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Ana Moura quer “desbravar terrenos” na sua carreira ao lançar “Andorinhas”

30 abr, 2021 - 10:16 • Maria João Costa

Ana Moura está a trabalhar num novo disco a lançar este ano. A fadista deixou a editora e a agência e lança-se agora num projeto em nome próprio. Quer uma nova relação com o público através do digital e explorar novas sonoridades.

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É uma consequência da travagem a fundo que a pandemia impôs no mundo dos espetáculos. Ana Moura aproveitou o momento para dar um novo fôlego na carreira. A fadista desvinculou-se da editora, agência e manager e quer agora ser ela a gerir os seus destinos, mas não o quer fazer sozinha. Para isso, quer criar uma relação mais direta com o seu público através das possibilidades que as redes digitais permitem. “Andorinhas” é o primeiro single conhecido esta sexta-feira. É um “tirar os pés do chão, voar daqui para fora”, como canta nesta entrevista, em que explica as influências musicais que quis trazer para esta nova etapa artística.

Este novo single, “Andorinhas”, marca uma viragem na carreira, quer em termos de forma de a trabalhar, quer também pela nova sonoridade. O que a levou a trilhar este novo caminho?

Já tinha há imenso tempo esta vontade de reunir todos os universos musicais que influenciam a minha música e queria que a música que eu faço reunisse todas essas influências musicais. A minha mãe é angolana, o meu pai é de Amarante e os meus pais quando vieram para Portugal, na altura da Revolução, em 1974, a minha mãe como era professora andou a saltitar porque era muito novinha, não estava colocada efetiva em lugar nenhum e, portanto, andava de terra em terra e por isso é que eu nasci no Ribatejo e o meu irmão em Paredes, ao lado do Porto. Todas estas viagens acabaram por me influenciar musicalmente.

Quis reunir esses ritmos diferentes em que cresceu?

Tanto vibro com o malhão do Norte, como vibro com o fandango do Ribatejo, com o Fado, com o Semba que é a música tradicional angolana e, portanto, eu tinha imensa vontade já há imenso tempo de reunir todas estas influências. Nos últimos tempos tenho procurado juntar-me a pessoas que também se identifiquem com esta linguagem e ideia de multiculturalidade e encontrei dois amigos, produtores que se demostraram muito interessados musicalmente. Juntei-me com eles em casa, na altura do primeiro confinamento, e começamos a criar.

Este renascer musical advém também da paragem que a pandemia impôs?

Sim, acabou por me ajudar. Tenho imensa dificuldade em dizer que não quando me surge um convite qualquer. Tanto que tinha pedido à agência e ao manager com quem trabalhava para não me marcar nada, para me dedicar ao disco que estava a gravar que acabou por não sair. Mas a verdade é que, mesmo eles não procurando, iam caindo convites e eu tinha imensa dificuldade em dizer que não.

Nesse aspeto, a pandemia acabou por ser uma ajuda? Obrigou a travar a fundo nos concertos.

O facto de o mundo estar parado ajudou-me a ficar mais tranquila e a não sentir aquela pressão de que poderia estar a fazer isto ou aquilo. Estava completamente entregue à criação destas músicas e deste álbum e isso foi muito positivo.

“Andorinhas” simboliza um levantar de voo, uma liberdade também pela rutura que faz dos laços contratuais que tinha no mundo da música?

Sim, eu fui muito bem acompanhada durante estes anos, tanto pela minha editora, como pela minha agência, e pelo meu manager. Concretizamos sonhos muito bonitos juntos. Sem eles, eu não os teria concretizado e foram momentos muito bonitos, mesmo. Mas eu comecei a sentir necessidade de realizar sonhos. Comecei a sentir que essas estruturas também estavam a realizar os seus próprios sonhos e que desta forma como eu os queria realizar, senti que iria ter dificuldades. Comecei a procurar pessoas que pudessem potencializar os meus sonhos e ter uma entrega total. Que fossem de encontro ao meu pensamento. Consegui criar uma pequena equipa que consegue ter a entrega que eu necessito neste momento.

É arriscar num mundo da música mais padronizado?

O mundo está em constante mudança, eu tenho estado atenta áquilo que a tecnologia nos proporciona e estou a querer desbravar novos terrenos com a ajuda das novas tecnologias.

De que forma é que quem gosta e ouve a sua música pode fazer parte e contribuir para este novo caminho?

Nós estamos cada vez mais próximos do nosso público e eu sinto que posso fazê-lo sem intermediários, através, por exemplo, das redes sociais, do Facebook ou do Instagram. Podemos falar diretamente com o público que nos acompanha. O público tem parte ativa, não é só um consumidor. O público, hoje em dia, ao fazer uma playlist e a escolher as minhas músicas, se tiver mil seguidores, eles fazem parte ativa da construção da minha carreira. Isto é uma ideia que me agrada imenso. O público pode beneficiar do meu sucesso, ser investidor de parte da minha carreira, e receber os retroativos. É muito mais poético. É muito bonito que sejam as pessoas que estão ligadas à minha música emocionalmente a serem, por exemplo, donas delas. É uma ideia que me agrada imenso, esta proximidade maior com o meu público.

Nesse aspeto, a letra de “Andorinhas” que diz que as “andorinhas é que são rainhas / a voar as linhas da liberdade” tem um duplo sentido?

Nunca pensei vir a escolher este tema como primeiro single, mas realmente faz todo o sentido. Este tema reúne as caraterísticas que me fizeram dar este passo enorme na minha vida. É essencialmente a liberdade, a força e a independência. “Eu quero tirar os pés do chão, voar daqui para fora e só voltar um dia” [canta]. Sinto que as pessoas precisam desta força também neste momento das suas vidas por causa daquilo que estamos a passar. Não é só a mim que esta música serve, pode servir a muita gente que precise de se ligar a estes estímulos que lhes deem força para serem livres e fazerem as suas próprias escolhas e voarem para onde quiserem.

O vídeo que é lançado agora foi filmado em Olhão, num terraço.

Este vídeo foi criado com amigos, com o realizador André Caniços e com a ajuda de um dos dois produtores que trabalharam neste disco, o Pedro da Linha e o Pedro Mafama. O Pedro da Linha é o principal produtor da parte musical, e o Pedro Mafama mais na construção conceptual e na escrita das letras comigo. Esta direção criativa estende-se também aos vídeos. Eu comecei a contar-lhes a minha história e chegamos a esta ideia. Queria que este vídeo resumisse um bocadinho da minha história. Os meus pais quando vieram para Portugal, a família foi distribuindo-se por Portugal e a minha avó materna foi viver para o Sul. Viviam num bairro com um espírito de comunidade enorme e eu fui visitar esse bairro que agora já está um bocadinho diferente. Cheguei ao bairro dos pescadores em Olhão e transmitiu-me essa energia que a minha avó e as minhas tias tinham.

E que espirito é esse de liberdade que transmite com este vídeo?

É uma fome que eu tenho desde miúda, de descobrir coisas novas. Só eu e as crianças no videoclip é que conseguimos ver. Nós sentimo-nos livres para ter esta força e visão de um futuro. Eu apareço sempre num plano à parte das crianças e do resto das personagens, e no final, as crianças vão ao meu encontro e terminam a olhar para o mesmo lugar que eu estou a olhar.

Quando é que sairá o disco?

É ir lançando singles novos até setembro, que julgo ser a melhor altura para lançar o disco.

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