|
A+ / A-

Especialista avisa. Clima do Norte de África está a chegar a Portugal

02 dez, 2019 - 11:34 • Marta Grosso , Miguel Coelho

O presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável esteve nas Três da Manhã. Filipe Duarte Santos não tem dúvidas: “os jovens de hoje vão ter um mundo com um clima mais inóspito e violento”.

A+ / A-

Portugal está a ser afetado pelo avanço do clima desértico. O aviso é deixado na Renascença por Filipe Duarte Santos, especialista em alterações climáticas.

“Há uma coisa na circulação geral da atmosfera chamada a Célula de Hadley, cujo ramo descendente gera os desertos, gera o Saara, e esse ramo descendente está a avançar para Norte”, começa por explicar.

“O que acontece é que esse clima do Norte de África está a saltar para o Sul da Europa” e é “uma das coisas mais preocupantes para Portugal: o avanço de um clima desértico que existe no Norte de África”.

“Se falarem com as pessoas do Algarve neste momento, sobretudo com a região Leste, a situação não é famosa em termos de escassez de água”, lembra.

Convidado no programa As Três da Manhã no dia em que começa a Conferência da ONU sobre o Clima, em Madrid, o presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável chama a atenção para a necessidade de reduzirmos a emissão de gases com efeito de estufa.

“A situação não tem estado a melhorar, porque as emissões de gases com efeito de estufa têm aumentado, em vez de diminuir, a uma média de 1,5% por ano nos últimos 10 anos”, afirma.

Como o Acordo de Paris não tem sido cumprido (reduzir as emissões 6,7% por ano), maior o esforço necessário. “Quanto mais atrasarmos essa diminuição das emissões globais, maior será o aumento da temperatura”, trazendo consigo o aumento dos fenómenos extremos e violentos.

“As pessoas podem pensar que um grau de aumento da temperatura média da atmosfera à superfície é pouco, mas tem consequências muito grandes, porque a energia necessária para conseguir esse aumento é gigantesca e isso tem consequências, sobretudo, na frequência e intensidade dos fenómenos extremos”, sublinha Filipe Duarte Santos. Basta ver o que algumas décimas de aumento têm feito nos últimos anos.

Chegámos ao ponto de não retorno?

“É tudo uma questão de qual vai ser a temperatura máxima que vamos atingir”, afirma o especialista em alterações climáticas. Desde o período pré-industrial, a temperatura “já aumentou um grau Celsius”.

Mas as soluções começam a surgir em vários campos. Por exemplo, na área do transporte marítimo, um dos mais poluentes (os navios poluem mais num ano do que a Alemanha), está a ser testado “um barco que navega sem consumir qualquer combustível fóssil”.

“Através da energia solar fotovoltaica, faz a hidrólise da água, separa o hidrogénio do oxigénio e esse hidrogénio depois é um combustível”, explica Filipe Duarte Santos, adiantando que “o hidrogénio é um combustível muito importante para o futuro”.

No domingo, também o secretário-geral da ONU sublinhou que a comunidade científica já mostrou que é possível sairmos do “buraco que estamos a cavar”.

O presidente do Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável concorda: “há metodologias, simplesmente exigem um investimento muito considerável”. Mas também “exigem de todos nós – não é só dos políticos e dos governantes – um pequeno sacrifício, distribuído por todos, no sentido de fazermos esta transição energética dos combustíveis fósseis para as energias renováveis”.

Filipe Duarte Santos reconhece que “os combustíveis fósseis foram extremamente importantes na história da Humanidade, foram eles os responsáveis, em grande parte, pelo bem-estar e pela prosperidade económica”, mas, “inadvertidamente”, tornaram-se “um problema muito difícil de resolver, mas possível”.

Greta Thunberg. “Cada um tem um papel na vida”

O presidente do Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável concorda que a nova geração está “cada vez mais consciente”. Consciente “de que vai ser mais afetada do que a nossa geração e, portanto, encara a solução do problema”.

A cara e voz da defesa do planeta tem sido a jovem sueca de 16 anos Greta Thunberg.

“A Greta é um fenómeno social, mas é uma pessoa que conseguiu alertar os adultos deste mundo – sejam governantes, sejam políticos, sejam pessoas em geral – para a urgência do problema”, analisa.

Filipe Duarte Santos considera que a sua ação representa “um sacrifício” para a jovem, “porque onde ela deveria estar era na escola. Mas, enfim, cada um tem o seu papel na vida”, remata.

Uma coisa parece ser indubitável para este especialista: “os jovens de hoje vão ter um mundo mais complicado, com um clima mais inóspito e mais violento do que eu tive”.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.