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Entrevista a Sampaio da Nóvoa

Língua Portuguesa está mais perto de ser língua oficial da ONU, diz embaixador na UNESCO

05 mai, 2020 - 07:00 • Maria João Costa

A UNESCO consagrou em novembro, e agora, a 5 de maio, celebra-se pela primeira vez o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Embaixador de Portugal na UNESCO diz que estamos mais perto de ver o Português como língua oficial da ONU.

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Com 265 milhões de falantes pelo mundo, assinala-se esta terça-feira, primeira vez, o Dia Mundial da Língua Portuguesa. A consagração foi determinada em novembro pela organização das Nações Unidas para a Ciência, Educação e Cultura (UNESCO).

Seis meses depois, em entrevista à Renascença, o embaixador de Portugal na organização, António Sampaio da Nóvoa, considera que “temos que fazer mais” pelo ensino da língua no estrangeiro e em Portugal.

Questionado sobre o Acordo Ortográfico, António Sampaio da Nóvoa diz que “é preciso pensar o que não foi feito nas últimas décadas, avaliar e acabar com essa inquietação”. O diplomata, que defende a afirmação do Português como uma língua científica, acha que há hoje uma maior utilização do Português no mundo dos negócios e acredita que estamos mais perto de tornar o idioma de Luis Vaz de Camões, Fernando Pessoa ou Machado de Assis numa língua oficial da ONU

Como é que a situação de pandemia condiciona a celebração deste que é o primeiro Dia Mundial da Língua Portuguesa?

Tínhamos previsto muitas atividades presenciais, na UNESCO, e em outros lugares como Lisboa, Brasil e, evidentemente, que temos agora que o fazer através dos meios digitais e fazer uso das redes sociais e dos meios de comunicação; mas a língua tem esse poder de ultrapassar os confinamentos, estas dificuldades presenciais e de poder projetar-nos no mundo.

Vai haver muitas atividades através do canal do YouTube do Instituto Camões, duas mensagens muito interessantes do secretário-geral das Nações Unidas e da diretora-geral da UNESCO sobre este dia. Está a haver uma dimensão enorme de atividades no Brasil, em Cabo Verde, em Angola e aqui em Portugal. Tem sido muito curioso, isto despertou uma espécie de criatividade que nos deixa muito felizes.

Considera que a declaração do Dia Mundial da Língua Portuguesa pela UNESCO pode acrescentar valor económico ao português?

O Dia Mundial da Língua tem, como todos os dias mundiais, sobretudo um valor simbólico. Mas esse valor, passados poucos meses, já se revelou muito interessante. Projetou e deu conteúdo a um conjunto de atividades, por exemplo nas organizações internacionais, de afirmação da língua. Há um valor simbólico, mas que se projeta depois em ações concretas, em políticas concretas, em políticas de apoio à língua e isso tem vindo a acontecer. A dimensão económica de uma língua, é uma das dimensões que é muito importante, mas há muitas outras dimensões. A dimensão da criação e a cultural são tão ou mais importantes, mas sem desvalorizar essa dimensão económica.

Podemos estar mais perto de conseguir que o Português seja declarado Língua Oficial das Nações Unidas?

Estamos. Temos dado passos importantes nesse sentido. O Português é, hoje, uma língua de trabalho de muitas organizações internacionais, como as organizações de estados ibero-americanos, o MERCOSUL, União Africana, União Europeia e da Conferência Geral da UNESCO. É uma língua com muita presença na Organização Mundial de Saúde. A língua tem vindo a dar esses passos a e reforçar essa dimensão. O que acontecerá neste triângulo Europa, América do Sul e África, tem todas as condições para projetar o Português no seio das Nações Unidas e para poder um dia conseguirmos atingir esse objetivo pelo qual todos nos batemos.

E o Acordo Ortográfico, que tem andado sempre aos soluços, como é que se resolve se há ainda países que não ratificaram?

O professor Adriano Moreira, num texto recente, dizia que tínhamos que acabar com a inquietação do Acordo Ortográfico. Julgo que é preciso, serenamente, fazer uma avaliação, pensarmos no que nunca aconteceu ao longo destes últimos anos e décadas. Pensar o que isso significa para as gerações mais jovens, o que significa para as gerações menos jovens como a minha e a partir dessa avaliação encontramos soluções de futuro. É uma resposta que lhe estou a dar a título pessoal, mas creio que está na altura de fazermos essa avaliação e, retomando as palavras do professor Adriano Moreira, acabar com esta inquietação.

O que quer dizer com acabar com a inquietação?

É no sentido de avaliarmos e de tentarmos construir alguma serenidade neste processo. Tentarmos fazer uma ponderação do que foram estes últimos anos, do que tem sido a situação do Acordo Ortográfico, e tentarmos encontrar soluções que nos permitam a viver em paz com esta situação.

Como é que vê a forma como as novas gerações tratam o Português?

Se pensarmos na nova geração de escritores, ou nas dinâmicas editoriais promovidas por muitos jovens em Portugal, vemos um vigor da língua, uma capacidade criativa como provavelmente nunca tivemos na nossa história. Nós temos hoje, falando de Portugal, mas também falando do Brasil e dos países africanos de Língua Portuguesa, um vigor da língua portuguesa que é absolutamente notável.

Mas as novas gerações no plano digital usam muitas expressões não portuguesas, abreviam muitas palavras. Tratam mal a língua?

