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Entrevista a Luís Paixão Martins

"Há um enfraquecimento da posição do Presidente da República"

18 out, 2023 - 07:00 • Ana Catarina André , Tomás Anjinho Chagas

O consultor de comunicação do primeiro-ministro considera que "há um cimento em torno de António Costa, como provavelmente não havia há um ano" e que, por oposição, Marcelo Rebelo de Sousa "enfraqueceu" a sua posição política. "Produz muita comunicação", conclui.

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Entrevista a Luís Paixão Martins
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Luís Paixão Martins acaba de lançar o livro "Como mentem as sondagens" em que conclui que "as sondagens mediatizadas são menos um fator de informação, são um fator de influência" do sentido de voto de um eleitor ou da sua opção em abster-se. Ainda assim não hesita em recusar qualquer "tipo de medida restritiva" dos estudos de opinião.

Em entrevista à Renascença, o especialista em comunicação, que esteve envolvido nas campanhas eleitorais que levaram às maiorias absolutas de Cavaco Silva, José Sócrates e António Costa, não vê "nenhuma razão" para uma remodelação no Governo agora. "Pelo contrário", conclui Paixão Martins, que acrescenta: "Está tudo normal", até porque "não há casos e casinhos há seis meses".

O consultor de António Costa vê ainda o líder do PSD em dificuldades, porque "tem o pior emprego do mundo" e "um cortejo de notáveis" do partido que o "atropelam". Nos antípodas está Carlos Moedas, que segundo Paixão Martins, teve um "movimento muito interessante" ao dar gás às comemorações do 25 de novembro. O autarca criou, segundo o especialista em comunicação, "uma plataforma mais abrangente que a de Luís Montenegro".

No seu novo livro - "Como mentem as sondagens" - defende que as sondagens, em vez de serem um conteúdo informativo, são cada vez mais um conteúdo político. Dirigiu as campanhas de Cavaco, de Sócrates de Costa que culminaram com maiorias absolutas. Como é que nestes casos usou as sondagens a favor destes candidatos?

A mais recente, a de António Costa, em Janeiro de 2022, é o caso mais evidente de aproveitar o facto de a perceção pública ser de um empate técnico. Passámos 15 dias da campanha a falar em empate técnico para mobilizar os eleitores. Não é nada de segredo, toda a gente faz isso.

Ainda recentemente tivemos na Madeira eleições em que, provavelmente, a coligação de direita liderada pelo PSD não conseguiu ter maioria absoluta porque foi anunciado durante a semana toda anterior que ia haver maioria absoluta. Isso é um fator de desobrigação dos eleitores. Quando há uma ideia de vitória antecipada, os eleitores tendem a votar fofinho, ou seja, a abster-se, ficar em casa, a votar em partidos menos comprometidos. As pessoas quando votam nos partidos que vão para o Governo assumem um compromisso, que é o compromisso de serem solidários com um Governo. Nunca se sabe muito bem se é fácil ou é difícil. As sondagens mediatizadas são menos um factor de informação, são um fator de influência.

A partir do momento em que a sondagem é divulgada e ela se transforma numa peça de comunicação, num fator de influência, a posição dos eleitores muda. Não são só as equipas de campanha que aproveitam a sondagem para fazer comunicação, são os próprios eleitores. As pessoas a partir do momento em que têm conhecimento de um determinado dado, os indecisos reposicionam a sua maneira de votar. É quase obrigatório que o que é anunciado numa sondagem, na hora seguinte, no dia seguinte, no ciclo noticioso seguinte, deixe de ser verdade.

Tendo em conta que está a dizer que o voto útil jogou a favor do Partido Socialista, acha que sem essas sondagens que apontavam para um empate técnico, tinha havido maioria absoluta do PS?

Jogou a favor dos dois partidos, PS e PSD. Nos últimos dias de campanha houve eleitores indecisos que estavam inclinados a votar na Iniciativa Liberal e que votaram no PSD. A tina de eleitores indecisos tinha mais água entre o PS e o PSD do que entre o PSD e a Iniciativa Liberal. Aquele fenómeno conjunto de atração pelo voto útil funcionou para os dois partidos. Mais para o Partido Socialista do que para o PSD e, certamente, foi isso que proporcionou a maioria absoluta.

As sondagens demonstram mais as perceções das pessoas, influenciam mais essas perceções ou estamos a falar de um jogo duplo?

São as duas coisas. Quando se pergunta às pessoas o que pensam, a nossa perceção é tomada a partir do que as pessoas dizem e que pensam nas sondagens. Mas a partir daí a sondagem passou a ser um instrumento de influência e alterou a nossa perceção.

