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Estoril Open

“É até à última, João!”: foi assim a despedida de Sousa do seu querido ténis

04 abr, 2024 - 11:35 • Hugo Tavares da Silva

O tenista português que venceu quatro torneios ATP e chegou a 28 do mundo disse adeus ao ténis, no court onde foi tantas vezes feliz, junto dos pais, irmão, treinador e companheiros de labuta.

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“É até à última, João!”, gritaram-lhe. E foi mesmo. Foi a derradeira bola da vida de tenista de João Sousa, no court principal do Estoril Open. Era uma despedida anunciada, que, apesar do ótimo nível apresentado pelo vimaranense, ameaçava ficar-se pela primeira ronda graças a um mui jeitoso Arthur Fils.

As bancadas iam-se enchendo de testemunhas que não queriam perder a entrada no sossego eterno das cordas da raquete do melhor tenista português de todos os tempos. Antes disso, para ajudar, retomou-se e concluiu-se rápido, rapidamente o encontro entre Cristian Garin e Jurij Rodionov, que começou às 20 horas de segunda-feira e terminou apenas às 16h10 de quarta-feira, graças à chuva impiedosa que empapou os campos e as expectativas dos amantes de ténis. Foi o jogo mais longo da história do Estoril Open.

As mãos das pessoas estalaram umas contras as outras, numa manobra habitualmente reconhecida como palmas, quando João Sousa entrou no court. Seria a última vez? Espera-se sempre que não, admite-se sempre que sim. O silêncio durante o aquecimento surpreendeu. A alma de Sousa deveria estar noutro registo, mais barulhento que o volume incompreensível da música que alegra os senhores do copo na mão e os cartolas e os homens e mulheres importantes que fazem negócios e os que são vips, ou os que são tudo ao mesmo tempo, ali na tenda ao lado.

João Sousa deu início ao jogo exatamente às 15h25, com um excelente serviço, respondido para fora por Fils, um francês novinho e fresco, com uma capacidade de aceleração e pancadas assombrosas. Não vamos à fisicalidade do garoto porque é avassaladora e seriam precisos mais teclados para dar vazão às ideias filhas da admiração.

Os dois iam-se digladiando com astúcia. O pó subia, talvez tentando ver de cima aquela belíssima jogatana. O sol finalmente aceitou a convocatória e quase fazia estalar a pele das tais testemunhas como estala a lenha da lareira. Quando Sousa escorregou, após um amorti, ouviu-se um quase eterno “bruaaah”, enquanto o tenista ainda morava rente à terra. O drama estava garantido.

“Vamos, João”, “bora, João!”, suplicavam miúdos e não tão miúdos, honestos na vontade de ver o tenista nacional a ser feliz e a triunfar. Fils fez um break. Sousa devolveu o break pouco depois. O público ia estando sereno, muito longe de criar o caldeirão vivido por Nuno Borges quando a chuva o despertou e assinou uma remontada admirável.

Depois dos amortis, que o corretor deste computador teima em sugerir mudar para “amores” (e bem), e dos breaks nas duas direções, chegou um momento cheinho de dignidade. “Acho que a bola é boa”, disse ao árbitro João Sousa, corrigindo uma má decisão e limpando a terra que descansava na linha. Os que estavam nas bancadas adoraram o gesto. A grandeza tem muitas camadas.

Arthur Fils, num furioso e impecável ténis, fechou o primeiro set. O tenista português ia resistindo a vociferar contra o mundo, assim como a atirar a raquete contra a terra que estava só ali a fazer o seu trabalho também. A frustração ia surgindo, seguramente desta vez por ver que o seu ótimo ténis não estava a chegar. Do outro lado, Fils tinha uma capacidade impressionante para meter bolas ao pé das linhas ou em cima das linhas. “Vamos, João, tu consegues”, berrou uma criança.

Temia-se que as pernas do bom João Sousa não aguentassem a pedalada de Fils, um furacão que diz que o seu sonho desde os cinco anos é ser número 1 do ténis e ganhar um major. A inspiração deste francês de 19 anos vem de Lewis Hamilton. Mas Sousa ia combatendo, batendo grandes bolas. Mais tarde, um funcionário da organização admitiria que o tenista se preparara muito bem.

O jogo foi discutido, e voltou a ser salpicado pela decência, quando Arthur Fils também devolveu a gentileza e admitiu que uma bola de Sousa era boa. Um amorti divino de João Sousa empolgou o público. Mas o desfecho estava escrito nas nuvens. Fils, que depois diria que Sousa fez um jogo incrível para quem fazia o último jogo da carreira, errava pouco e chegava a todo o lado.

“É até à última, João!”, gritaram-lhe. E foi mesmo. Sousa retirou o boné, sacudiu a melena, cumprimentou Arthur Fils, parecia bater-lhe no peito como quem elogia. Bateu palmas devolvendo as palmas, estava agradecido. Fora do court, ao nível da terra, estavam colegas de tempos idos e os mais novinhos, que depois, durante a cerimónia, acabariam por invadir o court para o abraçar. Jaime Faria diria a Bola Branca, pouco depois, que Sousa sempre o inspirou e que, nos poucos torneios em que se cruzaram, tentou “sugar” dele informação e conhecimento. "O João é uma excelente pessoa e um excelente atleta."

Também Adelaide e Marinho, os pais, e o irmão Luís entraram em campo para a despedida emotiva ao jogador, de 35 anos, que conquistou quatro torneios ATP 250 e chegou a 28 do mundo. Frederico Marques, o treinador, parecia o mais abalado. Havia rostos com lágrimas. A organização passou um vídeo com alguns momentos do tenista de Guimarães e destacando, pois claro, a vitória no Estoril Open em 2018, provavelmente o momento mais alto da carreira.

Sousa fez um resumo da vida que acabava, ainda que seja um “até logo”. Abanou quando se dirigiu à família, está-lhes “eternamente grato”, confessou.

“Não podia ter escolhido melhor palco para terminar a minha carreira.”

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