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Conferência "Em nome do futuro"

Jovens adultos. “É impossível termos sequer dinheiro para arrendar um T0”

28 set, 2022 - 06:59 • João Carlos Malta (texto), Diogo Camilo (infografias)

Vivem a contar os trocos para chegar ao final do mês. Não têm perspetivas de que o futuro venha a ser melhor. O retrato da geração de jovens adultos portugueses dos 25 aos 34 anos.

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Estudaram, apaixonaram-se e começaram a construir um projeto de vida comum. Vânia tem 27 anos e Rodrigo tem 25 anos. Sempre pensaram que quando começassem a trabalhar poderiam ter uma casa arrendada, onde dessem forma ao futuro. Mas a realidade é bem diferente. O dinheiro que os dois ganham agora não chega a um salário mínimo.

Por isso, não podem sequer sonhar em viverem sozinhos. Têm de se contentar com um quarto num apartamento T3 dividido com mais duas pessoas.

“É impossível, neste momento, termos sequer dinheiro para um T0. Não temos 1.000 euros mensais. Ou seja, nunca conseguiríamos para já partir para uma casa”, conta Vânia à Renascença.

Ela e o namorado são atores. Especializaram-se em teatro infantil. Periodicamente, sobretudo no verão e no início das aulas, ficam sem trabalho. Nessa altura, têm de recorrer às AEC (Atividades de Enriquecimento Curricular) em escolas do ensino básico, ou ao telemarketing, e ainda a trabalhos na restauração.

Depois de muito procurarem em Lisboa, o melhor que encontraram foi um quarto numa casa, a partilhar com outros, por 450 euros. O que ganham com o que fazem atualmente permite que sobrem cerca de 300 euros por mês para os restantes gastos. Com os preços a disparar, as dificuldades são cada vez maiores.

“Está a ser mais complicado. Os custos da alimentação e dos produtos, até mesmo de higiene, começam a pesar mais para conseguirmos ter dinheiro, estarmos à vontade, e vivermos em Lisboa”, descreve a atriz.

A realidade vivida pelos jovens adultos em Portugal estará esta quinta-feira em discussão na conferência "Em Nome do Futuro: os Desafios da Juventude", que terá lugar no CCB, em Lisboa, e cuja organização resulta de uma parceria entre a Renascença e a Santa Casa da Misericórdia.

O casal pertence a uma geração que vários estudos retratam como vivendo com a cabeça ocupada quase exclusivamente pelo crescente aumento do custo de vida. Os níveis históricos de inflação serão a principal causa, mas não a única.

Os jovens adultos representam 11% da população portuguesa. Entre os 25 e os 34 anos, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), há 1.104.408 de portugueses.

De acordo com um estudo recente da Deloitte, feito em vários países, entre os quais Portugal, mais de metade dos portugueses (65%), com idades entre os 25 e os 34 anos, não se sentem financeiramente seguros. Um valor acima da média global do estudo, que é de 54%.

Apenas pouco mais de metade (52%) considera que consegue pagar confortavelmente as despesas mensais, e quase metade (42%) confessa que a cada mês vive preocupada com a possibilidade de não conseguir pagar as contas.

E pode até não ser consequência do momento financeiro que vivem, mas quatro em cada dez estão stressados e ansiosos, a maior parte do tempo.

Rodrigo não está satisfeito com o que tem. Viver com a namorada era um desejo, ter de partilhar casa com ela e desconhecidos está longe de ser uma quimera. Mas era o que havia.

“Foi a nossa melhor opção, contudo não é de todo uma boa opção. É um sítio longe dos transportes públicos. Não temos metro perto sequer. Temos muito poucos autocarros, e, infelizmente, em Lisboa os transportes estão quase sempre atrasados”, critica.

A instabilidade é a constante mais estável na vida de Rodrigo. Ele já contava com ela quando acabou a formação em teatro e começou a trabalhar. Só não esperava que fosse tão intensa. Considera normal passar por vários projetos durante o ano, mas a impossibilidade de saber sequer se terá trabalho o ano inteiro é castrador para quaisquer planos que tenha.

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"É impossível, neste momento, termos sequer dinheiro para um T0. Não temos 1.000 euros mensais. Ou seja, nunca conseguiríamos para já partir para uma casa", Vânia, atriz.

“Trabalho oito meses num ano, mas não posso estar estável, porque após esses meses não sei o que vai acontecer. A minha balança nunca fica equilibrada e nunca posso arriscar em ir para um quarto maior, onde pago mais, ou para um apartamento, porque não posso garantir que após esses meses que consiga pagar”, lamenta o jovem natural de Setúbal.

