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Entrevista

​Ana Bacalhau angustiada com a crise na cultura. “Sei na pele o que é o flagelo do desemprego”

03 jun, 2020 - 06:35 • Maria João Costa

A pandemia apanhou Ana Bacalhau a trabalhar no segundo álbum a solo. “Memória” é o primeiro single. Apreensiva com a crise no setor cultural, a cantora diz que há fome e que as medidas são insuficientes.

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Diz que os “lives” nas redes sociais não são para si. Tem saudades do palco e reconhece que se sente “meia pessoa” sem ele. Ana Bacalhau lança agora o primeiro single do seu segundo disco de originais. “Memória” é um tema que fala de luta interior.

Em entrevista ao programa “Ensaio Geral” da Renascença, a voz dos Deolinda admite que os dias de confinamento lhe trouxeram “angústia, frustração e raiva”. Sem concertos, Ana Bacalhau reconhece que sai diferente destes dias de pandemia e manifesta preocupação com os profissionais das artes e espetáculos. Falta concretizar o estatuto para estes trabalhadores intermitentes, onde as carências chegam à fome.

“Memória” o single que acaba de lançar foi escrito por João Direitinho, Guilherme Alface e Mário Monginho, dos Átoa. Parece uma canção que encaixa no momento que vivemos.

Esta canção surgiu muito antes de tudo isto acontecer. Quando o Mário, o Guilherme e o João me enviaram a primeira “demo”, senti que era aquilo que queria e precisava de cantar. Foi muito antes do confinamento, mas na verdade aquela luta interior que é retratada na canção, de alguém que está a procurar um caminho para se refazer, passei por isso muitas vezes na minha vida e recentemente também. Portanto, identifiquei-me. Por isso, quis que a canção fosse a que apresentasse este álbum em que estou a trabalhar. Porque me contava, naquele momento.

Estava tudo em marcha para ser apresentada ao público quando a pandemia aconteceu?

Fiz o vídeoclipe, tudo preparado para lançar em março ou abril, e aconteceu isto. Ficou tudo parado, congelado, incluindo o lançamento. Na verdade, estes dois meses ainda me mudaram mais. Penso que terão mudado muitas pessoas.

Foi um momento traumático. Fui confrontada com muitas emoções. Frustração, raiva, muita angústia. A minha atividade profissional parada e eu sem saber quando a iria retomar e em que condições. Tudo isto angustia. Eu saí disto uma pessoa diferente da que entrou para o confinamento.

E a música “Memória” continua a fazer o mesmo sentido?

Esta canção ainda é mais o espelho daquilo que sinto e senti.

A canção ajudou-a a sarar as feridas?

Ajudou-me a expor isso perante os outros, o que também é uma forma de cura. Quer dizer que, de alguma forma, está um bocadinho sanado. Estou forte o suficiente para admitir essas feridas. Senti que fazia sentido lançar a canção agora, independentemente de o momento não ser propicio à música ao vivo.

“Memória” tem também algo de melancólico.

Acho que me representa. E representa também um lado meu que não é muito habitual ver-se. As pessoas associam-me mais a festa e ao lado solar, mas o meu lado lunar é muito forte. Portanto, quis-me apresentar assim também como artista a solo. Faz sentido apresentar-me 100% como sou, sincera e fiel ao que estou a sentir.

E como vai a produção do disco?

Já gravei algumas canções, mas depois ficamos parados. Vai a meio, e ainda bem! Se tivesse acabado o álbum em março, se calhar já o ia sentir um bocadinho desfasado de quem sou. Ainda bem que tenho oportunidade de o continuar a fazer agora, como estou, para refletir o turbilhão de coisas pelas quais passei nestes meses. O que eu procuro na música que faço é que seja fiel ao meu percurso pessoal. Espero que o disco saia este ano.

Como é que vê a situação que o setor cultural e artístico está a viver?

Vejo com grande apreensão, porque sei que há muita gente a sofrer muito. Há algum desconhecimento do público em relação à dinâmica do meio cultural, das profissões e especificidade. Não estou a falar de artistas, mas de vários técnicos de som, palco, estrada, tantos empregos desde os que marcam concertos, aos produtores e a contabilidade.

São empregos que vêm da atividade artística e tudo isso ficou em suspenso. A maior parte destas pessoas tem um vínculo precário e um trabalho intermitente. O estatuto dos trabalhadores intermitentes das artes do espetáculo ainda não foi para a frente. Há anos que se está a falar disso e não acontece.

Há situações de carência?

Há muitas pessoas que foram excluídas ou que têm apoios abaixo do limiar da pobreza. Apoios de muito poucos euros que mal dão para comer. Sei que a Fundação GDA está a fornecer cabazes a muitas pessoas que estão a precisar. Precisar! Estamos a falar de fome! É com muita apreensão, frustração e angústia que eu sinto este momento.

O setor da Cultura está em risco?

Eu sei perfeitamente que há muitas profissões, atividades e empregos que estão em risco. Eu sou filha de duas pessoas que ficaram desempregadas, ao mesmo tempo, nos anos 90. Eles eram despachantes oficiais e com o fim das fronteiras, os meus pais perderam o emprego ao mesmo tempo.

Portanto, eu sei bem o que é o flagelo do desemprego, sei bem na pele! Por isso, tudo isto causa-me bastante angústia, porque o setor cultural é me muito próximo. Eu sei o sofrimento que está a existir. As medidas que foram tomadas, tardaram e foram insuficientes. O número de espetáculos diminuiu drasticamente e isto tudo gera preocupação.

Tem saudades do palco?

(Risos) Siiiiiiiiimmm, o palco é uma parte muito importante de mim. É quase como respirar. Portanto, eu sinto-me a meio gás. Sinto-me meia pessoa, sem palco.

Mas manteve algum contato com o público neste tempo de confinamento nas redes sociais. Que balanço faz?

Eu fiz o Festival #Euficoemcasa e gostei. Teve um otimo “feedback”. Depois fiz mais um “live” em que toquei uma música, mas aquilo não era para mim. Eu não me acompanho muito bem, não toco muito bem guitarra e, portanto, aquilo que estava a oferecer não tinha a qualidade que eu gosto. Os planos eram aqui em casa, e a minha casa não é um palco, é o sítio onde eu vou descansar depois dos palcos. Estar a confundir isso, fazia-me muita confusão. O som também não era nada especial.

Nós somos um animal social, e precisamos de sentir aquela eletricidade que existe numa sala quando estamos a dar um concerto. Sentimos essa conexão com o público que é mais difícil no online. Aquilo não era para mim! E decidi não fazer mais “lives” a tocar. Acho que não estava a oferecer um bom produto.

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