Qual é que lhe parece que é o fator mais perigoso nas sondagens que se produzem hoje em dia e que também são feitas à medida dos órgãos de comunicação social que as pedem?

Se falarmos fora de um período eleitoral, o maior problema é o da amostra. Estamos a falar em sondagens que têm taxas de participação de 20%, ou seja, a empresa que faz o estudo contactou 2000 pessoas, 1500 disseram que não queriam participar, só participam 500. Isto dá uma deformação enorme. Para comparar com aquele sistema de valorização dos restaurantes e dos hotéis, o Trip Advisor só tem fãs e pessoas que se queixam, só tem 5 estrelas, que são os fãs dos restaurantes e dos hotéis, e as pessoas que tiveram alguma razão de queixa do restaurante ou do hotel e que dão um.

Estas sondagens fora dos períodos eleitorais só têm fãs e pessoas que se queixam. Valorizam muito os partidos de reivindicação, os partidos mais radicais, desvalorizam muito os partidos que formam o Governo e que são mais do arco de governação. Porque as pessoas tendem a não valorizar durante esse período a vida política. Se falarmos naqueles momentos mais próximos das eleições, em que a taxa de participação é muito maior, porque as pessoas já estão a ouvir os debates na televisão, já ouvem os comentários na rádio, já acompanham a vida política e, portanto, já estão mais a pensar nas eleições, o problema maior é a distribuição dos indecisos.

Quando estamos a oito dias das eleições e temos dois candidatos cuja 'performance' está ainda na margem de erro ou pouco afastada da margem de erro e temos uma percentagem de indecisos muito significativa, por exemplo, de 10%, para mim, como consultor, só penso nos indecisos. Mas acho que a notícia também está nos indecisos. É o conhecimento de que existem 10% de pessoas que a oito dias de eleições ainda não decidiram e que podem vir a decidir e que a decisão deles é que altera a dinâmica da campanha. O que os candidatos vão fazer, o que as equipas vão fazer e deixam de fazer, é o corpo vivo que resulta daquela sondagem. O que não resulta daquela sondagem é uma previsão de resultado eleitoral.

O que é que explica, atendendo à baixa taxa de resposta das pessoas, que as sondagens não percam relevância? São os media?

Não acho que a culpa seja dos media. Acho que é mesmo dos espetadores, dos ouvintes e dos leitores, as pessoas que querem saber antecipadamente o que é que vai acontecer. Nós queremos saber o que é que vai acontecer e se alguém diz "vai ganhar este, vai ganhar aquele", as sondagens têm uma componente futebolística, de competição. Em Portugal, acaba por ser uma bipolarização entre o PS e o PSD, entre duas pessoas. Acaba por ter esse efeito. Acho que é um efeito positivo, porque isso leva pessoas a votar.

Não há em mais nenhum mercado no mundo, pelo menos na dimensão de Portugal, que tenha três canais de televisão dedicados exclusivamente à política e ao futebol. Uma das vantagens numa campanha eleitoral é que leva mais pessoas a votar. A outra é que evita a propagação de muitas 'fake news', ou seja, como a comunicação social orgânica preenche muito espaço, acaba por haver menos informação avulsa de amadores.

O livro tem muitos momentos em que critica os jornalistas, incluindo a falta de espírito crítico e também a falta de capacidade de reconhecer que erraram, nomeadamente na análise e nas sondagens. Acha que os jornalistas desconhecem o mundo das sondagens e a maneira perversa como podem ser usadas?

Acho, sobretudo, que os jornalistas estão pouco preocupados com a sua reputação. Estão muito preocupados com as reputações dos políticos, dos empresários, até dos populistas e muito pouco preocupados com a sua reputação. Os jornalistas e os meios de comunicação social acham-se superiores a isso, acham que não têm de dar explicações ao público. Nas eleições legislativas foi um desastre a cobertura mediática das sondagens. Os erros das sondagens da última semana, relativamente ao total, foram de 10 pontos, 12 pontos, 14 pontos. E não houve uma única autocrítica. Não houve um movimento, uma plataforma, qualquer coisa, que levasse as pessoas a rever processos, a analisar processos.

Acha que a democracia seria mais saudável sem sondagens?

Não acho não, não acho mesmo nada.

Atendendo a que as sondagens influenciam tanto os resultados finais...

