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Reportagem

"Quero ser pastora". A história de três mulheres que resistem na Serra da Estrela

05 fev, 2024 - 07:02 • Liliana Carona

Na Serra da Estrela há 260 pastores de ovelhas raça serra da Estrela, em linha pura. Deste total, 15 são mulheres, dedicadas ao pastoreio do gado. Apesar de o número de mulheres pastoras ter vindo a diminuir drasticamente a partir da década de 80 do século passado, o ofício que está em risco de extinção continua a atrair jovens.

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Quero ser pastora
"Quero ser pastora". Ouça a reportagem da jornalista Liliana Carona

A paisagem dá justiça ao nome da terra: Prados. Campos verdejantes compõem aquela que é a freguesia do concelho de Celorico da Beira com mais área florestal. Ao longe, da estrada, vemos e ouvimos Joana Silva, de 23 anos.

Tenta alcançar, com o assobio, as mais de 1.000 ovelhas que pastoreia pelos montes e vales da Serra da Estrela. "Dar nome a todas foi impossível, os sinos distinguem as que são mais chegadas, as que têm sininho são as que guiam o rebanho”, explica, enquanto mostra milho na mão para atrair uma das ovelhas.

O dia da pastora Joana começou cedo, primeiro na ordenha mecânica e depois, longe dos pastos, no ensino superior. A pastora está no 2.º ano da licenciatura em Comunicação e Relações Públicas, no Instituto Politécnico da Guarda, e na turma é uma das alunas com melhores notas.

A aula decorre num estúdio de som com o professor Handerson Engrácio, docente há mais de 20 anos. “Foi uma surpresa para mim, os alunos que temos à nossa frente são apenas uma cara, mas cada um deles têm uma história e esta foi das mais surpreendentes. Nunca tive uma aluna pastora e regozijo-me que jovens, como a Joana, olhem para esta atividade como uma atividade de futuro, até porque tem uma componente ambiental muito importante”, enaltece o professor.

Não é o primeiro curso que Joana Silva está a frequentar, tendo no currículo, o curso profissional de Comunicação, Marketing e Design e um curso técnico superior de Acompanhamento a Crianças e Jovens.

A aposta na formação, acredita a pastora, vai abrir mais portas e ajudar no desenvolvimento de um investimento na área da pastorícia.

“Para já não tenho rendimento, porque isto pertence aos meus tios, mas um dia quero investir, há vários projetos para jovens e penso que no final compensa, se fizermos o que gostamos”, considera Joana, admitindo o fascínio pelo mundo relacionado ao queijo Serra da Estrela. “Gosto de fazer queijo, dizem que só tem quem mãos para ele, o leite é o principal, mas dizem que tens de ter as mãos frias, espremer bem”, explica Joana.

A história de Joana tinha tudo para correr mal

Depois de ajudar na ordenha mecânica às ovelhas, que dura aproximadamente duas horas, Joana revela o cansaço, mas não perde o gosto pela profissão que escolheu.

Eu pretendo continuar na área da pastorícia, que é o que faz mais sentido, esta paz, é o que gosto de fazer, sinto-me muito bem quando o faço, estou sempre a aprender”, diz a pastora/aluna.

Joana Silva admite que a pastorícia “nem sempre é fácil”, pois “é um trabalho muito puxado para o corpo, mas mentalmente é uma terapia” e fá-la “sentir em paz”, refere a jovem, que diariamente percorre vários quilómetros na localidade de Prados, concelho de Celorico da Beira. Foi ali que chegou à pastorícia, pelo incentivo de uma família que a adotou quando aos 12 anos perdeu a mãe, vítima de doença.

A história de Joana Silva, diz a própria, tinha "tudo para correr mal". “Nasci no Porto, sou de Matosinhos, por volta dos seis anos vim para Celorico da Beira e depois a minha vida levou assim uma volta conturbada. Aos 12 anos perdi a minha mãe, de cancro, tive que cuidar dela em fase terminal. Veio a falecer, infelizmente. O meu pai não soube lidar. E então uma amiga da minha mãe, a quem chamo tia, acolheu-me, adotou-me, ajudou-me a crescer e a viver, a ter uma vida, ensinou-me o ofício. Agradeço muito, nunca poderei, nem há palavras, nem materiais para lhe agradecer”, salienta Joana Silva, que com os seus cabelos louros escuros, alta, tem a postura de quem já não teme na vida.

Posteriormente, Joana conta que devido a complicações com o seu progenitor, teve de ser institucionalizada. “Ainda continuo institucionalizada. Estou na Casa da Sagrada Família da Guarda, desde os 13 anos, estou a fazer processo de autonomia desde os 18 anos, estou num apartamento, onde me é dada ajuda, e tento conciliar trabalho e escola. Muitas das crianças que são institucionalizadas, corre sempre mal, ou quase sempre mal, devido a traumas, é muito complicado conseguirem um futuro. Foi um processo muito custoso, mas olho para trás e penso que consegui e tenho um futuro promissor. E nesta vida consegui encontrar a paz de que precisava, e é na pastorícia que me sinto mesmo concretizada”, revela Joana, que tem dois irmãos, com quem diz ter contacto muito próximo.

