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Governo toma posse. PSD avisa que não há "disponibilidade" para dar tudo a todos

02 abr, 2024 - 00:20 • Susana Madureira Martins

Social-democrata José Matos Correia aconselha Montenegro a responder aos problemas das pessoas e não a "satisfazer reivindicações corporativas". O socialista Miguel Costa Matos blinda PS contra eventuais pressões de Marcelo sobre o Orçamento do Estado para 2025.

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Quando o novo Governo tomar posse, ao final da tarde desta terça-feira, terá um estado de graça muito limitado no tempo. Ou mesmo nenhum. Na direção nacional do PSD há essa dupla noção de que é preciso decidir rápido, mas também não é possível dar tudo a todos.

"Não faz sentido, nem provavelmente haverá disponibilidade para isso", assume José Matos Correia em declarações à Renascença. "As pessoas estão insatisfeitas", reconhece o presidente do conselho de jurisdição do PSD, mas também não é possível responder a todas as reivindicações que surjam.

O que tem de haver é "sinais de que as coisas vão ser corrigidas", justifica o dirigente social-democrata, que alerta que "dar à sociedade no seu conjunto" é uma coisa, outra diferente é ceder a pressões corporativas.

Matos Correia aconselha o novo Governo a responder aos problemas das pessoas e não a "satisfazer reivindicações corporativas por serem reivindicações e por serem corporativas". O dirigente do PSD aconselha ainda rapidez nas decisões e logo nos primeiros 100 dias de trabalho.

"Tem 100 dias para começar a evidenciar-se aos olhos dos portugueses, a mais-valia das suas políticas e das suas decisões, porque as pessoas estão, de facto, descontentes e querem rapidamente ver sinais de esperança", avisa Matos Correia.

E se não acontecer? "O desespero de muitas pessoas tenderá a agravar-se. Isso é mau para todos, é mau para o país, é mau para o sistema", conclui o dirigente social-democrata. A herança "é difícil" e a maioria é relativa e "muito limitada" na Assembleia da República.

É preciso, por isso, trabalhar na perceção pública de que "há um caminho alternativo que está a ser trilhado e que a circunstância de o Governo ter uma maioria limitada não é obstáculo", resume o antigo deputado do PSD.

Matos Correia recusa ainda o cálculo político de o Governo conseguir resultados a tempo das europeias de junho e desvaloriza um eventual voto de protesto. "Neste caso, dificilmente isso poderá acontecer, porque o Governo vai estar em funções há pouco mais de dois meses quando as eleições ocorrerem", sinaliza o dirigente do PSD.

Também é "absolutamente irrelevante" o resultado das eleições europeias. Matos Correia considera que o voto nas legislativas foi a prova de algodão sobre o que o país queria para a governação e para a oposição.

Da "política pura" à competência técnica" - um perfil de Governo

"Este é um Governo equilibrado", conclui Matos Correia. Faz a "ponte" entre a "política pura e a competência técnica". Há "um núcleo político forte e de gente que tem muita experiência política e até governativa", diz o dirigente do PSD, elencando todo o grupo de vice-presidentes do partido que transitaram para o Governo.

No grupo dos ministros com "competência técnica", Matos Correia coloca, por exemplo, Joaquim Miranda Sarmento, futuro ministro de Estado e das Finanças, que nos últimos dois anos foi líder parlamentar do PSD.

Sarmento é dos tais ministros que o presidente do Conselho de Jurisdição do partido refere como tendo noção sobre "a importância da coordenação política" e da "necessidade na sua atuação de serem de alguma forma orientados e coordenados pelo núcleo político central".

PS "opta sempre por fazer oposição ao país"

Matos Correia aconselha o PS a "liderar a oposição", criticando que opte "sempre por fazer oposição ao país, em vez de oposição ao governo, porque nunca está disponível para viabilizar o que quer que seja".

Perante a frase oficial do PS de que é "praticamente impossível" viabilizar a proposta de Orçamento do Estado (OE) de 2025, o dirigente do PSD avisa que "se não houver Orçamento" as coisas têm que ser "vistas com cuidado e com a noção clara" que se o país tiver de novo eleições os eleitores "dirão de sua justiça".

PS blinda-se contra eventuais pressões de Marcelo

O "praticamente impossível" do PS sobre o OE de 2025 é uma espécie de reedição do "não é não" sobre o Chega. Pedro Nuno Santos já avisou o PS sobre pressões externas para viabilizar a proposta do Governo, inclusive do Presidente da República (PR).

No universo socialista a eventual pressão de Marcelo Rebelo de Sousa é antecipada e cortada pela raiz à partida. Miguel Costa Matos, líder da JS e dirigente nacional do partido, diz à Renascença que "foi o Presidente da República que criou a própria situação de instabilidade política que hoje vivemos".

O PS ainda não perdoou a Marcelo que tenha, pela segunda vez, convocado eleições legislativas e Costa Matos salienta que a AD também não teve "uma maioria clara, nem mesmo com a Iniciativa Liberal".

Sendo assim, conclui o líder da JS, "não pode agora o Presidente da República, que escolheu criar este novo contexto parlamentar, querer reverter para um contexto parlamentar em que havia estabilidade", sendo que "foi ele próprio que escolheu acabar com esse contexto parlamentar".

"Ele criou a situação, agora tem que viver com ela. É a lei da vida", conclui Costa Matos, que acrescenta: "O nosso compromisso não é com o Presidente da República, porque não foi ele que nos elegeu, é para com os portugueses".

Um Governo com "posições radicalizadas"

Sobre o Governo de Luís Montenegro que esta terça-feira toma posse, Miguel Costa Matos reconhece que tem músculo político, trata-se do "núcleo duro" do líder da AD e isso até pode ser "uma vantagem".

Se há ministros com perfil político é possível que tenham "uma outra capacidade de negociar e de conseguir demonstrar opções políticas", conclui Costa Matos. Mas o socialista também estranha a orgânica do Governo que acusa de "tomar uma opção esquisita". A de valorizar a Juventude ao mesmo tempo que "anula a existência autónoma do Ministério do Ensino Superior e da Habitação". Para o socialista, trata-se de "um foguetório, um bocadinho inconsequente".

Costa Matos critica ainda escolhas que "refletem um Governo virado sobre si mesmo" e antecipa novos episódios como o da escolha para presidente do Parlamento, descrevendo um governo "arrogante e impreparado, que não procura os outros, que se acha autosuficiente para governar".

O dirigente socialista antecipa ainda "posições radicalizadas e preocupantes" de futuros membros do Governo. A do ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, que "era contra as subidas do Salário Mínimo e contra o financiamento público do Ensino Superior".

Costa Matos dá ainda o exemplo do futuro ministro da Defesa, Nuno Melo, que o dirigente socialista acusa de defender "a massificação do porte de arma, numa altura em que as chefias militares ameaçam com o regresso ao serviço militar obrigatório".

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  • ze
    02 abr, 2024 aldeia 15:50
    Claro!.....vai ficar tudo na mesma.....para não mexerem nos tais interesses instalados!.....Era de esperar.aliáz os pêésses são muito parecidos.
  • ze
    02 abr, 2024 aldeia 15:49
    Claro!.....vai ficar tudo na mesma.....para não mexerem nos tais interesses instalados!.....Era de esperar.aliáz os pêésses são muito parecidos.

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