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WTA ameaça sair da China após desaparecimento de Peng Shuai

19 nov, 2021 - 15:15 • Redação

Peng Shuai, de 35 anos, acusou um antigo vice-primeiro-ministro sénior da China de coerção sexual. O seu paradeiro é desconhecido desde então. WTA disposta a perder milhões de dólares se a situação da tenista chinesa não for esclarecida.

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A Associação de Ténis Feminino (WTA) ameaçou, esta sexta-feira, retirar todos os seus torneios da China, na sequência do desaparecimento da tenista Peng Shuai, que no passado dia 2 de novembro acusou um antigo vice-primeiro-ministro sénior daquele país de coerção sexual.

Peng Shuai, de 35 anos, publicou sua conta oficial da rede social Weibo (equivalente ao Twitter na China) uma carta aberta a Zhang Gaoli, primeiro vice-primeiro ministro chinês entre 2013 e 2018, em que o acusou de forçá-la a ter relações sexuais há três anos. O "post" foi apagado e a conta de Peng bloqueada a pesquisas. A tenista não foi vista em público desde então e o seu paradeiro é desconhecido.

Em entrevista à CNN, na madrugada desta sexta-feira, o CEO e presidente da WTA, Steve Simon, garantiu estar disposto a perder milhões de dólares de negócio na China se o paradeiro de Peng Shuai não for esclarecido e se as alegações da tenista chinesa não forem devidamente investigadas.

"Estamos definitivamente dispostos a retirar o nosso negócio [da China] e a lidar com as complicações que daí advenham. Porque isto é certamente maior do que qualquer negócio. As mulheres precisam de ser respeitadas e não censuradas", sublinhou o dirigente norte-americano.

E-mail dúbio, WTA pede provas. #WhereIsPengShuai


Na quarta-feira, conforme a CGTN Europe, órgão social estatal da China, adiantou no Twitter, Peng Shuai enviou, alegadamente, um e-mail à WTA, em que esclarecia que as notícias do seu desaparecimento, assim como da agressão sexual que teria sofrido, "não são verdadeiras".

De acordo com o e-mail divulgado, a jogadora chinesa assegura que "não está em perigo" e mantém-se em "casa". Também deixa claro que, se a WTA publicar mais notícias a seu respeito, o conteúdo deve ser "verificado consigo e divulgado após o seu consentimento".

No mesmo dia, em comunicado, Steve Simon realçou ter "dificuldade em acreditar que Peng Shuai realmente escreveu" aquele e-mail e pediu "uma prova independente e verificável de que ela está segura".

"[Peng Shuai] deve ter permissão para falar livremente, sem coerção ou intimidação de qualquer fonte", reforçou o presidente da WTA.

Nas redes sociais, foi lançado um movimento com a pergunta "Onde está Peng Shuai" (#WhereIsPengShuai), após as supostas acusações feitas pela tenista chinesa. Jogadores influentes como Naomi Osaka, Serena Williams e Novak Djokovic, além de personalidades de outros desportos, incluindo a futebolista internacional portuguesa Jéssica Silva, têm partilhado a sua preocupação com a segurança de Peng Shuai.

A história que Peng Shuai contou e foi silenciada


Segundo as capturas de ecrã que ainda sobrevivem da publicação no Weibo, a relação entre Peng Shuai e Zhang Gaoli começou há mais de 10 anos, quando o político era o líder do Partido Comunista da China (PCC) de Tianjin, e terminou quando ele foi promovido ao Comité Permanente do Politburo Central do PCC, em Pequim, a capital daquele país.

Um dia, há cerca de três anos, segundo o "post", quando Zhang Gaoli, hoje de 75 anos, já se tinha reformado, Peng Shuai terá sido subitamente convidada para jogar ténis com ele em Pequim. Depois disso, Zhang e a mulher, Kang Jie, convidaram Peng para casa deles. Aí, a tenista alega que foi pressionada para ter relações com Zhang.

"Naquela tarde, primeiro, não concordei e não parava de chorar", escreveu Peng. Depois de jantar com Zhang e a mulher, e depois de grande insistência do político, a tenista cedeu: "Estava em pânico e assustada e concordei fazê-lo com os meus sentimentos por ti de há sete anos."

Peng Shuai alegou, também, na mesma publicação, entretanto apagada, que a mulher de Zhang ficara de guarda à porta durante o incidente.

"Porque tiveste de voltar para mim, levar-me para tua casa para me forçares a fazer sexo contigo? Não tenho provas. É simplesmente impossível ter provas. (...) Não consigo descrever quão enojada estava e quantas vezes me questionei: 'Ainda sou humana?' Sinto-me um cadáver ambulante. Todos os dias fingia. Quem é o meu 'eu' verdadeiro?", lê-se.

Peng escreveu, ainda, que entrou, então, numa relação extraconjugal com Zhang, mas que sofreu "demasiada injustiça e insultos". Admitiu, também, que não tem provas que fundamentem as suas acusações contra Zhang, que sempre receou que ela gravasse o que quer que fosse.

O "post" de Peng Shuai, de 1.600 palavras, foi eliminado em menos de 30 minutos e muitos dos "screenshots" que circularam desde então, assim como vários "post" de especulação, foram também censurados. A conta oficial da tenista mantém-se ativa, mas está bloqueada a pesquisas.

Peng Shuai, de 35 anos, já foi líder do "ranking" feminino de pares. Venceu 23 títulos de pares femininos, entre os quais dois Majors: uma vez em Wimbledon, em 2013, e outra em Roland Garros, em 2014.

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