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Na doença e no luto. Comunidades compassivas chegam a Portugal

14 fev, 2020 - 11:18 • Redação

Porto e Lisboa são as cidades pioneiras na aplicação destes projetos, com o apoio da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos. Objetivo é que “as pessoas se ajudem umas às outras” nas horas mais difíceis.

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Portugal está prestes a receber as suas primeiras comunidades compassivas, concretamente no Hospital de São João, no Porto, e na LinQUE, uma equipa interdisciplinar que presta cuidados paliativos na Amadora, Grande Lisboa.

Os dois projetos-piloto vão ser desenvolvidos em três freguesias do Porto e na Amadora, com o objetivo de envolver a comunidade no apoio a pessoas com doença crónica, progressiva e incurável, principalmente aquelas que são seguidas por equipas de cuidados paliativos.

O intuito principal é apoiar as famílias durante as várias fases de doença ou, até, no luto. Para isso, serão criadas redes comunitárias compostas por membros de organizações e cidadãos comuns, para a partilha de conhecimentos e prestação de ações compassivas.

Já bastante enraizadas noutros países, como Espanha, só agora é que as comunidades compassivas começam a ganhar terreno em Portugal, em parte graças ao trabalho da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP).

À Renascença, o presidente da instituição, Duarte Soares, explica que a proposta “está em linha” com o que se pratica noutros países. As responsáveis por ambos os projetos vencedores estão a receber “formação específica nesta área”, com a equipa do Porto, em particular, a “replicá-la no país”.

Pretende-se que as duas comunidades “venham a ser exemplos, não apenas para o país, mas que reflitam aquilo que são as boas práticas de comunidades envolvidas em torno dos nossos doentes e das nossas famílias”, adquirindo como que uma “certificação internacional, pioneira em Portugal”, para atuar nesta área, explica Duarte Soares.

Os dois projetos venceram o concurso “Comunidades Compassivas: Laços que Cuidam”, promovido pela Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos, com o apoio da Fundação "La Caixa”, tendo recebido um financiamento de 25 mil euros cada.

No caso de Lisboa, o júri entendeu que se tratava de um “projeto diferenciado na comunidade de uma entidade do setor social e solidário” e, no Porto, pela “experiência, categoria e firmeza” da atuação do CHUSJ. Duarte Soares acredita que ambos os projetos serão “rapidamente reconhecidos” a nível nacional.


Encorajar a sociedade para a prestação de cuidados

A criação destas comunidades era, para o presidente da APCP, algo já há muito necessário em Portugal. Sobretudo se for avaliado por uma perspetiva mais ampla, sendo “os cuidados paliativos uma parte muito pequena da equação”. É preciso começar a alertar as comunidades que “é também a sociedade civil, e não apenas o Estado ou os profissionais” que tem de garantir cuidados a quem precisa.

Sendo Portugal o país da Europa com maior taxa de cuidadores informais, Duarte Soares acrescenta à Renascença que “precisamos de reconhecer essa mais-valia para a sociedade, de os encorajar de forma dinâmica e com uma presença próxima”.

O objetivo não é alterar totalmente o panorama de institucionalização atual, mas sim assinalar, “até para o próprio Sistema Nacional de Saúde”, um exemplo de práticas “que acabam por ter custos eficientes” para o SNS.

Porto, uma cidade mais compassiva pelo desenvolvimento da comunidade


A ideia de participar no concurso da APCP já se cozinhava há alguns anos. À Renascença, a diretora do serviço de Cuidados Paliativos do Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ), Edna Gonçalves, explica que a equipa do hospital observava atentamente os serviços deste tipo de cuidados “próximos das Cidades Compassivas”. O exemplo de Espanha, país que já conta com vários projetos deste género, foi preponderante para que o projeto do Porto arrancasse.

“Numa altura em que se discutem questões relacionadas com a eutanásia”, e num momento em que o Governo reconhece dificuldades na rede de cuidados paliativos nacional, “é um excelente caminho para a sociedade em geral” arrancar com este tipo de iniciativas, considera a diretora.

O movimento “toca à sociedade” e não é só dos profissionais de saúde. A estes últimos juntaram-se a cuidadores informais e, em associação com a Compassio – Associação para a Construção de Comunidades Compassivas, elaboraram trabalho conjunto para concorrer à iniciativa da APCP.

De forma crescente, este coletivo pretende, além de prestar serviços de cuidados paliativos a doentes em fim de vida, “promover a compaixão – o envolvimento de todos com aqueles que mais precisam”, explica à Renascença Edna Gonçalves. O objetivo é que as “pessoas se ajudem umas às outras”, sendo, acima de tudo, uma forma de “consciencializar as pessoas” para os que os rodeiam.

Primeiro passo: sensibilizar

Atualmente, o projeto no Porto está a investir na sua primeira vertente, a da sensibilização. O alerta surge através de “workshops”, encontros e ações diversas, para pessoas de todas as idades e contextos sociais. É o caso dos “Death Café”, tertúlias em que se fala abertamente sobre a morte e não exista medo nessa conversa. Ao mesmo tempo, a equipa consegue perceber onde e como devem atuar perante os casos que possam ter em mãos.

Estas ações de sensibilização estão a ser promovidas com o apoio dos parceiros do CHUSJ e da Compassio. O projeto contou, desde a sua fase inicial, com o apoio da Associação Cuidadores, bem como de órgãos de poder locais: a Câmara Municipal do Porto (que pretende integrar este projeto na rede de voluntariado municipal) e as Juntas de Freguesia de Paranhos, Campanhã e Bonfim. Como parceiros surgem ainda a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e a Área Transversal de Economia Social da Universidade Católica Portuguesa.

Numa segunda fase, embora se mantenham estas ações de consciencialização social, o objetivo é criar uma “rede de suporte informal”. Se “tudo correr bem”, a diretora do serviço de Cuidados Paliativos do CHUSJ espera que se consigam encontrar essas ajudas nas pessoas que rodeiam aquele que dela esteja a precisar. Esta rede, para cada utente, quer atuar no sentido de lhe ser prestado auxílio, nas suas tarefas diárias, de modo a atenuar o seu isolamento e sofrimento.

Com total envolvência dos centros de saúde da zona oriental do Porto (Paranhos, Campanhã e Bonfim), a associação espera alargar a prestação destes cuidados a toda a área da cidade – áreas onde já decorrem algumas das ações de sensibilização. Este tipo de ações de sensibilização, abertas à comunidade, podem ser acompanhadas através das redes da Compassio.

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