Não, mas isso não é mal nenhum, tudo influencia o resultado. O que dizem os políticos, o que deixam de dizer, o que diz o vizinho do lado, o homem do talho, o padeiro. Tudo isso influencia os resultados eleitorais, portanto, isso não tem mal nenhum. As candidaturas aprendem a gerir a sua comunicação em função dos indicadores de sondagens. Não estou nada de acordo com qualquer tipo de medida restritiva, seja o que for, nomeadamente às sondagens.

Falando sobre a TAP, já disse várias vezes que a TAP é um ativo tóxico político. Acha que os últimos desenvolvimentos em relação à re privatização da TAP mostram que António Costa lhe deu ouvidos e está a tentar vender a companhia a tempo de não contaminar as eleições europeias?

Europeias, não pensei. O que disse foi que o PS, para vencer as próximas eleições legislativas, não podia ter como ónus a TAP, como ativo tóxico. O Governo tem feito um caminho bastante positivo em relação a isso. A companhia vai ser vendida a uma grande companhia Internacional de aviação Europeia, portanto, acho que esse assunto fica resolvido.

Acha que Pedro Nuno Santos vai fazer sombra António Costa nos próximos tempos com o seu novo espaço de comentário?

Só não estou a ver como. Sinceramente, não estou a ver. Pedro Nuno Santos deu provas públicas de ser uma pessoa inteligente e um político com experiência. Não estou a ver que o calendário de Pedro Nuno Santos seja um calendário que conflitue com o de António Costa e acho que a intervenção que ele teve no outro dia na televisão deve ter desiludido muitos daqueles que pensavam que ia haver ali algum conflito.

Um partido pode e deve ter um convívio entre opiniões diferentes. Se Pedro Nuno achar que deve ter uma posição partidária diferente da de António Costa não estou a ver qual é o problema. Sinceramente, estamos a falar de coisas diferentes. Estamos a falar de uma coisa que é um governo, que é um corpo que tem de ser coeso, e estamos a falar de um partido que é um corpo cuja coesão não é tão necessária, nem tão evidente. Eventualmente, o facto de Pedro Nuno Santos alargar a base eleitoral do partido até bom para o PS. Há pessoas que vão votar no Partido Socialista pelo histórico de António Costa e há outras pessoas que vão votar no Partido Socialista pelo futuro de Pedro Nuno Santos.

Mas também se pode verificar o contrário, pode afastar alguns eleitores?

Pode. Mas penso que o Pedro Nuno Santos é muito mais experiente do que eu em termos políticos e muito mais inteligente e ele, certamente, terá um pensamento construtivo em relação ao futuro político dele, que é na base eleitoral do Partido Socialista. Portanto, não estou a ver que ele possa cometer, voluntariamente, alguma ação que destrua, ajude a destruir, danifique, prejudique a sua base eleitoral.

E falando sobre um homem que ainda está ligado à TAP, João Galamba é um ativo tóxico no Governo, neste momento?

Não. Passou.

E não tem consequências?

Não estou a ver consequências. Está completamente desagendado, já ninguém fala nisso. Não há a mínima cobertura mediática em relação a esse tema. O tema do João Galamba ficou muito bem resolvido naquela noite em que o primeiro-ministro desceu as escadarias da residência oficial, chegou ao pé do microfone e disse "olhe, não mudo". Isso ficou resolvido. Toda a gente percebeu. Está tudo bem com o João Galamba.

Foi teimosia do primeiro-ministro?

Podemos também perguntar: e se ele estivesse a ir atrás da conversa do Presidente da República não se podia dizer também que era teimosia do Presidente da República?

Acha que devia haver a remodelação de que tanto se fala? Esta fase do pós-Orçamento do Estado é uma boa altura para isso?

Não vejo nenhuma razão, pelo contrário. Não há resistências em relação ao Governo, a não ser as normais, está tudo normal. Já não há casos e casinhos há 6 meses, a comissão de inquérito da TAP acabou há 3 ou 4 meses. Tem sido tudo na maior normalidade, regularidade.

A agenda mediática tem favorecido, também...

E vice-versa. Há um enfraquecimento da oposição ao Governo. Isso resulta, num fortalecimento do Governo e há um enfraquecimento da posição do Presidente da República. Há um cimento em torno de António Costa, como provavelmente não havia há um ano. Neste momento acho que se sente mais o que é que é ser primeiro-ministro de uma maioria absoluta do que há um ano. Houve uma aprendizagem, eventualmente dele próprio, da equipa de Governo, dos partidos da oposição, das instituições, dos jornalistas. Hoje olhamos para António Costa como primeiro-ministro de uma maneira muito mais segura e confiante do que há um ano.

Que consequências políticas pode ter esse enfraquecimento político de Marcelo Rebelo de Sousa?

