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Isabel Capeloa Gil. "Estamos a justificar a morte industrializada"

08 fev, 2020 - 18:00 • Ecclesia

A reitora da Universidade Católica Portuguesa considera que "há um envenenamento da opinião pública relativamente àquilo que é a eutanásia ou deixa de ser".

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A reitora da Universidade Católica Portuguesa (UCP) afirma que com a “realidade da ciência hoje não faz sentido morrer com dor” e que a discussão sobre a eutanásia “não está a ser feita com as populações, nem com a sociedade civil”.

“Há um envenenamento da opinião pública relativamente àquilo que é a eutanásia ou deixa de ser. Muitas vezes as pessoas associam eutanásia à morte sem dor, isso não tem nada a ver. Com a realidade da ciência que temos hoje em dia não faz sentido morrer com dor”, disse Isabel Capeloa Gil, falando a “título individual”, em entrevista à agência ECCLESIA.

A Assembleia da República agendou para 20 de fevereiro o debate dos projetos do BE, PS, PAN e PEV sobre a despenalização da eutanásia em Portugal.

Segundo a responsável, a discussão em torno da eutanásia em Portugal “não está a ser feita com as populações nem com a sociedade civil” mas num âmbito de uma discussão política, partidária, e “não foi trazida para a linha da frente nas últimas eleições legislativas”.

Isabel Capeloa Gil assinala que a medicina tem “meios extraordinários para dar dignidade” a esse momento limite e impedir a dor, que é “completamente diferente de eutanásia”, mas os cuidados paliativos “são muito mais caros”.

“Há aqui uma componente económica que as pessoas têm também de pensar, é muito mais caro investir em cuidados paliativos do que numa lógica de morte a pedido”, acrescentou.

Para a professora catedrática de Estudos de Cultura, o que parece “mais grave” é o “ultrapassar de uma barreira civilizacional”, e assinala que por formação é germanista, estudou e acompanhou “muito a discussão em torno da eutanásia durante o nacional-socialismo”

“Este é um tema para mim muito caro, porque aquilo que estamos a fazer é a justificar a morte industrializada, as boas intenções da lei podem tornar-se em péssimas materializações”, alerta, por causa da realidade depois da aplicação de uma lei que “permite ultrapassar de um limite na medicina”.

Neste contexto, observa que o médico “não é cuidador, não está ali para fazer viver” quando a sua missão é defender a vida do paciente, “melhorá-la, acompanhá-lo nesse momento final, tirando-lhe a dor” mas “torna-se um agente da morte”.

“É uma alteração radical, cultural, civilizacional com um impacto não sei se impensável, mas que hoje não conseguimos estimar”, refere, sublinhando que não se está a fazer a discussão junto da sociedade civil, “os portugueses não estão informados”, para tomar uma opção no seio do Parlamento que “vai alterar radicalmente aquilo é matriz do humano”.

Neste âmbito, Isabel Capeloa Gil destaca que “a vida não se referenda” mas é preciso “ser pragmáticos” e olhar para a realidade em Portugal entre a visão que a vida não é referendável, “enquanto cristãos, e o aceitar que se tome uma decisão dentro dos gabinetes e da assembleia sem participação, sem discussão pública”.

“Arriscaria uma discussão pública mais alargada, em verdadeiramente mostrar que há uma opção à eutanásia, que a morte sem dor não é um privilégio da eutanásia mas que a morte sem dor pode ser conseguida, feita, desenvolvida de outras formas. Mais caras, mais caras, é esta questão económica que as pessoas também têm de pensar”, acrescentou a reitora da UCP.

A Federação Portuguesa Pela Vida vai promover uma concentração a 20 de fevereiro, pelas 12h30, no Largo de São Bento.

Em 2018, a Assembleia da República debateu projetos de despenalização da morte medicamente assistida do PS, BE, PAN e Verdes, que foram chumbados numa votação nominal dos deputados.

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