"Grande parte da juventude não quer esta vida da pastorícia"

O ofício foi ensinado por aquele que passou a ser o avô: Júlio Ambrósio, de 74 anos, proprietário da queijaria com o seu nome, criada em 1979.

Quando Joana tinha 12 anos aprendeu tudo, ordenhar, fazer queijo e guardar gado. E os elogios ao talento, surgem naturalmente, de um avô pastor.

“A Joana disse que eu era avô, não sou, mas é como o seja. Conheci a mãe dela, uma excelente mãe, teve a infelicidade de a perder, mas ficou na nossa família. Está aqui muita coisa para se fazer nesta Joana, hoje a grande parte da juventude não quer esta vida da pastorícia e vemos isso de ano para ano, a diminuição que há nesta área, os mais velhos saem e os mais novos não querem. Temos alguém que no Governo devia olhar mais por esta área que tem sido muito desprezada”, alerta.

Sobre a pastorícia no feminino, Júlio recorda outros tempos. “Não tenho nada contra as mulheres, no tempo em que me criei, era raro uma casa em que não houvesse uma pastora, tanto guardava ele como ela. Hoje não, uma pastora destas já não se fabrica, é notícia. Tudo o que nós fazemos, ela aprendeu, isto começa na ordenha, ela gosta, vem para o fabrico do queijo, ela gosta, mal-empregada não estar 25 horas aqui na minha queijaria”, sorri Júlio, abraçando a neta que ganhou.

Joana corresponde no abraço e diz estar orgulhosa da família que a acolheu, lamentando que, nas instituições que conhece, crianças como ela, não tenham tido o mesmo destino positivo. “Eu também sou orgulhosa da família que me acolheu e do que me ensinaram ao longo dos anos, desde a ordenha, a fazer queijo, ensinaram-me tudo, há poucos casos como o meu”, valoriza a jovem pastora de Prados.

Quando o sonho é ter gado

Uma vida agitada, dura, mas que Joana Silva garante apreciar. “Eu gosto, se eu pudesse… o meu sonho é ter gado e ter uma empresa aberta de produção de queijo”, afirma, decidida na vocação que é partilhada por outras mulheres. Não muitas. No pastoreio da ovelha bordaleira e na área da Serra da Estrela, não chegam a duas dezenas. Mas são caminhos que se cruzam.

Patrícia Ambrósio, 38 anos, casada, estudou até ao 6.º ano de escolaridade e depois a herança de família, de cajado na mão, disposta a ensinar as mulheres que queiram aprender.

“Quem quer aprender, ensina-se”, diz, sem papas na língua, recordando que a pastorícia tem aspetos que para ela são muito positivos. “Às vezes quando uma pessoa está cansada, parar ao pé das ovelhas e descansar, neste silêncio. Desde pequenina, os meus pais já tinham gado e segui-lhes a vida, foi sempre este o meu trabalho”, recorda, sempre sorridente, sem esconder as agruras da rotina. “O clima é muito agressivo, temos de as deitar fora e dar de comer, há muitas dificuldades. Isto não é uma festa, não venho maquilhada, é tudo ao natural. Não ponho nada na cara, o frio é que mata a bicharada”, solta uma gargalhada.

A pastora Patrícia só tem conhecimento de mais uma pastora da sua idade e admite andar sempre sozinha. “Apenas oiço os pássaros, oiço os cães, que dão logo sinal e por isso não tenho medo. Eu acordo às 7h00 da manhã, vou por o filho ao autocarro, para ir para a escola, faço a vida de casa e depois venho para a quinta, fazer o trabalho, ir com o gado, limpar acómodos, estábulos, à noite é preciso voltar a ordenhar os animais. Não tenho hora para me deitar”, conta à Renascença, sublinhando que percorre entre 10 a 15 quilómetros, a pé, diariamente.

No tempo em que pegou no negócio de família, Patrícia conta que os pais não tinham possibilidades para a mandar para fora estudar e, por isso, foi um “percurso natural”.

Sem telecomunicações o isolamento é maior

Não foi fácil agendar a reportagem com as pastoras. “Venha ter à Igreja de Prados, porque na serra não há rede, nem na zona da queijaria”, alertou Joana Silva, durante a única chamada telefónica que com sucesso, conseguiu atender.

