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11 de setembro, 20 anos depois

Portuguesa que viveu o 11 de setembro: "Perdemos a inocência"

11 set, 2021 - 08:05 • João Malheiro

Isabelle Coelho-Marques trabalhava no Consulado Geral de Portugal, em Nova Iorque, na altura dos atentados terroristas. Vinte anos depois, esta luso-americana recorda-se do "medo e do choque" que sentiu quando viu a segunda das Torres Gémeas a cair, da resposta do Estado português e de um telefonema de Jorge Sampaio.

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O 11 de setembro de 2001 ainda vive na memória do povo norte-americano, 20 anos depois. No entanto, também houve portugueses que viveram os atentados terroristas, em Nova Iorque.

É o caso de Isabelle Coelho-Marques, luso-americana, filha de pais portugueses, que vive nos Estados Unidos (EUA), desde 1993.

Na altura, tinha 29 anos e trabalhava no Consulado Geral de Portugal, em Nova Iorque.

A caminho do trabalho, nessa manhã, estava longe de imaginar o que estava prestes a acontecer. "Nesse dia, estava a acabar de chegar a uma estação de comboios. Optei por apanhar um táxi e foi aí que o condutor me contou que um avião tinha embatido numa das Torres Gémeas. Como o inglês do senhor não era muito bom, por isso achei que ele tinha percebido mal e não levei a sério", recorda, à Renascença.

Mesmo assim, ao olhar pela janela do transporte, Isabelle via sinais de que algo, de facto, se tinha passado.

"Quando estávamos a caminho do escritório, passamos por um banco que tinha ecrãs na montra e estavam muitas pessoas paradas a olharem para a televisão", conta.

Ao chegar ao Consulado, outras pessoas disseram à lusa-americana que o primeiro avião tinha batido no World Trade Center, apesar de, no momento, "pensar-se que se tratava de um acidente" e não "saber-se que tipo de avião se tratava e se tinha sido um impacto forte ou pequeno".

Pouco tempo tinha passado, quando a equipa de segurança do edifício contou que houve um segundo impacto, de outro avião.

"De imediato, houve um pedido de evacuação do edifício. Quando cheguei ao rés-do-chão, já andava a polícia a percorrer as ruas, de carro com altifalantes, para avisar que as pessoas se deviam dirigir para as extremidades da ilha, ou seja, perto da água", explica Isabelle.

Os telefones pararam de funcionar, enquanto um mar de pessoas saía de prédios e caminhavam ou conduziam até aos locais indicados pelas autoridades. As pessoas "iam calmas", até que caiu a primeira Torre.

A luso-americana não tinha visto o acontecimento "e nem acreditava que algo assim pudesse acontecer. Era surreal".

No entanto, quando Isabelle chegou à periferia da ilha, viu a nuvem da poeira e, pouco depois, assistiu à segunda Torre a cair.

"As pessoas choravam, incrédulas. Estranhos abraçaram estranhos. Pairava no ar o choque. Recordo-me, nitidamente, de todos estarem só a olhar para a frente, em silêncio", lembra.

A resposta portuguesa e a chamada de Sampaio

Isabelle Coelho-Marques refere que a comunidade portuguesa de Nova Iorque partilhava "o medo" dos norte-americanos.

"Havia preocupação para saber o paradeiro dos familiares e amigos e se estavam a ver ou não. No consulado, tivemos imensos pedidos de paradeiro, em Nova Iorque", aponta.

"O Ministério de Negócios Estrangeiros português abriu uma linha de apoio, em Lisboa, para que as pessoas residentes, em Portugal, pudessem telefonar a pedir ajuda e informações de familiares. Foram milhares de pedidos. Havia uma sobrecarga. Muitos não conseguiam ligar", acrescenta.

As ligações luso-americanas do Estado português "foram cruciais" para ajudar a localizar e reconectar famílias, depois do atentado, considera Isabelle Coelho-Marques.

A luso-americana recorda-se que os dias a seguir ao atentado foram "extremamente longos" e de muito trabalho.

"O consulado só tinha dois funcionários que viviam em Nova Iorque. Os restantes, residiam em Nova Jersey. Só uma semana depois é que voltaram ao serviço, porque os acessos foram cortados. Eu e o senhor embaixador fomos os únicos que pudemos ir trabalhar", explica.

Isabelle Coelho-Marques lembra-se de voltar ao trabalho logo no dia 12 de setembro, "porque tivemos de assumir a responsabilidade de uma missão diplomática".

"Só falei com a minha família, em Portugal, no dia 13" aponta.

A luso-americana recorda ainda uma chamada do então Presidente da República, Jorge Sampaio, que "deu bastante ânimo".

"Falou connosco a agradecer em nome do Governo e de Portugal, pelo trabalho que estávamos a fazer, sob grande pressão. Falou com todos os funcionários", conta.

"Até hoje, não consigo ouvir um avião sem olhar para cima"

"Demorou-me imenso tempo a acreditar no que tinha acontecido", admite Isabelle Coelho-Marques.

O 11 de setembro foi "um choque" para a luso-americana e também para os EUA que acabou com "a ideia de que nada acontecia desta dimensão em solo americano".

"Perdemos a inocência. Passamos a sentir uma enorme vulnerabilidade", conta, à Renascença.

"A normalidade passou a ser outra. As pessoas têm mais consciência do perigo. Até hoje, não consigo ouvir um avião sem olhar para cima", acrescenta.

Em contraponto a todo o sofrimento provocado pelo 11 de setembro, Isabelle Coelho-Marques acredita que o atentado também demonstrou "o melhor do ser humano".

"Havia milhares de pessoas que se dirigiam, diariamente, ao Ground Zero, para ajudarem. Traziam material, roupa e comida para quem estava lá a trabalhar nos escombros. Qualquer pessoa que viveu na cidade nessa altura, sentiu que através daquele momento de dificuldade, viu-se a solidariedade para com os outros", conclui.

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  • Ivo Pestana
    11 set, 2021 Funchal 10:48
    Um dia terrível. Estava a almoçar e vendo o telejornal. Fiquei atónito, pensava que um avião tinha embatido por acidente, mas depois foi o que sabemos. O ser humano quando quer é o pior animal na Terra e não existimos para isto.

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