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Da eterna "inquietação" ao "heróico paranóico FMI". Cinco canções de José Mário Branco que não vamos esquecer

19 nov, 2019 - 10:11 • Joana Gonçalves

Músico, compositor, letrista e produtor foi autor de várias obras que passam por géneros como a música popular, de intervenção ou o fado. O cantor e compositor morreu esta terça-feira, aos 77 anos.

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Músico, compositor, produtor e poeta, José Mário Branco, "pequeno burguês de origem", como se apresentava, é consensualmente considerado um dos mais importantes autores e renovadores da música portuguesa.

No dia da sua morte, recordamos cinco canções de que não vamos esquecer.

A eterna "Inquietação"

Um sentimento universal entre os milhares de jovens portugueses que atravessaram um período de incerteza, mas de grande esperança.

Com um instinto inquieto, crítico e revolucionário, José Mário Branco deu voz às convicções coletivas de uma geração que celebrou a oposição ao regime. Seguiu-se o desencanto que exaltou, com um inconfundível espírito interventivo.

“Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber P
orquê, não sei

Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda"


"Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades"

Na década de 70, como nas que se seguiram, a vontade seguiu a mutação do tempo. O medo deu lugar à esperança, que cedo passou a desencanto.

"Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" é o primeiro álbum a solo de José Mário Branco gravado em 1971 em Paris, onde esteve exilado e de onde apenas regressou depois do 25 de Abril de 1974.

Na canção com o mesmo nome, talvez a mais célebre de todas as suas produções, o cantautor ousou adaptar as palavras de Luís de Camões numa obra que revolucionou a música portuguesa.


"Qual é a tua, ó meu?"

Num registo bem mais popular, José Mário desafiou o regime autoritário num tom quase burlesco. A ideologia comunista está especialmente presente nesta canção, com a refrência à "voz do operário", que nunca "fala só".

A provocação é clara e reveladora do espírito revolucionário do cantor que contagiou quem, como ele, recusou aceitar uma ditadura datada.

Qual é a tua, ó meu?
Andares a dizer "quem manda aqui sou eu"?
Qual é a tua, ó meu?
Nesse peditório o pessoal já deu.



O trono é d' "O Charlatão"

É impossível lembrar José Mário Branco sem falar em democracia. Prova disso é a canção "O Charlatão" - uma severa crítica ao sistema à época instaurado. Mais de quatro décadas depois do lançamento, o poema mantém-se atual.

Na travessa dos defuntos
charlatões e charlatonas
discutem dos seus assuntos
repartem-se em quatro zonas
instalados em poltronas

P'rá rua saem toupeiras
entra o frio nos buracos
dorme a gente nas soleiras
das casas feitas em caco
sem troca de alguns patacos

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Entre a rua e o país
vai o passo de um anão
vai o rei que ninguém quis
vai o tiro dum canhão
e o trono é do charlatão


Não há força que detenha o "FMI"

Aos 37 anos deu voz a inquietações que não eram só suas, mas de tantos portugueses que, em 1980, enfrentavam a “ressaca” do PREC. Desilusões das conquistas de abril, culpas “atiradas para os da frente” e a revolta com a intervenção do FMI. “Entretém-te filho, entretém-te”, repetiu tantas vezes, com o característico tom irónico, antes do grito final “Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora!”

Uma interpretação única, arrepiante, atual e irrepetível. No palco do Teatro Aberto, como na vida, sem receio de revelar fragilidades, José Mário Branco foi artista revolucionário, ativista cultural, social, político e, acima de tudo, português.

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