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Opinião Católica-Lisbon

Portugal em stress hídrico

26 fev, 2024 • Marta Lima • Opinião de Marta Lima


Ao adotar práticas sustentáveis, investir em infraestrutura e aumentar a conscientização sobre o uso responsável da água, Portugal pode enfrentar os desafios da escassez de água e construir um futuro resiliente em relação à água para as gerações futuras.

A quantidade de água existente no planeta Terra mantém-se inalterada desde que apareceu pela primeira vez há 3,8 mil milhões de anos! A água faz parte de um ciclo global que envolve um período de reposição. É um ciclo fechado que tem o seu próprio ritmo, o qual não está alinhado com o da nossa sociedade, onde o imediatismo impera. É necessário um pensamento estratégico de longo prazo para permitir que a água recupere o seu papel principal: como um recurso para o futuro, uma fonte de vida.

Uma das coisas que aprendemos nos últimos dez, 15 anos, especialmente com o uso de satélites, é que muitos reservatórios subterrâneos de água estão a esgotar-se rapidamente. Obviamente, porque estão subterrâneos, são invisíveis. Não os vemos, e as populações não se apercebem. Mas eles são como uma conta bancária: estamos a fazer levantamentos e estamos a endividar-nos.

A água é tão importante para a economia mundial como o petróleo ou a “big data”. Embora a maior parte do planeta esteja coberta por água, mais de 97% é água salgada. A água doce representa o restante, embora a maior parte esteja congelada, restando menos de 1% da água do mundo disponível para sustentar processos humanos e ecológicos.

De destacar ainda, a título de curiosidade, que o corpo humano, tal como o planeta Terra, possui 70% de água na sua composição, o que necessariamente implica pensar neste recurso como algo absolutamente crucial para qualquer plano de desenvolvimento sustentável. Sem água não há vida, no entanto podemos afirmar que a temática do stress hídrico tem tido muito menos protagonismo na esfera pública do que outros temas ambientais com a poluição dos plásticos ou a pegada carbónica. A explicação é simples: a questão da água é o oposto do problema do carbono; a causa é global, mas sua manifestação é altamente espacial e pode ser abordada de maneira concentrada, caindo infelizmente na “ratoeira do problema dos comuns”.

Se olharmos para a situação do nosso país, Portugal enfrenta desafios significativos relacionados com o stress hídrico no seu território, os quais exigem atenção urgente para o desenvolvimento de soluções estruturantes e sustentáveis. Os recursos hídricos do país estão sob maior pressão devido a uma combinação de fatores, incluindo as mudanças climáticas, o crescimento populacional, as necessidades agrícolas e práticas ineficientes de gestão e distribuição da água.

Atualmente, Portugal está a passar por períodos de seca e padrões irregulares de precipitação, agravando a pressão sobre as fontes de água. As regiões do Sul, em particular, são mais vulneráveis à escassez de água devido ao seu clima semiárido. A redução das chuvas e o aumento das temperaturas associadas às mudanças climáticas contribuem para uma diminuição na disponibilidade de água, afetando rios, reservatórios e níveis de água subterrânea.

Segundo os dados do estudo da Fundação Calouste Gulbenkian “O uso da água em Portugal”, a agricultura é o principal utilizador de água em Portugal, sendo responsável por 75% do consumo total, muito acima dos 24% da média dos restantes países europeus. Os métodos tradicionais de irrigação, abundantes em Portugal, frequentemente são ineficientes. A transição para práticas agrícolas mais sustentáveis e eficientes no uso da água é essencial para aliviar a pressão sobre os recursos hídricos. A adoção de tecnologias como a irrigação gota-a-gota e a promoção de variedades de culturas resistentes à seca podem contribuir para um uso mais responsável da água no setor agrícola. Vemos já, aliás, excelentes exemplos de modernização em várias explorações agrícolas portugueses, no entanto não podemos ignorar o largo número de agricultores que ainda não paga o recurso produtivo mais importante, a água, podendo conduzir a uma utilização displicente da mesma.

