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Perguntas e respostas

Por que só 4% dos infetados por Covid-19 estão oficialmente curados?

22 abr, 2020 - 15:33 • Inês Rocha

Sete semanas depois do primeiro caso de Covid-19, o número de recuperados representa apenas 4% do número total de infetados. As razões? A recuperação é lenta e, mesmo depois dos sintomas, por vezes o vírus não desaparece. “Se fosse um vírus normal, não estávamos em pandemia”, lembra especialista.

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Ainda há muito por descobrir sobre o novo coronavírus, que surgiu na China no final de 2019, mas há algo que começa a ser claro: a Covid-19 é “difícil de tratar” e a recuperação dos pacientes é bastante lenta - pode ir de cerca de duas semanas a dois meses.

No fim de março, questionado sobre a evolução lenta do número de casos recuperados em Portugal, o subdiretor-geral da Saúde disse, em conferência de imprensa, que as pessoas infetadas podem demorar “até quase um mês” a recuperar completamente.

No entanto, em casos mais graves, o tempo de recuperação pode ser bem mais longo do que isso. À Renascença, o pneumologista Filipe Froes explica que o tempo de recuperação “depende da gravidade da situação”.

“Se fosse um vírus normal, não estávamos em pandemia”, lembra este especialista em doenças pulmonares e respiratórias. “Para isso, ele tem de reunir umas características que o tornam único e diferenciador na doença que provoca”.

Além da capacidade de provocar infeção numa percentagem significativa de indivíduos que não têm sintomas e o transmitem, a maior persistência do vírus nas vias aéreas, mesmo em indivíduos que já recuperaram da doença em termos clínicos, são dois dos fatores que levam este novo vírus a ter um enorme impacto à escala global.

Quanto tempo é que a Covid-19 demora a ser tratada?

Segundo o diretor do Serviço de Doenças Infecciosas do Hospital Curry Cabral, uma forma ligeira de Covid-19, com sintomatologia mais leve, que normalmente envolve tosse seca, febre, dor de cabeça e cansaço, demora “à volta de duas semanas” a recuperar.

Já em situações mais graves, com pneumonia - cerca de 15% dos casos - a recuperação pode ir “até às quatro, cinco semanas”, explica Fernando Maltez.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que uma em cada 20 pessoas com Covid-19 precisa de tratamento em cuidados intensivos.

O processo de recuperação, nos casos que necessitam de um ventilador, pode ser longo. “Depende muito da evolução da doença e do hospedeiro”, diz Filipe Froes.

Esses casos mais críticos “podem estar resolvidos só ao fim de seis a oito semanas”, acrescenta Fernando Maltez.

A infecciologista Margarida Tavares disse, em entrevista à Renascença, que, um mês e meio depois da chegada dos primeiros doentes, o Hospital de São João tem casos em cuidados intensivos “em que ainda não houve resolução clínica”.

Por outro lado, o pneumologista Ricardo Froez lembra que “depende também daquilo a que chamamos recuperação. Se for recuperação funcional, quanto mais tempo os doentes estiverem submetidos a ventilação mecânica e internados em cuidados intensivos, maior o impacto e as consequências, nomeadamente em termos de atrofia muscular e dependência”.

“Isso não é exclusivo deste agente, estas formas mais graves estão sempre sujeitas a períodos mais longos de recuperação”, explica.

Froes dá o exemplo dos doentes que seguiu durante o surto de pneumonia à legionella, em Vila Franca de Xira, em 2014.

“Houve doentes que demoraram mais de seis a 12 meses a recuperar totalmente. Alguns nem recuperaram na totalidade - uma senhora ainda tem queixas de cansaço e de limitação ao esforço”, revela.

O que explica a grande diferença entre o número de casos e o número de recuperados?

Quando olhamos para os números, salta à vista a diferença entre o número de casos recuperados em Portugal e o número total de infetados com Covid-19. Para já, os recuperados (762) representam apenas 4% do número total (21.379).

O que explica esta discrepância? Filipe Froes diz à Renascença que “não há nada de sobrenatural ou de escondido nos números”.

Segundo os critérios da Direção-Geral da Saúde (DGS), para ser considerado recuperado, o doente tem de obedecer a critérios de cura microbiológica, o que obriga à realização de duas zaragatoas com resultado negativo no espaço de 24 horas.

Estes testes devem ser feitos após 14 dias de vigilância sem sintomas ou, caso o doente se mantenha assintomático, após 14 dias da data de realização do primeiro teste. Se o exame laboratorial for positivo, o teste deve ser repetido sete dias após a data da realização do último teste.