Vítor Sérgio Ferreira, investigador e sociólogo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, explica que pelas dinâmicas do mercado imobiliário em Portugal, nomeadamente nas grandes cidades e nas áreas metropolitanas, o acesso, como recentemente foi notícia, não está dificultado só para os estudantes.

“Estamos a ver muita gente, jovens adultos, adultos, a terem que considerar opções como voltar para a casa dos pais ou situações de partilha de habitação. É um pouco como voltar aos tempos da ditadura, quando as pessoas vinham trabalhar das regiões rurais para os grandes centros e que se instalavam em quartos de pensões”, lembra.

O mesmo especialista considera que vivemos uma reconfiguração do que é a idade adulta e das características que lhe atribuímos, desde logo porque alguns dos marcadores sociais que identificávamos como a saída de casa dos pais, a entrada no mercado de trabalho, a constituição de família, e outros, estão a ser adiados. “Há muito que se escreve e se ouve sobre o prolongamento da condição juvenil”, aponta Vítor Sérgio Ferreira.

Mas não é só o atraso na concretização destes passos que está em causa. Mesmo depois de serem alcançados, são marcados pela instabilidade e precariedade. O emprego é um caso evidente.

“[Há dificuldades de] manutenção no mercado de trabalho com o mínimo de qualidade que, de alguma forma, crie condições de sobrevivência, de autonomia mínima, de autonomização”, constata.

A situação de Vânia e Rodrigo não é, portanto, incomum. O investigador do ICS constata que os números são claros a esse nível. “Há muitos indicadores que vão nesse sentido, e já não são só os jovens. Um terço dos pobres em Portugal, de facto são pessoas que trabalham, isto é indicativo de muita coisa”, avalia.

Em relação à maior instabilidade no mercado de trabalho, os dados do INE dão força ao relato do sociólogo. Em relação ao desemprego que apresenta uma taxa global historicamente baixa – os últimos números conhecidos colocam nos 5,7% − os jovens entre os 25 e os 34 anos ficam dois pontos percentuais acima, com 7,6%.

A taxa de desemprego é maior entre os homens com estas idades do que entre as mulheres (8% e 7,2% respetivamente).

Quando olhamos também para os 164 mil portugueses desempregados há um ano ou mais, percebemos que mais de 42 mil pertencem a este grupo etário. Ou seja, um em cada quatro do total.

Vânia achou que tudo ia ser mais fácil, quando começou a estudar. Idealizava que ao terminar o curso conseguiria ingressar num grupo de teatro e ficar. “Não digo efetiva, mas pelo menos ter um, dois ou três anos certos na companhia e achava que seria muito mais fácil ter logo o contacto com as companhias. Quando saí da faculdade percebi que não é assim tão fácil”, recorda.

O mercado de trabalho revelou-se muito mais complicado, e mudou-lhe completamente a perspetiva. Não o suficiente para arrasar o sentimento profundo pela arte de representar. “Não deixo de amar o que faço quando o estou a fazer”, diz.

A jovem diz ser verdade que até pode conseguir um bom trabalho de um mês ou de três meses, e nessas alturas “se calhar podemos receber um bocadinho melhor”, no entanto, “nunca será um ano completo”.

A atriz revela que conseguem somente ir jantar fora uma vez por mês. “E é nos meses em que conseguimos. Estamos a falar de coisas supérfluas que não são assim tão supérfluas, não é? Porque também fazem parte da qualidade de vida que temos de ter, pensando que já estamos a crescer e já estamos a ficar adultos como as pessoas nos dizem”, sorri.

Vânia e Rodrigo estão abaixo da média que o INE avança para a remuneração desta faixa etária. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, ganham 946,16 euros, menos quase 96 do que a média nacional, que é de 1.041,99 euros.

Essa diferença é ainda maior nas mulheres desta faixa etária, que auferem em média 904,69 euros. Os homens com a mesma idade recebem mais 76 euros do que as trabalhadoras do sexo feminino.

Rodrigo sabe bem o que é lidar com precariedade e baixos salários. Depara-se com isso no quotidiano. Percebeu que há uma dificuldade de acesso logo à partida, uma vez que os castings a que consegue ser chamado são mais raros. Mas também há os casos em que é selecionado, e tem de desistir.

“Infelizmente, o que pagam não chega sequer para pagar renda e, portanto, tive que desistir do projeto, mesmo que gostasse muito de fazê-lo”, lembra.

