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Crónica fotográfica

A subtração da humanidade. Auschwitz, 75 anos depois

27 jan, 2020 - 06:15 • Pedro Mesquita (fotos e texto)

No dia em que se comemoram 75 anos da libertação do campo de concentração, fazemos uma viagem fotográfica pelo campo de Auschwitz-Birkenau.

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Toquei os carris quentes do Sol. Só antes os tinha visto em filme. Mas o pior foi quando entrei num dormitório: piso de terra e três andares de estrados em madeira. Dormiam cinco pessoas juntas, em cada um.

Parece que lhes ouvi a voz, ainda. Quase senti o cheiro e a respiração. Foi como se tudo tivesse sido abandonado na véspera, à pressa.

Tocar naquelas paredes, imaginar os olhares assustados pelas janelas e encontrar um pequeno fogareiro intacto, ainda com pedaços de carvão queimado, transportou-me a um momento de brutal desumanidade.

É impossível ficar indiferente ao ver todos aqueles sapatos, os óculos e as malas com que ali chegaram, de comboio, milhares de judeus.

Não muito distante, no campo de Majdanek, conheci Gdisuave Badiô. Todos os dias, o preso n.º 16.291 visita as suas memórias e, desta vez, levou-me consigo ao holocausto. Era para ser uma entrevista, mas limitei-me a duas perguntas. Na primeira, pedi que me recordasse o dia em que foi preso pelos nazis. Ouvi em silêncio porque me deixou sem palavras:

“Uma noite, a minha aldeia foi cercada pela polícia militar alemã. Prenderam 60 pessoas, eu incluído. Outros foram mortos. Levaram-nos para uma prisão. Ninguém sabia o que se estava a passar. Quase uma semana depois, fomos transportados de comboio para Lublin. Passamos para as mãos das SS, que chegaram com cães e nos trataram como se fossemos criminosos. Da estação, caminhámos até ao campo de concentração de Majdanek. Parámos junto a um pavilhão de madeira, onde funcionava uma câmara de gás. O nosso cabelo foi rapado e conduziram-nos ao chuveiro. Cada um dava para 30 ou 40 pessoas. Depois recebemos fardas às riscas e foram-nos atribuídos números."

"A partir dessa altura, todos éramos números, eu era o n.º 16.291. De manhã, junto ao pavilhão, éramos contados e divididos em vários grupos de trabalho. Logo no primeiro dia, fui espancado porque me enganei no grupo. Em vez de me apresentar no bloco 14, fui para o 15. Todos vestíamos de igual, era fácil o engano. Um dia, um amigo meu sentiu-se mal e teve que ir ao médico. Nunca mais regressou. Fiquei mais tarde a saber, por alguns prisioneiros, que todas as pessoas que se juntaram na fila para o médico foram mortas na câmara de gás. Todos os meus vizinhos da aldeia foram mortos.”

Sempre achei que as perguntas só fazem sentido quando há respostas. Mudei de opinião à segunda pergunta: porquê?

Ouvi um longo silêncio que guardei nesta imagem.

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