Segundo o pneumologista, que está na “task force” da DGS para a prevenção e controlo do coronavírus, os números baixos, nas primeiras semanas, explicam-se pelo reduzido número de testes que foram realizados a doentes já sem sintomas. “Não era fácil um indivíduo já assintomático, bem, estar a gastar duas zaragatoas”, admite o médico, em entrevista à Renascença.

Entretanto, com o aumento da capacidade de oferta de testes, a partir do fim de março, mais pessoas foram submetidas a testes de cura microbiológica. Fernando Maltez, que está também na “task force” da DGS, lembra mesmo que, em termos proporcionais, Portugal é dos países que mais testa - segundo o site Wordometers, Portugal ocupa agora a 15ª posição neste ranking.

No entanto, os números continuam relativamente baixos, o que leva a outra explicação: “a doença de facto é demorada”, garante Maltez. A Covid-19 “é difícil de tratar, sobretudo quando não se tem à mão nenhum antivírico com eficácia demonstrada”, lembra.

Ainda assim, o diretor do Serviço de Doenças Infecciosas do Hospital Curry Cabral está confiante de que “vamos assistir, nas próximas semanas, a um número mais elevado de recuperações”.

Esta terça-feira, o número de recuperados superou, pela primeira vez, o de mortos, que desceu pelo terceiro dia seguido.

Por outro lado, há doentes que mantêm positividade nos testes, mesmo depois de já não terem sintomas.

“Não digo que é a maioria dos casos, mas desde o princípio que verificamos que há um número de casos em que, depois de o doente estar assintomático, as zaragatoas continuam a identificar presença de vírus”, revela Fernando Maltez.

Então, mesmo depois de curado, um paciente pode continuar a transmitir o vírus?

É possível que sim. O infecciologista Fernando Maltez diz que, “em teoria”, estes pacientes podem transmitir o vírus.

“Admite-se que o período maior de transmissão será a fase pré-sintomática, aqueles dois três dias que antecedem os sintomas. Parece que 44% das transmissões ocorrem nesse período”.

No entanto, ao longo do período com sintomas, os doentes podem continuar a transmitir. “Parece que essa carga vírica diminui mais ali por volta do sétimo, oitavo dia de sintomas, aí talvez a transmissão seja menor. Mas a duração exata do período de transmissão não é conhecida”, explica.

O risco de transmissão “não é certamente nulo. Mas provavelmente não será tão grande como numa fase inicial de sintomas, que é o maior período de contágio”, corrobora Filipe Froes.

Por que é que o coronavírus demora tanto a morrer?

O facto de ser difícil de tratar e de, mesmo depois dos sintomas tratados, poder persistir no organismo é uma das características que distinguem o novo coronavírus do vírus de gripe.

No caso da gripe, “depois da resolução clínica, as pessoas já não têm replicação viral, já não têm vírus nas vias aéreas e, portanto, já não são contagiosas”, afirma Filipe Froes.

Então, o que explica a resiliência deste vírus no organismo? Esta é uma das questões para as quais a ciência ainda não tem uma resposta.

“Não sabemos ainda. É isso que o torna diferente dos outros e que lhe permitiu ter o impacto que teve à escala global. Se não tivesse estas particularidades, provavelmente não teria tido o sucesso que este teve a desencadear uma pandemia”, conclui Filipe Froes.

Comentários
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  • Carlos
    10 mai, 2020 Almada 00:18
    Apesar de estarmos já no mês de Maio ainda não há dados da totalidade do mês de Abril. Em Março de 2020 morreram, em Portugal, mais 233 pessoas comparativamente a Março de 2019 mas menos 277 que em Março de 2018. (Fonte INE). Podemos dizer, para já, que em Portugal o impacto estatístico desta pandemia é nulo, mas ainda é muito cedo para darmos isto como certo. O número de Mortos, em Portugal, num mesmo mês do ano varia (de ano para ano) em valores que podem ultrapassar as 1000 pessoas. A título de exemplo: Março de 2014 - 9278; Março de 2015 - 10050; Março de 2016 - 10192; Março de 2017 - 9291; Março de 2018 .- 10405; Março de 2019 - 9895; Março 2020 - 10128.
  • Francisco Rodrigues
    23 abr, 2020 Torres Vedras 23:15
    Boa noite Já alguém tentou fazer uma comparação entre os mortos na data da pandemia e o ano anterior? Estatisticamente quantas pessoas morriam se não houvesse pandemia? É com um surto de gripe normal quantas pessoas morreriam? É preciso desmistificar as mortes em pessoas com mais de 70 anos... Obrigado
  • VITOR GOMES
    22 abr, 2020 PORTO 16:07
    Porque é que os profissionais, cidadãos e jornalistas colocam afirmações na comunicação social sem terem certeza do que dizem???? Ou porque são parvos, ou porque têm outros interesses!

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