A questão da integração, nas novas gerações, de expressões com as quais nós não nos sentimos, no primeiro momento, absolutamente confortáveis é qualquer coisa que tem que ser pensado com muito cuidado do ponto de vista do ensino da língua; sabendo que a língua está em evolução, que muda e que não está parada no mesmo estado e lugar. Essa evolução, como se vê de forma mais nítida no Brasil é, a muitos títulos, bem-vinda, agora como é que se constrói esse diálogo entre uma língua viva e uma língua em relação à qual temos de respeitar um conjunto de critérios, é o debate mais interessante do ponto de vista do ensino e da educação. Agora a Língua Portuguesa hoje, quando olhamos para o que é, na minha opinião, uma geração notável de jovens escritores, criadores e editores está num momento particularmente pujante.

Como é vê a política portuguesa de promoção da língua a nível internacional e nacional?

Temos que fazer mais, colocar mais recursos na promoção do ensino da Língua Portuguesa no estrangeiro, no ensino de Português e na formação de professores. Há um trabalho que tem sido bem feito, mas precisa de ser aprofundado e melhorado e esse é, para mim, um ponto central na promoção internacional da língua. Claro que há a dimensão dos criadores da língua, não só dos escritores, mas também dos tradutores. É preciso dar projeção internacional à edição em Língua Portuguesa. Há aqui um trabalho imenso.

Como é que a Língua Portuguesa se pode afirmar a nível internacional?

Há um trabalho que me toca particularmente, que é a afirmação do Português como língua científica. Julgo que não podemos ter, no século XXI, uma língua que se queira afirmar no plano internacional que não tenha também essa dimensão da ciência e do conhecimento que é central para as línguas no século XXI. Esta estratégia de promoção da Língua Portuguesa precisa de ser consolidada e aprofundada. Julgo que o Governo está a trabalhar nesse sentido, ainda que estes temas não sejam apenas dos governos, deveriam também responsabilizar mais as universidades, e um conjunto de outras entidades. Se o Dia Mundial da Língua Portuguesa, e a consagração da UNESCO, deve servir para alguma coisa é para reforçar, relançar e dar mais força à promoção internacional da Língua Portuguesa que é decisiva.

Mas o Brasil é o país que mais faz pelo ensino do Português além-fronteiras.

Portugal e os países de Língua Portuguesa têm, neste momento das suas histórias, uma possibilidade única de cruzar o Norte com o Sul. Esta língua é a mais falada no hemisfério sul. Cruzarmos a dimensão europeia, com a sul-americana e a africana, esta dimensão atlântica da língua, Portugal tem essa possibilidade no concerto internacional, no quadro do multilateralismo, e de poder ter um papel central. Precisamos de ter estratégias consolidadas, coerentes e consistentes da promoção internacional da Língua Portuguesa.

Surgiu há algum tempo um estudo do professor Luís Reto que conclui que a Língua Portuguesa está a perder o seu valor económico. Que comentário lhe merece esta conclusão?

Eu não conheço o estudo, só vi as notícias que saíram. Acho que o estudo chega a esse resultado devido ao facto de haver um menor crescimento da economia brasileira. Todos concordaremos que o valor económico de uma língua não se define apenas a partir dos indicadores económicos de cada país. Há hoje uma maior abertura para a utilização do Português no mundo dos negócios que é muito importante assinalar. Sentimos que no plano da diplomacia e das organizações internacionais, como no plano da presença de Português no mundo digital, tem havido uma consolidação muito grande e creio que é nisso que nos devemos focar. Certamente que a língua estará sempre dependente da saúde e da vitalidade económica dos países que a falam, mas ela vai muito para além disso e projeta-se no mundo muito para além dessa dimensão.

Recentemente na UNESCO foi feita uma avaliação do impacto da pandemia de Covid-19 na cultura. A que conclusões chegaram?

Nós estamos todos numa zona de grande incerteza. A UNESCO, é uma instituição que está a responder de forma muito ativa e dinâmica a esta crise de Covid-19. Houve uma reunião dos ministros da Cultura, como tinha havido antes dos ministros da Ciência e outra dos ministros da Educação. Estas são as três áreas centrais de atuação. Na educação, a UNESCO lançou uma aliança mundial para tentar responder a esta crise; na ciência tentou fazer um grande apelo para a partilha de conhecimento, aquilo a que designamos de ciência aberta, na tentativa de conseguirmos encontrar soluções do ponto de vista científico que sejam gratuitas e acessíveis a todos e que não sejam capturadas apenas por alguns. Na área da cultura, por um lado, tudo o que tem a ver com questões patrimoniais e já se coloca na preservação de certos lugares e espaços. Por outro lado, o que se nota no mundo inteiro é uma grande dificuldade dos criadores e dos artistas que estão hoje numa situação muito difícil e para os quais é preciso encontrar soluções de apoio que permitam continuar e sobreviver neste tempo de dificuldade.

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  • Manuel Peñascoso
    07 mai, 2020 Fátima livre 15:52
    Sampaio da Nóvoa é mais um Miguel de Vasconcelos que quer o abastardamento da Língua Nacional de Portugal! Que se passe a escrever o nome deste traidor à Língua Portuguesa em minúsculas, "antonio sampaio da novoa"!
  • 07 mai, 2020 00:15
    Mas temos uma arma na mão: O VOTO. Quem quiser o regresso da ortografia de Lei anterior ao AO90 não pode votar P S . Há um Partido que tem no programa, deitar no lixo o AO90. É o CHEGA. Mais partido nenhum se interessa pela língua Editar Antonio Mestre respondeu ao comentário de Orlando De Carvalho. 06/05/2020, 23:47 Está tudo planeado para seguir em frente, mas ninguém o quer. Os patrões capitalistas da Imprensa impõem-no mas os jornalistas não o querem. Isto é uma guerra e é como guerra que tem de ser entendido. O acordo desde o Symposium de Coimbra em 1967 avançou com negociatas de milhões. Que o digam Malaca ou Houaiss ou as Editoras. E uma guerra do capital contra o capital. Denunciemos e publiquemos as Editora que só editam em acordês