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Greve climática

Antes de Greta, havia Severn e Brittany. As ativistas ambientais que o mundo esqueceu

28 nov, 2019 - 12:45 • Redação

A "árvore genealógica" dos jovens que querem salvar o mundo do aquecimento global não começa com a jovem sueca de 16 anos. Os jovens unidos sob o movimento “Sextas pelo Futuro” podem não se lembrar, mas Thunberg teve antecessoras. A Renascença falou com elas na véspera de mais uma greve climática estudantil.

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“Fiz muitas outras coisas nestes 27 anos. Contudo, o discurso que fiz enquanto era criança continua a ser a ação mais poderosa que tomei e aquela de que as pessoas continuam a falar.”

Severn Cullis-Suzuki tinha 12 anos quando, em 1992, foi uma das protagonistas da Cimeira da Terra. O episódio que recorda à Renascença valeu-lhe o título de "jovem que durante cinco minutos silenciou o mundo". Naquele dia, a ativista canadiana começou por se dirigir aos líderes mundiais, para esclarecer que não tinha "segundas intenções".

Tal como Greta Thunberg 27 anos depois dela, Cullis-Suzuki garantiu que estava "a lutar pelo futuro". "Perder o meu futuro não é como perder uma eleição ou uns pontos na bolsa de valores."


Em 2012, foi a vez da jovem neozelandesa Brittany Trilford subir ao palco do Rio+20. Aos 17 anos, focou o seu discurso na urgência de "ações imediatas" de combate às alterações climáticas.

“O tempo está a contar e nós estamos claramente atrasados. Vocês têm 72 horas para decidir o futuro dos vossos filhos, dos meus filhos, dos filhos dos meus filhos. O relógio começa a contar agora.”

Em retrospetiva, a ativista confessa à Renascença que continua "a achar que poderia ter feito o mesmo discurso hoje e ser revelante na mesma, o que é chocante".

Há quem lhes chame “irmãs” ou “antecessoras” de Greta Thunberg e nem Suzuki nem Trilford se importam, até porque, nas conversas com a Renascença, dizem admirar Thunberg e descrevem-na consensualmente como “incrível” e “muito focada”.

Vinte e sete anos volvidos desde que o mundo "se silenciou", a luta continua: exigir que os líderes mundiais façam do combate à crise climática a sua prioridade política e que ajam para reverter o aquecimento global. A perceção que se tem deste problema, contudo, mudou.

“Para a maioria das pessoas a viver em cidades, até aos últimos anos, tem sido muito fácil ignorar os problemas ambientais, porque não nos confrontamos com a realidade de que a nossa comida vem da terra e de que a água vem do céu, das florestas e do chão”, diz Severn Cullis-Suzuki, agora com 39 anos, à Renascença. "Quem vive na cidade está agora a aperceber-se de que não é imune a ciclones, furacões, cheias, secas e fogos.”

A lista de catástrofes naturais ocorridas só em 2019 é extensa e vem acompanhada de um alerta: estes fenómenos foram os piores dos últimos anos ou até décadas. O conceito “estado de emergência” começa a entrar no nosso vocabulário com mais frequência. Este mês, o dicionário Oxford definiu "emergência climática" como a palavra do ano.

Senão veja-se: em março, o ciclone Idai desvastou Moçambique. Em abril, a chuva torrencial e consequentes cheias afetaram o Irão e um segundo ciclone, o Kenneth, voltou a atingir Moçambique. Em maio, o ciclone Fani afetou a Índia e o Bangladesh. Em junho, o ciclone tropical Vayu chegou à Índia. Em julho, um sismo de magnitude 7,1 na escala de Richter abalou o sul da Califórnia. Em agosto, houve o tufão Lekima no leste da China. Em setembro, o furacão Dorian nas Bahamas e as chuvas torrenciais em Espanha. Em outubro, o furacão Lorenzo nos Açores e o tufão Hagibis no Japão. Em novembro, chuvas torrenciais no Quénia e inundações em Veneza.

Apesar da crescente frequência e gravidade destas catástrofes naturais, estarão os líderes mundiais a reagir como deveriam? Para Brittany Trilford, parece haver “urgência” em agir, mas “infelizmente", os líderes "continuam sem fazer o suficiente”.

“O cinismo do ‘não podemos fazer nada, por isso é que não fazemos nada’ é ainda o slogan da maioria das campanhas políticas”, defende a ativista.

É este sentimento de insuficiência que reforça a importância das greves climáticas estudantis. “Ainda há uma necessidade de os jovens gritarem, chorarem e fazerem greve.”

Severn Suzuki concorda. “Os jovens têm estado sempre na linha da frente de qualquer guerra ou de uma maior transformação da sociedade”, sendo isso “o que vemos hoje”, sublinha.

Redes sociais: as duas faces de uma mesma moeda

Em 1992, quando Suzuki ganhou destaque nos palcos mundiais, não havia redes sociais e termos como "tweets", "hashtags", amigos virtuais, "trolls" e "influenciadores digitais" eram inconcebíveis.

Mas se a canadiana conseguiu escapar a esta pressão virtual constante, 20 anos depois Trilford teve uma experiência bem diferente.

