Tempo
|

Reportagem

“D. Anacleto partiu mas ficou também”. Viana despede-se do bispo "humilde" e "atento a todos"

22 set, 2020 - 16:59 • Inês Rocha , Henrique Cunha

Num dia normal, a praça estaria completamente cheia de fiéis, para prestar uma última homenagem ao bispo da diocese, D. Anacleto Oliveira, que morreu na última sexta-feira, vítima de acidente de viação. Mas devido à pandemia a diocese apelou aos fiéis que acompanhassem a cerimónia à distância, pelos meios digitais.

A+ / A-

A praça que circunda a Sé de Viana do Castelo está quase vazia. Alguns grupos espalham-se pelo espaço, de máscara posta e de olhos no edifício, onde vão entrando alguns bispos e padres.

Num dia normal, a praça estaria completamente cheia de fiéis, para prestar uma última homenagem ao bispo da diocese, D. Anacleto Oliveira, que morreu na última sexta-feira, vítima de acidente de viação.

Mas com a pandemia e as regras apertadas ditadas pelas autoridades de saúde, a diocese apelou aos fiéis que acompanhassem a cerimónia à distância, pelos meios digitais.

Ainda assim, Jorge Miranda decidiu vir de Barcelos a Viana para prestar a sua homenagem a um “homem extraordinário”.


Nas mãos e na pasta, vem carregado de papéis, cartas e recortes de jornal. Guardava tudo o que saía sobre ele nos jornais e exibe com orgulho cartas que trocaram.

“Era o mais humilde possível, de uma simpatia tremenda”, recorda.

Para Jorge, esta despedida não condiz com D. Anacleto.

“Com ele não havia distinções ou convidados, o bispo Anacleto Oliveira era do povo”, afirma.

Também na praça está a irmã Isabel Lemos, das Missionárias do Santíssimo Sacramento e Maria Imaculada (Missami).

A religiosa ainda está a tentar perceber se terá espaço na Sé ou se, também ela, terá de acompanhar à distância a cerimónia exequial.

De qualquer forma, fez questão de vir. “Não só porque me senti acolhida por ele nesta diocese, eu e a minha congregação, mas porque sempre o percebi muito próximo de toda a gente, muito atento com os jovens, com os idosos. Aquele bispo que é capaz de sair ao encontro e atento a todos”, conta à Renascença.

A irmã Isabel confessa que esta partida precoce e trágica “dói muito, fica-se em choque, sem palavras, com nó na garganta”.

Ainda assim, a dor mistura-se com a esperança: “acreditamos na comunhão dos santos. D. Anacleto partiu mas ficou também, fica no nosso coração, na nossa memória agradecida e na nossa diocese”.

Ali ao lado, de cadeira de rodas e desinfetante na mão, está Rosa Maria Carvalho. Veio de uma freguesia próxima para se despedir de D. Anacleto, como quem se “dava muito bem”.

Rosa dirigiu a Pastoral da Saúde de Viana do Castelo e trabalhou de perto com o bispo.

Descreve D. Anacleto como “um bom amigo, bom pastor, um homem que dava tudo pelos doentes, pelos idosos”, conta.

“Não falava muito caro, era simples”, garante.

Rosa percebe que vivemos uma época delicada, mas considera que “se todos estivermos com cuidados, como eu estou, acho que toda a gente lhe devia fazer uma homenagem”.

“Ele merecia”, diz.

Na Sé de Viana, participaram na missa exequial, celebrada pelo bispo arcebispo primaz de Braga, D. Jorge Ortiga, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues.

Estiveram também presentes os restantes bispos pertencentes à Conferência Episcopal Portuguesa, o presbitério da diocese de Viana do Castelo e os representantes dos diversos movimentos eclesiais, assim como autoridades civis e militares.

A mensagem do Papa Francisco

Durante a cerimónia, o núncio apostólico leu uma mensagem do Papa Francisco.

“O Papa apresenta sentidas condolências e assegura viva solidariedade ao clero e aos fiéis, unindo-se a todos através da oração".

Ivo Scapolo lembrou D. Anacleto como uma autêntica testemunha do Evangelho no meio do seu povo, apontando a senda da verdade e caridade e o serviço à comunidade.

“O Papa concede aos fiéis em luto e a quantos estão presentes nesta celebração uma reconfortadora bênção Apostólica”, afirmou o núncio apostólico.

Na homilia da missa exequial, D. Jorge Ortiga, arcebispo primaz de Braga, recordou D. Anacleto Oliveira como alguém que se deu por completo, um servo ao serviço do outro.

A Igreja necessita de se converter ao Evangelho, porque não basta um anúncio superficial da palavra, disse D. Jorge Ortiga.

“A Igreja necessita de se converter ao Evangelho, hoje mais do que nunca, compreendendo esse Evangelho na sua autenticidade e, sobretudo, vivendo-o, no anúncio e na transparência. O Papa Francisco fala de transbordamento, deixar-se possuir pela palavra para a colocar no mundo como semente”, declarou o arcebispo de Braga.

D. Jorge Ortiga lembrou depois que a pandemia só pode ser ultrapassada pela "solidariedade e solicitude".

Já D. José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e bispo de Setúbal, agradeceu o dom que D. Anacleto Oliveira foi para a Igreja.

Nas cerimónias fúnebres do bispo de Viana do Castelo, D. José Ornelas agradeceu a sua colaboração com a CEP.

“Tínhamos-lhe pedido que fizesse uma reflexão sobre a situação atual da pandemia e o papel da Igreja no meio disto tudo. Ele estava a preparar e disso: ‘vou de férias e vou pensar um bocadinho nisso’. Vamos continuar nós o pensamento dele, vamos continuar nós o caminho dele, um caminho que exige busca, fidelidade à palavra que se escuta”, disse D. José Ornelas.

O administrador diocesano de Viana do Castelo, monsenhor Sebastião Pires Ferreira, recordou com emoção D. Anacleto como pastor “sempre presente” e anunciou que a carta pastoral do ano 2020/2021 já se encontrava escrita pelo falecido bispo.

Tendo como tema “Jovem, levanta-te e vamos! (Em tempo de pandemia)”, visa a Jornada Mundial da Juventude, cuja próxima edição internacional vai decorrer em Lisboa, no verão de 2023.

“Compromete-nos aqui, diante dos seus restos mortais, mas sobretudo diante do seu legado à diocese, compromete-nos todos a intensificar a nossa oração para que em breve nos seja enviado um novo pastor”, acrescentou o monsenhor.

Saiba Mais
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.