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Entrevista a Geni Lloris

“Pachamama não é Nossa Senhora nem um ídolo, é um ícone da Terra”

19 nov, 2019 - 16:01 • Filipe d'Avillez

As imagens esculpidas de uma indígena grávida tornaram-se o símbolo da revolta de alguns setores da Igreja contra o Sínodo da Amazónia. Chegaram a ser roubadas e atiradas ao rio. “Mesmo sendo de madeira, a mulher continua a ser desrespeitada”, diz a missionária que as levou para Roma.

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Ainda não tinha começado e já o sínodo da Amazónia era alvo de críticas e acusações por parte de alguns setores da Igreja que têm sido críticos do pontificado do Papa Francisco.

Essas críticas acabaram por se centrar numas imagens de madeira, uma mulher indígena, grávida, que foram levadas da Amazónia para Roma como parte da cultura local mas que alguns acusavam de serem ídolos pagãos. Um autêntico disparate, segundo a missionária Genni Lloris, do Verbum Dei, que integrava o grupo que levou as imagens.

“A confusão nasceu do dia em que plantámos a árvore no jardim do Vaticano e começámos com uma dança circular à volta de uma mandala em torno da qual estava esta imagem. Essa imagem representa a Mãe-Terra, ponto. Houve um momento em que nos inclinámos diante da imagem, porque os indígenas nos convidaram a fazer esse gesto, mas o nosso gesto era diante da Terra”, explica Lloris.

Mal as imagens se tornaram públicas, começaram acusações de paganismo e de sincretismo religioso. “Não existe nada disso. Foi uma invenção desses grupos. Tentámos dialogar com eles, mas infelizmente não foi possível qualquer tipo de diálogo. É uma imagem de uma indígena, de madeira. A mulher, mesmo sendo de madeira, continua a ser desrespeitada”, lamenta a missionária.

Do outro lado da barricada alguns vieram dizer que afinal as imagens eram uma representação de Nossa Senhora, mas essa explicação também é rejeitada por Lloris. “No sentido em que gera a vida, como mulher que busca um lugar para dar à luz, poderia haver este paralelo com Maria de Nazaré, mas não podemos dizer isso.”

Para ajudar a entender como os indígenas entendem a imagem e a sua relação com a Terra, a missionária lê um texto escrito pelos próprios. “Para os povos originários a terra é compreendida como a mãe, a ‘Pachamama’, um grande útero onde todas as vidas são geradas, a Mãe-Terra. Esta imagem quer representar e trazer esse imaginário, essa vivência, essa espiritualidade, que permeia a vivência do cuidado pela natureza. A imagem é uma mulher indígena grávida, uma mulher que leva nas suas entranhas a fertilidade da Mãe-Terra e com ela toda a sua força, sua magia e empoderamento. Uma mulher grávida que, como mãe, revela toda a ternura cuidadosa, uma indígena alimentada por uma espiritualidade holística integrada com a natureza, que arranca das suas entranhas o profundo sentido do bom-viver. Bom-viver consigo mesma, orientando o olhar para o interior, habitada por uma criança igual e diferente de si; bom-viver com o outro, com o filho que carrega nas suas entranhas, alimentando-o e cuidando; bom-viver com a natureza, porque ela se inclina sobre a terra que a viu nascer e a alimenta, numa profunda reverência.”

As imagens foram, a dada altura, roubadas da Igreja em que tinham sido colocadas, juntamente com outros artefactos da cultura amazónica, e lançados ao Rio Tibre por um jovem austríaco que afirmou estar a agir em nome da verdadeira fé católica. O Papa Francisco pediu desculpa aos afetados, foi feita queixa na polícia e as imagens acabaram por ser restauradas. Ainda hoje, contudo, o autor do crime é glorificado nas redes sociais por alguns radicais tradicionalistas.


Enriquecimento mútuo

Os críticos do sínodo disseram também que os documentos e a discussão alimentavam uma visão demasiado romântica dos povos indígenas e da sua cultura, como se fosse apenas a Igreja que tem a aprender com elas e não o contrário. Genna Lloris nega totalmente que isto seja um reflexo da realidade, e dá exemplos concretos.

“Enquanto Igreja temos de recuar, dar dois ou três passos para trás, porque a nossa intenção tem sido sempre de levar para lá a Fé, como se lá não existissem as sementes do Verbo, quando na realidade há muito de vivência e dos valores evangélicos. Mas eles mesmo reconhecem o valor da Igreja, caso contrário não pediriam a nossa presença.”

Se o sínodo frisou mais a questão de escutar os indígenas e a sua cultura é porque “tem havido uma carência” nesse campo e “não porque não exista também um reconhecimento por parte dos povos, porque se assim fosse os povos também poderiam ter dito que não nos queriam mais ali, depois das feridas sofridas ao longo dos anos. Mas não, eles reconhecem que a Igreja tem força para os ajudar, que a Igreja Católica os respeita”, diz a missionária, acrescentando que não se passa o mesmo com outras confissões cristãs que desrespeitam os locais e as suas tradições, demonizando-os.

“Vou dar um exemplo concreto dos povos do Xingu. Quando os missionários chegaram lá as mulheres que tinham gémeos tinham a prática de enterrar um deles. A mulher trabalha a terra e por isso só pode carregar uma criança, a segunda criança era enterrada, mas no sentido de ser devolvida à terra. Quando os missionários chegaram começaram a ver essa prática e começaram a fazer um trabalho, dizendo que havia outras alternativas. Em vez de devolver à terra, existiam outros povos que podiam acolher aquela criança. Hoje em dia esses povos não têm mais essa prática”, diz, ilustrando assim como a Igreja também tem tido um efeito positivo sobre os povos locais.

O sínodo da Amazónia decorreu em Roma, durante o mês de outubro, mas segundo esta missionária “não acabou”. Genni Lloris esteve entretanto em Espanha e Portugal precisamente para chamar atenção para as ameaças que a Amazónia enfrenta e nesse sentido profere uma conferência esta terça-feira à noite, na Igreja do Campo Grande, em Lisboa, a partir das 21h.

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