A Venezuela de Maduro. Da inflação de 1.000.000% aos 3.7 milhões de venezuelanos subalimentados

10 jan, 2019 - 02:17 • Joana Gonçalves , Joana Bourgard , com agências

Milhares manifestam-se na Venezuela contra Maduro, no mesmo dia em que o chefe da Assembleia Nacional venezuelana se declara Presidente interino do país.
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Que Venezuela recebe hoje Nicólas Maduro?
Que Venezuela recebe hoje Nicólas Maduro?

Nicolás Maduro foi reeleito, em maio de 2018, para um segundo mandato de seis anos.

Sem o reconhecimento de cerca de 40 países, entre os quais Portugal, Estados Unidos e Brasil, o Presidente da Venezuela tomou posse no passado dia dez de janeiro, numa cerimónia que somou muitas cadeiras vazias.

O país que o elegeu em 2013 não é o mesmo que no início do mês o recebeu. A Venezuela está mais pobre, menos segura e enfrenta novas formas de censura. E Maduro cada vez mais isolado.

O aumento da taxa de inflação, da pobreza e da criminalidade traduz-se num acentuado declínio socioeconómico do país. Os venezuelanos estão descontentes e cerca de 3 milhões já fugiram da crise humanitária que assola o país.

O presidente da Assembleia Nacional da Venezuela (Parlamento), Juan Guaidó, de 35 anos, autoproclamou-se esta quarta-feira Presidente interino do país.

Fome e pobreza extrema

Na Venezuela, 87% da população é pobre e 61% vive em pobreza extrema. Segundo dados da organização não-governamental Coligação de Organizações pelo Direito à Saúde e à Vida (Codevida), pelo menos 55% das crianças venezuelanas com menos de cinco anos de idade sofre de subnutrição.

Com 3.7 milhões de venezuelanos com carência alimentar, a Venezuela é o país da América Latina com maior número de pessoas subalimentadas, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura. Entre 2015 e 2017 a subalimentação atingiu 11,7% da população, o que representa um aumento de 600 mil pessoas.

Em novembro do ano passado, o Presidente da Venezuela aceitou, pela primeira vez, ajuda humanitária das Nações Unidas no valor de 8.14 milhões de euros, reconhecendo assim o estado de crise económica e social em que se encontra o país.

Níveis históricos de inflação

A descida nos preços do barril de petróleo desencadeou uma acentuada perda de receitas de exportação, com grande impacto na balança comercial.
O abastecimento de bens essenciais sofreu um grande abalo e a inflação atingiu os 180% em 2015.

Em 2018, a Venezuela registou 1.698.488,2% de inflação, um valor mais alto que a anterior projeção do Fundo Monetário Internacional.

Durante uma conferência de imprensa em Caracas, o porta-voz da Comissão de Finanças e Desenvolvimento Económico da Assembleia Nacional, controlada pela oposição ao regime de Maduro, adiantou que a inflação acumulada entre janeiro e dezembro do último ano confirma a maior e mais grave crise histórica hiperinflacionária no país.

Em agosto de 2018, um quilo de carne custava em média 9.500 bolívares. O atual salário mínimo na Venezuela é de 4.500 bolívares soberanos, aproximadamente 46 euros.

Crise migratória

Dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) revelam que três milhões de pessoas já fugiram da crise económica, social e política que se vive na Venezuela, o valor mais elevado desde 2015.

A maioria dos venezuelados procuram abrigo em países vizinhos como a Colômbia, o Peru, o Brasil e o Equador.

Só à Colômbia calcula-se que cheguem diariamente três mil pessoas. O Governo de Bogotá a prevê que o número possa chegar aos quatro milhões até 2021.

A mesma crise motivou o regresso a Portugal de 7 mil cidadãos que viviam na Venezuela.

O número de pedidos de nacionalidade portuguesa de cidadãos venezuelanos em consulados na Venezuela foi de 8.299 até outubro, um aumento de 82,6% relativamente a 2017, segundo dados do Instituto dos Registos e Notariado.

A maior taxa de homicído do mundo

Em 2018, o Observatório Venezuelano de Violência registou 23.047 mortes violentas no país, 10.422 das quais por homicídio, 7.523 por resistência às autoridades e 5.102 estão em investigação.

Apesar de ter diminuído no ano passado, como possível consequência da crise migratória, a Venezuela apresenta a mais elevada taxa de homicídios do mundo. Em 2018 foram registados 81,4 homicídios por cada 100 mil habitantes.

Por outro lado, o número de roubos a agricultores e camiões de distribuição de alimentos aumentou em 2018. Uma realidade que facilmente se compreende, tendo em conta a grave crise económica que atravessa o país e o exponencial aumento da inflação.

Tortura e novas formas de censura

Em 2018, o Instituto de Imprensa e Sociedade acusou o Governo venezuelano de bloquear servidores, impedindo o acesso a alguns sites noticiosos. O incidente ocorreu em junho e foi apelidado pelo próprio instituto como “uma nova forma de censura”.

Já em agosto, as autoridades da Venezuela ordenaram às operadoras locais de televisão por cabo a suspensão da emissão da Deutsche Welle (DW-TV) durante a transmissão de um documentário sobre a emigração venezuelana em tempos de crise.

O regime de Maduro proibiu, também, a transmissão dos canais internacionais NTN24 (Colômbia) e a versão em espanhol da norte-americana CNN.

No mesmo ano, foram documentados 190 novos casos de vítimas de tortura e 11 desaparecidos, na Venezuela.

Segundo a advogada especialista em Direitos Humanos, Tamara Suju, durante o primeiro mandato de Nicólas Maduro foram torturadas 576 vítimas, sendo que “cerca de 60% dos casos são de militares”.

A advogada dá ainda conta de “padrões de torturas incisivas, como o uso de eletricidade, o afogamento e a asfixia como tortura reiterada, ou seja, de pessoas que não apenas foram torturadas uma vez desta forma, mas periodicamente durante a detenção”.


Artigo atualizado às 20h de dia 23 de janeiro.

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  • Pedro
    10 jan, 2019 Porto 22:19
    Este país, a Venezuela, seria um bom lugar para a Sr Catarina viver! Seria uma espécie de estágio para a próxima geringonça!