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Mosteiro milenar torna-se símbolo da tensão em Nagorno-Karabakh

16 nov, 2020 - 14:49 • Filipe d'Avillez

Enquanto os habitantes arménios de Karvachar abandonam a vila, levando consigo tudo, incluindo as campas dos seus antepassados, os padres do mosteiro de Dadivank prometem permanecer, protegidos por militares da missão internacional russa.

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O mosteiro de Dadivank, na vila de Karvachar, está a tornar-se um símbolo do ódio e da tensão que existem entre os arménios e os azeris na disputa por Nagorno-Karabakh.

Segundo a tradição arménia, o mosteiro foi fundado no I Século, por um discípulo de São Tadeu, o evangelizador dos arménios. O primeiro registo escrito, porém, é do Século IX, há mais de mil anos.

A Arménia foi o primeiro país da história a adotar o Cristianismo como religião oficial de Estado, antes do Império Romano, e os antigos mosteiros, como o de Dadivank, são testemunho disso.

Mas a vila de Karvachar, em arménio, ou Kalbajar, em azeri, vai ser entregue às forças do Azerbaijão, de acordo com um tratado de paz assinado há dias entre as duas partes e mediado pela Rússia e pela Turquia.

A entrega do território, que o Azerbaijão mantém ter sido ilegalmente ocupada ao longo dos últimos 30 anos, depois de Nagorno-Karabakh ter declarado independência, num gesto nunca reconhecido pela comunidade internacional, tem levado a cenas impressionantes, com a população arménia a fugir em massa e a incendiar as suas casas, levando tudo o tem valor e possa ser transportado. Circulam até imagens de campas abertas para que os mortos possam ser levados também, já que os arménios temem que os cemitérios sejam profanados pelos azeris, que são muçulmanos.

As duas partes disputam a herança histórica do território. A existência do mosteiro é prova de que os arménios estão presentes há mais de um milénio, mas o Azerbaijão diz que Kalbajar nunca fez parte de Nagorno-Karabakh, que na altura da primeira guerra a população local era 99% azeri, tendo sido expulsa, e que a vila posteriormente ocupada por arménios. A cidade é estrategicamente localizada perto da fronteira, o que permitiu abrir um corredor entre Nagorno-Karabkh e a Arménia, essencial para a sobrevivência do enclave.

Inicialmente, quando se soube que a vila ia ser entregue ao Azerbaijão, o próprio mosteiro começou a ser desmantelado. Os sinos foram retirados e fizeram-se planos para a remoção dos “kachkar”, as grandes tradicionais cruzes ornadas, esculpidas em pedra, que são colocadas à entrada das igrejas e locais importantes. O abade do mosteiro, porém, prometeu que não abandonaria o local, estando disposto a morrer.

Contudo, as autoridades arménias intercederam e conseguiram garantir que o mosteiro seja protegido por forças russas. Pediram ainda aos habitantes da vila para não fugirem para a Arménia, mas para aguardarem para serem realojados em Stepanakert, a capital da zona arménia de Nagorno-Karabakh. As imagens de estradas cheias de carros a caminho da Arménia, porém, mostra que esses conselhos não foram seguidos.

Com a chegada das forças russas o mosteiro está agora seguro, mas o futuro permanece incerto. Segundo o acordo de paz, os russos ficarão durante cinco anos, sendo o mandato renovável, mas a história mostra que a hostilidade, ódio e clima de medo que se vivem de parte a parte não dissipará no futuro próximo, abrindo a perspetiva pouco prática de ter de se manter uma missão de paz por tempo indefinido.

Os sinos de Dadivank poderão continuar a tocar, mas a manter-se o status quo não serão ouvidos por leigos arménios durante muito tempo.

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