Não acho que seja muito positivo para o país, não é? Estou a constatar um dado. Há um aspeto que é muito interessante. O Presidente da República tem uma relação com os portugueses de afetividade muito interessante. Isso continua, não tem mácula nenhuma, mas é um Presidente que fica muito capturado pelas palavras. Produz muita comunicação. Dá a ideia que nem sempre a pondera demasiadamente e isso acaba por lhe tornar a palavra menos poderosa. O Presidente da República só tem dois poderes em Portugal. Um é dissolver a Assembleia da República e corre o risco de o resultado eleitoral não ser muito diferente do atual. E o outro é o poder da palavra.

E o Presidente da República banalizou-a?

É, gastou muito a capacidade de intervir na vida portuguesa através da palavra.

Acha que Luis Montenegro fez bem em, finalmente, dizer que não se coliga com o Chega?

Achei irrelevante. Luís Montenegro tem muitos problemas. O pior emprego político do mundo é ser líder da oposição e estou a falar até do ponto de vista da perceção pública. O povo não gosta do líder da oposição. Notei há coisa de dois meses que ele procurou transformar o seu perfil público mediático. Ele também sofre muito daquele rearranjo que está a fazer a direita. Ele está numa espécie de primárias. A oposição dele não parece ser o António Costa, parece ser o André Ventura e a Iniciativa Liberal e todos aqueles notáveis do PSD que o atropelam. Ele tem numa semana o Pedro Passos Coelho, na outra, o Professor Aníbal Cavaco Silva, na outra o Luís Marques Mendes.

Há um cortejo de notáveis do PSD, eventualmente, procurando ajudar o partido, mas que no fundo atropelam o líder do partido. Ele fica muito pequenino ao pé de pessoas que têm, aliás, outro currículo político e outro reconhecimento da parte dos dos portugueses. Ele mudou, procurou reconstruir o perfil dele. Aquela ideia de tornar o António Costa protagonista dos soundbites negativos, hostis, não acredito que tenha funcionado. Se levarmos a sério estes barómetros que têm sido publicados, que refletem tendências, talvez seja uma das razões, porque não têm funcionado.

Carlos Moedas tem um perfil político completamente diferente? Acha que seria uma melhor aposta e uma lufada de ar fresco para a oposição?

O engenheiro Carlos Moedas teve agora um movimento muito interessante que é ter transformado o 25 de Novembro numa plataforma política. É uma plataforma política com algum interesse, porque é anti-comunista, anti PC e anti PS. O Dr. Carlos Moedas e as pessoas que o apoiam ou que se identificam com ele, invoca o doutor Mário Soares e aquilo que ele fez e disse, no fundo para dizer que o PS naquela altura, não era este. Não invocam o Partido Socialista para o defenderem, invocam para criticar o atual Partido Socialista. É interessante porque cria um inimigo largo com uma data simbólica.

É um projeto político com pernas para andar, porque se se chegarem a comemorar os 50 anos do 25 de novembro, não será no próximo ano, será no seguinte e, nessa altura, estaremos a pouco mais de meia dúzia de meses das eleições legislativas de 2026. É um bom momento para um candidato se afirmar, diz a nossa história em relação aos casos anteriores. Afirmar-se com uma plataforma mais abrangente que a de Luís Montenegro, porque também é mais à direita. Pode atrair votos do Chega e da Iniciativa Liberal de uma maneira diferente da de Luís Montenegro.

Visto à distância, pode-se dizer que, talvez, quando chegar essa altura, o Dr. Luís Montenegro esteja desgastado por ter o pior emprego do mundo e o engenheiro Carlos Moedas esteja eufórico com as comemorações do 25 de Novembro. Há um óbice nestes cálculos. Antes disso há eleições autárquicas. Isto corre bem se o engenheiro Carlos Moedas tiver uma maioria robusta nas eleições autárquicas de Lisboa, portanto, tem esse problema no caminho.

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  • ze manel
    21 out, 2023 alguidares debaixo 00:47
    o célito serve para fazer oposição tentando enfraquecer o governo a favor do seu partido logo não é o player mais indicado para intervir não seria em defesa dos portugueses dado que a maioria dos portugueses está com o governo.
  • ze
    18 out, 2023 aldeia 08:36
    Quando há um partido com maioria absoluta, não deve fazer só o que quer,isso não é democracia, é ditadura, e aí deveria entrar o Presidente da Républica para manter uma posição forte,não é a 1ª figura do Estado?Não é a esperança de muitos portugueses?Senão, para que serve então o P.R.?

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