Saúde

Vacina contra a gripe. "Vacinamo-nos para nos protegermos a nós e aos outros"

19 set, 2023 - 00:00 • Diogo Camilo

A Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa lançou sete recomendações para uma campanha de vacinação contra a gripe mais eficaz, onde defende comunicação à população em geral da importância da vacinação. Em entrevista à Renascença, o professor Gonçalo Figueiredo Augusto aponta que pessoas mais novas escolhem não se vacinar por não terem a “perceção de risco” que a gripe representa para os mais velhos.

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A campanha de vacinação contra a gripe sazonal arranca a 29 de setembro, em simultâneo com a da vacina contra a Covid-19, e este ano tem duas novidades: pela primeira vez, a vacina contra a gripe é gratuita também para pessoas entre os 60 e 64 anos e será distribuída em todas as farmácias comunitárias.

Para definir recomendações de maneira a maximizar a adesão à vacinação, a Escola Nacional de Saúde Pública reuniu um conjunto de especialistas em saúde pública, epidemiologia, economia da saúde e ciências comportamentais, que consideram que a vacina contra a gripe é uma “intervenção economicamente eficiente”, reduzindo o risco de morte.

As sete medidas enumeradas incluem a comunicação à população em geral da importância da vacinação, dado que a baixa literacia em saúde é ainda uma das principais causas para os mitos criados à volta da vacina.

Em entrevista à Renascença, o professor Gonçalo Figueiredo Augusto, que liderou o evento, aponta que o objetivo de vacinar pelo menos 75% das pessoas em grupos prioritários é “perfeitamente realista” e que pessoas mais novas escolhem não se vacinar por não terem a “perceção de risco” que a gripe representa para os mais velhos. Para contexto, no ano passado, apenas 6% das pessoas entre os 18 e os 59 anos se vacinaram em Portugal.

A campanha para a vacinação contra a gripe deve começar onde?

Normalmente, a campanha de vacinação começa nos lares. E é importante que comece nos lares, porque começa pelos mais vulneráveis. Depois alarga-se ao resto da população prioritária que está definida na norma da Direção-Geral de Saúde.

Este ano inclui as pessoas com 60 ou mais anos e todos os outros grupos de profissionais de saúde, bombeiros, etc. São também pessoas que, pela sua exposição, merecem também ser considerados grupos prioritários para a vacinação contra a gripe.

A DGS e a OMS têm um objetivo de 75% das pessoas em grupos prioritários vacinados. É realista ou ambicioso?

É um objetivo ambicioso em muitos países e perfeitamente realista no nosso. Conseguimos facilmente alcançar esse objetivo, de grosso modo. Depois se formos fazer uma análise aos grupos etários mais específicos, se calhar nem todos chegam aos 75%, esse é que é o nosso desafio.

As nossas estatísticas dizem que, conforme vamos descendo os grupos etários, a cobertura vacinal vai sendo progressivamente mais baixa. Isso tem a ver com as pessoas que não são tão idosas, que não têm a mesma perceção do risco. Algumas escolhem não se vacinar, mas mesmo assim estamos num bom caminho e as coberturas nacionais são relativamente elevadas

E que grupos prioritários historicamente têm taxas de vacinação abaixo da recomendação?

Por exemplo, aquele grupo de pessoas nos 70 anos, que tem uma cobertura vacinal muito inferior ao grupo de pessoas com mais de 80 anos. Interessa sensibilizar todas as pessoas que estão abrangidas pela recomendação da vacinação contra a gripe e que têm uma vacina gratuita disponível que devem vacinar-se.

O que afasta a população ativa da vacina contra a gripe? É esquecimento ou falsa sensação de segurança?

São muitas coisas. Esse tema é uma dos temas mais interessantes e mais complexos. Tem muito a ver com o comportamento individual, com as atitudes que as pessoas têm, com a própria perceção de risco que as pessoas têm. As pessoas mais novas têm, evidentemente, uma perceção do risco diferente.

Vimos isso com a Covid-19. Se apanharem gripe, ficam de cama durante uns dias e nada de mal vai acontecer. Muitas delas escolhem não se vacinar, não estão tão sensibilizadas para isso.

O problema é que, quando elas ficam infetadas com gripe, podem transmitir a outras pessoas mais vulneráveis onde a infeção pode ser bastante mais complicada. Em pessoas mais velhas, com doenças crónicas, é exatamente a mesma mensagem que durante a Covid: vacinamo-nos para protegermo-nos a nós e aos outros.

Duas das novidades deste ano são a administração da vacina contra a gripe em farmácias comunitárias e a gratuitidade das vacinas para maiores de 60 anos. Isto vai aproximar aqueles com maiores dificuldades de acesso à vacinação?

Sim, a parceria com as farmácias comunitárias já tinha sido ensaiada em anos anteriores e agora entra em vigor de forma mais robusta, mas espera-se que, fazendo uso da capilaridade das farmácias comunitários, que possamos ter um acesso mais fácil, mais cómodo e mais próximo das pessoas e que possamos proteger muitas mais pessoas.

E a possibilidade de marcação online de vacina e a comunicação por SMS são dois dos avanços tecnológicos que ajudam nesta campanha de vacinação. Têm tido a adesão por parte dos grupos prioritários?

São instrumentos adicionais para facilitar a vida das pessoas. Aliás, são lições aprendidas durante a pandemia e achámos neste encontro que seria bom replicar este tipo de lições na vacinação sazonal contra a gripe. Também para haver uma comodidade para as pessoas, para poderem fazer a sua marcação e poderem receber a sua confirmação por mensagem. São o tipo de inovações que devemos incluir nas nossas práticas para facilitar o processo de receber a vacina.

A pandemia e a vacina contra a Covid-19 também vieram, assim, aproximar os grupos prioritários para a necessidade de se vacinarem contra a gripe?

Sem dúvida nenhuma que houve uma mensagem muito eficaz junto das pessoas, sobretudo na época de vacinação anterior, em que se misturaram as vacinas da gripe e da Covid-19 simultaneamente. Houve uma mensagem muito eficaz sobre a importância das pessoas se vacinarem contra estas duas infeções. No Inverno estamos mais expostos e mais vulneráveis a vírus respiratórios e, portanto, as duas vacinas dadas na mesma ocasião podem proteger as pessoas de uma forma mais eficaz e mais cómoda.

Existe ainda algo a mudar na atitude dos portugueses em relação à vacina contra a gripe?

No geral, a campanha resulta e tanto resulta que vemos as nossas elevadas coberturas vacinais. Obviamente que existem sempre determinadas faixas etárias, grupos da população onde é sempre importante continuar a reforçar a mensagem da vacinação contra a gripe, e de nos protegermos e proteger os outros de forma a que possamos ter uma elevada cobertura vacinal mais homogénea.

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