Ela e Patrícia sonham com uma melhor rede de comunicações. “Estamos na Serra da Estrela, isto é difícil, há certos sítios, em que se houver um problema, não tem uma solução, não há rede para se comunicar, podem acontecer coisas graves e não podemos contar o que se está a passar, é complicado”, desabafa Patrícia Ambrósio.

“Quem mora cá sabe que é complicado, é bastante difícil, ando aqui o dia todo, e gostamos de nos entreter também. E às vezes os tios ficam preocupados, porque não conseguem comunicar comigo”, lamenta Joana Silva, que tem por companhia a cadela Lira e a pastora Patrícia, que não esconde a alegria de ver outra mulher interessada na pastorícia.

“Ela foi criada neste ramo, para um dia se pretender este serviço já saber e assim ganho uma colega. É que, durante o ano, como ando mais na serra, não vejo nenhuma pastora”, observa Patrícia, garantindo conhecer as ovelhas como ninguém. “Elas são muito inteligentes, não gostam do cheiro a tabaco, nem de perfumes, são inteligentes porque conhecem o pastor, quem lhes faz bem e até criam amizade com os cães de guarda. Às vezes quando partem uma pata ou falecem, fico mesmo triste”, assume Patrícia, sem deixar de reconhecer que “é uma profissão em vias de extinção, em risco”.

O pastoreio também foi sempre das mulheres, mas agora é notícia

Andam muitas vezes juntas a guardar gado, as duas pastoras, Joana e Patrícia, que lamentam, ainda assim, ouvir comentários de que a profissão que escolheram não é para mulheres.

“Os senhores é que são pastores, as mulheres mais donas de casa, pensam que as mulheres são mais sensíveis, oiço. Há pessoas que me dizem: em vez de andares a trabalhar em algo mais limpo e fixo. Comentam muito, que isto é trabalho para homem, porque são precisos tratores e máquinas mais pesadas”, descreve Patrícia. E que resposta dão? Joana responde: “Cada um tem de fazer a sua vida. Cada um faz o que gosta, o essencial é sentirmo-nos bem com o que fazemos”.

Prados, Videmonte, Linhares, são algumas das localidades onde se encontra a atividade da pastorícia no feminino. Maria José Clemente, 50 anos, casada e com dois filhos, vive em Linhares e tem uma quinta em Videmonte. Fez a 4.ª classe já predestinada a seguir o caminho da família. Hoje tem 120 ovelhas e mostra o que tem de bom ser pastora. “As mulheres sempre foram pastoras, como os homens, sempre foi esta a minha criação, criada com o gado. Mas também é como diz o outro, não temos patrões, não somos mandadas, só fazemos o que queremos. Há muitas mulheres, ainda há pastoras”, defende.

Entre assobios, latidos, e também, por vezes, muito silêncio, as mulheres pastoras de ovelhas bordaleiras na Serra da Estrela gostavam que outras experimentassem a atividade.

“Sentirem e experimentarem seria um bom começo. Dá muito trabalho, mas no final compensa. É a história da zona, do país e se não fosse isto, o Interior morria”, reconhece Joana Silva, para quem o momento alto da profissão é quando vai às feiras vender o queijo que produziu com as suas próprias mãos.

“Quando vamos a feiras, gosto bastante, mostramos o nosso produto, é a recompensa final, é muito bom”, conclui, assobiando, mais uma vez. “Cada pastor tem o seu assobio e o seu chamar. Elas interpretam o assobio para ir embora, mudar de pastagem ou ir para a loja”. Ao cair da noite, é hora de regressar a casa, Joana e as mais de 1.000 ovelhas.

Pastoreio, criação e exploração são realidades diferentes

Ricardo Pimenta, da direção da Associação de Pastores e Produtores do Queijo da Serra da Estrela (APROSE), considera que “importa salientar a diferença entre pastores, criadores e exploradores/proprietários, além da particularidade da raça de ovelha bordaleira, Serra da Estrela”.

E neste domínio, o pastor do concelho de Gouveia ressalta que há 260 produtores de raça ovelha Serra da Estrela em linha pura, e deste total, por volta de 6% são mulheres, sendo que existem 600 explorações na região da Serra da Estrela.

Ricardo Pimenta explica que o número de mulheres já foi muito maior. “As mulheres já não podem viver só do campo, a nível escolar, há uma preferência por carreiras académicas e também foi diminuindo ao longo das décadas o número de efetivos, além da diminuição de produção de leite por causa das exigências europeias”, recorda, a propósito da entrada de Portugal na União Europeia, na década de 80 do século passado.

Todavia, Ricardo Pimenta nota que há muitos casos em que os rebanhos estão em nome das esposas: “há 10% de proprietárias”. Ainda assim, diz que há cada vez “menos pessoas a vender nas feiras do queijo”.

Contactada a Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Serra da Estrela (ANCOSE), no que diz respeito ao número de criadores, sinaliza 1.630 homens e 770 mulheres.

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