O crescimento da população urbana também sobrecarrega os fornecimentos de água, com aumento da procura para fins domésticos e industriais. A urbanização e as atividades industriais frequentemente resultam em poluição, afetando a qualidade da água disponível. O tratamento adequado de águas residuais e medidas rigorosas de controle da poluição são cruciais para manter a integridade das fontes de água e garantir um abastecimento sustentável de água tanto para comunidades urbanas quanto rurais.

O setor industrial, que abrange desde a manufatura até a produção de energia, também é suscetível à escassez de água. Indústrias que dependem fortemente da água nos seus processos podem enfrentar interrupções e custos operacionais mais altos durante períodos de stress hídrico. A qualidade das fontes de água disponíveis pode impactar as operações industriais, com a diminuição da qualidade da água a afetar os processos de produção. Investir em tecnologias eficientes no uso da água, implementar sistemas de reciclagem de água e adotar métodos de produção ambientalmente positivos podem aumentar a resiliência do setor industrial a desafios relacionados à água.

Também o setor do turismo, vital na economia portuguesa, representando quase 16% do PIB em 2023, pode ser influenciado pelo stress hídrico. As paisagens pitorescas, locais históricos e áreas costeiras do país atraem milhões de visitantes a cada ano, podendo a escassez de água afetar o apelo dessas atrações, potencialmente impactando as receitas do turismo. Práticas sustentáveis no turismo que considerem a conservação da água e o uso responsável podem ajudar a manter a atratividade dos destinos turísticos de Portugal, enquanto mitigam os impactos económicos do stress hídrico.

Como resposta ao atual stress hídrico, Portugal necessita implementar várias medidas para melhorar a gestão da água. Podem passar por soluções mais “tradicionais” como o desenvolvimento de infraestrutura de armazenamento de água, a promoção de tecnologias economizadoras de água e o estabelecimento de políticas de conservação da água, sem esquecer a muito necessária atualização da atual rede de distribuição pública de água, uma estrutura com mais de 30 anos que necessita de uma intervenção séria para reduzir as elevadas perdas. Pode igualmente passar por soluções mais inovadoras, como a recuperação de águas cinzentas, a utilização de água de diferentes qualidades para diferentes finalidades, a dessalinização, etc. As políticas governamentais devem incentivar práticas eficientes no uso da água na agricultura e na indústria, estimular investimentos em tecnologias sustentáveis e promover o uso responsável da água no turismo. Independentemente das soluções escolhidas, enfrentar os desafios futuros requer uma abordagem holística que integre o uso sustentável da água em todos os setores da sociedade.

A cooperação internacional é vital para lidar com questões transfronteiriças da água e garantir a gestão sustentável de recursos hídricos partilhados. Esforços colaborativos com países vizinhos podem ajudar a implementar estratégias eficazes de conservação da água, partilhar melhores práticas e mitigar os impactos do stress hídrico nos ecossistemas e nas comunidades. Como exemplo temos a Convenção de Albufeira, celebrado entre Portugal e Espanha em 1998, criando um quadro de cooperação e coordenação para a proteção das massas de água, dos ecossistemas aquáticos e terrestres e para o uso sustentável dos recursos hídricos da Península Ibérica.

Em conclusão, a situação atual e futura de stress hídrico em Portugal requer uma abordagem multifacetada envolvendo iniciativas governamentais, avanços tecnológicos, participação da comunidade e agentes económicos, e cooperação internacional. Ao adotar práticas sustentáveis, investir em infraestrutura e aumentar a conscientização sobre o uso responsável da água, Portugal pode enfrentar os desafios da escassez de água e construir um futuro resiliente em relação à água para as gerações futuras.

O stress hídrico em Portugal não apresenta apenas desafios ambientais e sociais, mas também implicações significativas para a economia do país. As dimensões económicas do stress hídrico em Portugal exigem uma abordagem estratégica e coordenada. Ao incorporar a gestão da água nas políticas económicas, promover práticas sustentáveis em todos os setores e aproveitar oportunidades de colaboração internacional, Portugal pode enfrentar os desafios económicos impostos pela escassez de água, ao mesmo tempo em que promove a resiliência a longo prazo e a prosperidade.


Marta Lima, Executive Director do Pacto para a Gestão da Água da Católica Lisbon School of Business & Economics

Este espaço de opinião é uma colaboração entre a Renascença e a Católica-Lisbon School of Business and Economics

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