosse reconhecido pelo menos o valor do ordenado ou aproximado disso”.

Filhos querem ser bombeiros

Os seis meses que esteve hospitalizado, e toda a indefinição sobre o que lhe aconteceria, marcou profundamente a família Rosinha. Principalmente os filhos, que à época tinham nove e 13 anos. Ter de gerir a possibilidade de perder o pai, deixou-lhes sequelas psicológicas.

Mas isso, ainda assim, não os impede de pensarem em seguir as pisadas de Rui.

“Os meus filhos também já dizem inclusivamente que podem crer ir para os bombeiros. Eu não vou empurrá-los, mas gostava que fossem”, confidencia.

Rosinha diz que o coração andará sempre nas mãos, mas remata: “A decisão vai ser deles e vou apoiar”.

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