“Quando participei no Rio+20, eu sabia que, por causa das redes sociais, não estava apenas a participar ou a discursar para a câmara e para cerca de três mil pessoas na sala”, revela à Renascença a urbanista neozelandesa, agora com 24 anos.

Trilford sabia que, em 2012, o alcance destas intervenções já não se cingia às pessoas que a ouviam em dado local.

“Havia tantas outras pessoas que me estavam a ver através dos ecrãs por todo o mundo e eu não conseguia vê-los e, por causa disso, mudei a forma como disse o que disse. Os discursos e a logística do movimento também estão muito mais predispostos a recolher 'soundbites' e a criar chavões que mantenham as pessoas interessadas e os movimentos muito mais conscientes do objetivo da sua luta."

Ainda assim, e apesar da exposição mediática, Brittany Trilford é taxativa: "Não teve as proporções com que a Greta está a lidar agora."

Severn relativiza o tema "internet", apontando que “tudo tem benefícios e malefícios”. E que benefícios lhe reconhece? “A oferta aos jovens de uma plataforma incrível para se tornarem famosos e partilharem as suas ideias de forma muito rápida.” Do outro lado, assume, está a face “sombria deste poder” – uma realidade cheia de “trolls” e discursos de ódio. É “realmente assustador”, admite. Mas “os jovens são espertos e sabem como lidar com esse ódio direcionado para eles”.

Brittany não é tão otimista. Para a canadiana, “as redes sociais são uma arma muito poderosa” porque unem as pessoas do mundo inteiro, mas “os meios digitais têm mudado para pior”. E convidada a pôr-se na pele da jovem Greta Thunberg, diz considerar-se "uma sortuda por não ter de lidar com o tipo de perseguição" que a ativista sueca enfrenta – na sua opinião “um sinal de poder”.

Greta, a marioneta?

Esta sexta-feira, 29 de novembro, há nova greve estudantil pelo clima. A última, no âmbito do apelo internacional lançado pelo movimento "Fridays For Future" ("Sextas Pelo Futuro", FFF), ocorreu há dois meses e a adesão mostra que o tema das alterações climáticas é seguido atentamente pelo grosso das gerações mais jovens.

A 27 de setembro, foram mais de 8 milhões as pessoas que aderiram à greve, ou melhor, às 48 mil greves que tiveram lugar em 217 países (números da própria FFF). Desta vez, a nova greve climática traz a Portugal o fenómeno Greta.

A caminho da Península Ibérica a bordo de um catamarã, a jovem sueca já aceitou participar numa sessão da Assembleia da República, em Lisboa, promovida pela comissão parlamentar de Ambiente, Energia e Ordenamento do Território.

Da capital portuguesa, partirá depois para Madrid, a cidade que, este ano, acolhe a COP25, conferência mundial do clima promovida pela ONU de 2 a 13 de dezembro.

Tal como Greta, quem dá a cara por estas greves e manifestações são sobretudo jovens estudantes, grande parte menor de idade. Isso tem alimentado acusações de manipulação e instrumentalização das crianças nestas lutas, o que tanto Suzuki, de 39 anos, quanto Trilford, de 24, rebatem.

“Sim, podem [ser instrumentalizadas nestas lutas]”, começa por afirmar Trilford em resposta à Renascença. “Depende muito da plataforma, porque muitos meios de comunicação social distorcem o que as pessoas dizem. É muito difícil e delicado lidar com as palavras de uma criança, porque muitas pessoas duvidam. Esses políticos com idades entre os 50 e os 60 anos duvidam. ‘Ela quer realmente dizer o que disse?’. ‘Ela sabe realmente o que está a dizer?’”

A neozelandesa recorda as acusações com que teve de lidar em 2012. “Lembro-me de também ser constantemente chamada de idealista. ‘És tão jovem e ingénua. Como é que podes saber o que está certo? Ainda nem acabaste os estudos...’ Também recebi vários comentários, como ‘Claro que achas que há soluções, mas não sabes quão difícil é implementar essas soluções’ ou ‘Estes problemas são tão grandes, como é que é sequer possível resolvê-los?’. Havia estas suposições preconceituosas de ingenuidade, quando na realidade é exatamente o contrário. Essa ingenuidade e idealismo são apenas esperança e terror combinados com uma voz apaixonada que luta pela mudança, pelo impacto da mudança e pelo futuro.”

Já perto dos 40, Severn Cullis-Suzuki mantém o idealismo, pelo menos no que toca aos jovens que, hoje, dão continuidade à sua luta por um futuro melhor para todos.

“Penso em todos os jovens que conheço e acho impossível tentarem obrigá-los a dizer algo em que não acreditam ou a tentarem obrigá-los a fazer algo em que não acreditam", diz à Renascença. "As pessoas que são exploráveis são as que estão a trabalhar para empresas de combustíveis fósseis, pessoas que se baseiam no lucro dos acionistas. É bastante hilariante que sejam eles a dizer que as crianças é que estão a ser exploradas. Olhem para o que eles estão a explorar… Isso são apenas eles a tentarem distrair-nos do facto de que os jovens estão a atacar uma forma de viver num sistema que está a beneficiar os ricos.”

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