“Não podia aceitá-lo porque nem sequer pagava as coisas essenciais da minha vida e, por muito goste da minha profissão, tenho que comer”, enfatiza.

O sociólogo Vítor Sérgio Ferreira olha para os sucessivos períodos de crise que esta geração viveu nos últimos anos como momentos “em que um conjunto de coisas mais do que mudar, intensificaram-se”.

“A crise pandémica veio mostrar, os altos índices de ansiedade e de depressão entre os jovens, e há um valor com que eu fiquei completamente assoberbado”, revela.

O investigador refere-se a um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, em que é descrito que 23% de jovens “já tinham pensado na solução de suicídio”.

“São números avassaladores e quer dizer que de facto há algum mal-estar. Isto para mim são expressões de insegurança ontológica, e da dificuldade em se projetar e projetar o futuro e concretizar determinadas expectativas”, avalia.

Não é por falta de políticas para os jovens, pelo menos na forma como são apresentadas pelos sucessivos governos, que a realidade é a que é. Não há executivo que não elenque um conjunto de medidas para este grupo que dizem ser uma prioridade.

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"Trabalho oito meses num ano, mas não posso estar estável, porque após esses meses não sei o que vai acontecer. A minha balança nunca fica equilibrada e nunca posso arriscar", Rodrigo, ator.

Ora, o investigador do ICS concorda com a existência de políticas direcionadas para os jovens, apesar de não aquelas que têm sido postas em prática. Trata-se de um grupo muito heterogéneo e, por isso, há dificuldade em uniformizar medidas.

“Os jovens não se implicam da mesma forma e não experienciam as suas próprias condições de desigualdade da mesma forma. Há uma coisa que acho que há que ter em consideração: a própria condição de desigualdade que a posição etária lhes dá”, avalia.

Se o qualificativo jovem é positivo genericamente, a verdade é que para muitos é também conotado como sinónimo de imaturidade e de desresponsabilização. Em alturas de crise, é também o grupo de trabalhadores que por ser mais precário é também mais descartável pelas empresas.

O investigador pensa também que as políticas para os jovens não são desenhadas de forma conveniente.

Aponta o caso das políticas de empregabilidade, em que as ideias de dar mais formação, mais estágios, que seriam à partida movidas por boas intenções, mas “na maior parte das vezes acabam por ser apropriadas pelas próprias empresas e pelo mercado de trabalho como uma forma de poderem lucrar mais”.

Apesar das contrariedades e das condições difíceis que está a encontrar, Rodrigo mantêm-se positivo. “Só agora estou a começar. Não me posso ainda queixar demasiado. Ainda só agora comecei a tive a pausa grande da Covid. Portanto, não vou mandar a toalha ao chão”, afiança.

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"[Há dificuldades de] manutenção no mercado de trabalho com o mínimo de qualidade que, de alguma forma, crie condições de sobrevivência, de autonomia mínima, de autonomização", Vítor Sérgio Ferreira, investigador e socioólogo do Instituto de Ciências Sociais.

“Ainda há muito para lutar e esta é uma área onde se calhar quem consegue ter mais sucesso são aqueles que não desistem, não são aqueles que têm mais talento”, explica.

Vânia defende a mesma ideia, mas deixa um lamento. “Sempre achei que com 27 anos já estaria pelo menos a caminho de ter uma casa, não digo comprada, e já estar um bocadinho melhor financeiramente e no trabalho”, lamenta.

Por isso, diz que a situação que vive “começa a pesar”. “Não falta muito para chegar aos 30 anos e acabo por não ter nada a meu”, remata.

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  • Carlos
    29 set, 2022 Portugal 07:41
    É a triste realidade que percorremos com este nível de capitalismo. Os políticos\partidos protegem quem lhes paga as campanhas e entre eles dividem a grande parte do bolo. Não protegem de um modo geral a população e cada vez menos protegem a dignidade humana, na generalidade o grosso da população é vista como um meio para "encher" o bolso de uma minoria. Os séculos vão passando mas parece que vivemos no tempo da monarquia e a diferença que observo é a habilidade e a capacidade com que nos iludem que nós somos todos iguais e todos temos chances de ter uma vida melhor se quisermos mas no entanto não passamos de burros com uma cenoura a frente do nariz. O sonho de que é possível, a competitividade implementada para que lutemos uns contra os outros afasta-nos do caminho certo e deixa nos moribundos incapazes de nos unir-mos para que a igualdade seja uma realidade e não um sonho.

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