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Eleições em Espanha

Vitória amarga para o PSOE e impasse sem fim à vista em Espanha

10 nov, 2019 - 18:59 • Filipe d'Avillez

O PSOE ganha, mas desce, o PP cresce mas não ganha e o partido que ficou em terceiro lugar canta vitória.

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Da “moção de censura a Sanchéz” ao apelo à “responsabilidade e generosidade”. As reações à noite eleitoral espanhola
Da “moção de censura a Sanchéz” ao apelo à “responsabilidade e generosidade”. As reações à noite eleitoral espanhola

O PSOE de Pedro Sanchez venceu as eleições em Espanha mas sem maioria absoluta e mesmo com menos mandatos do que tinha conseguido em abril, numa eleição que fica marcada pela subida em flecha da direita populista. Contados os votos, o PSOE conseguiu 120 lugares no Parlamento, menos do que os 123 que tinha conseguido em Abril. António Costa já felicitou Sánchez pela sua vitória. No seu discurso, depois de conhecidos os resultados, o líder socialista espanhol pediu "generosidade e responsabilidade" aos restantes partidos para poder desbloquear o impasse político que o país vive há quatro anos, deixando claro, contudo, que não conta com os que têm "discursos de ódio".

Quem ganhou votos foi o PP, de Pablo Casado, embora ainda assim não tenha conseguido ir para além do segundo lugar. Em abril o Partido Popular tinha conseguido apenas 66 deputados, mas consegue agora 88. Ao final da noite Casado disse que Espanha não pode continuar neste impasse, mas sublinhou que com estes resultados o país fica ainda mais difícil de governar. "Hoje o Partido Popular teve um bom resultado eleitoral, mas Espanha teve um mau resultado eleitoral, para a sua governabilidade e para o seu futuro", disse Casado. "Sánchez perdeu o seu referendo, Sánchez fracassou, esse é o grande resultado do dia de hoje."

O maior vencedor desta eleição foi mesmo o Vox que apesar de apenas ter conseguido o terceiro lugar, viu a sua base eleitoral reforçada desde as eleições de abril, ultrapassando assim o Ciudadanos, um dos principais derrotados, e o Podemos de Pablo Iglesias. O Vox tinha conseguido eleger 24 deputados em abril e mais que duplica esse número para 52. O partido já recebeu os parabéns de Matteo Salvini, líder da Liga, o partido de direita populista italiano, e de André Ventura, líder do Chega.

Numa primeira reação, apurados quase 100% dos votos, o líder do Vox, Santiago Abascal, agradeceu aos seus eleitores e prometeu que não os vai defraudar. “Quero em primeiro lugar mandar uma mensagem de gratidão aos 3,5 milhões de espanhóis que confiaram em nós. Mas sobretudo quero fazer-vos uma promessa: Não vos vamos defraudar e defenderemos o mesmo que nestes anos de campanhas eleitorais. Há onze meses não tínhamos representação em nenhuma instituição, hoje somos a terceira força política de Espanha, temos 52 deputados. E mais, fomos o partido que mais subiu em votos e mandatos, e isso tem um significado muito importante”.

A má notícia para a direita é que os votos do PP e do Vox parecem ter vindo de eleitores decontentes com o Ciudadanos, que passou de 57 deputados para 10, pelo que a direita continua sem capacidade de formar governo de coligação. A queda do Ciudadanos foi de tal forma que se viu ultrapassado pela Esquerda Republicana da Catalunha e fica como sexta força política. Reagindo ao colapso do seu partido, Albert Rivera disse: "não me meti na política para ter um cartão de entrada, mas porque amo Espanha" e anunciou a convocação de uma comissão executiva extraordinária do seu partido para discutir os maus resultados, deixando assim aberta a possibilidade de abandonar a liderança do Ciudadanos.

O Unidos Podemos, de Pablo Iglesias, desce de 42 para 26 deputados.

Apesar destas alterações nos números, contudo, os resultados em Espanha deixam a situação praticamente na mesma. No final da quarta votação em quatro anos nenhum partido tem maioria suficiente para formar Governo sozinho e por isso o PSOE terá de voltar à mesa das negociações para tentar convencer os outros partidos de esquerda, incluindo a Esquerda Republicana da Catalunha, que elegeu 13 deputados, a formar uma coligação que permita governar com estabilidade. A possibilidade de formar coligação com partidos separatistas pode ser um preço demasiado alto a pagar, porém, uma vez que parece ter sido precisamente o descontentamento com a situação na Catalunha que fez avançar o VOX nas urnas. São necessários 176 deputados para conseguir maioria absoluta no Parlamento espanhol.

A outra alternativa que cabe ao PSOE é formar um governo de bloco central com o PP, o que até agora não tem sido equacionado de forma séria, ou então formar um governo minoritário.

O Podemos, sabendo que enfrentava uma descida nas urnas, já disse que está disposto a largar as discussões e começar a trabalhar, indicando a disponibilidade para chegar a um acordo.

A abstenção aumentou de forma marginal nestas eleições, comparativamente com as de abril. Votaram 69,94% dos eleitores, um pouco abaixo dos 71,76% da última eleição.

Numa primeira reação aos resultados, Pablo Iglesias disse que é necessário formar um governo estável, para travar a extrema-direita. “Estas eleições serviram para reforçar a direita e para que tenhamos uma das extremas-direitas mais fortes da Europa. A oportunidade que tivemos em abril para formar um governo de coligação progressista é agora uma necessidade. Agora faz falta um Governo suficientemente estável para garantir os direitos. A nossa proposta ao PSOE são os artigos sociais da Constituição Espanhola, para travar a extrema-direita, que é a consequência mais grave das eleições. Apelamos ao PSOE para que respeite o resultado eleitoral.”

[Notícia atualizada às 00h53]

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  • José Joaquim Cruz Pinto
    11 nov, 2019 Ílhavo 10:09
    Por contraste com outras notícias igualmente relevantes sobre as eleições no estado vizinho, esta praticameeente omite ou ignora (1) a componente "Catalunha", com excepção da nota altamente enviesada de que o fascista/fascizante Vox não gostaria nada de qualquer compromisso com os independentistas e/ou apoiantes de um referendo, (2) que, na Catalunha, a soma dos independentistas com os que, não o sendo, apoiam a indispensabilidade de um referendo estão aparentemente em maioria, (3) que o problema da Catalunha (e, genericamente, da auto-designada "Espanha") só terá solução efectiva, justa e democrática, referendando NA CATALUNHA a autonomia existente contra mais autonomia (incluindo o federalismo, e mesmo a independência). Não sou Catalão, e muito menos "Espanhol", e por isso o assunto não me diz respeito, mas se fosse Catalão (condição que sem dúvida definiria uma nacionalidade, de acordo aliás com a História e a própria Constituição "Espanhola"), não consideraria a questão solucionada sem ela ser referendada naqueles termos e condições. No mínimo, que se pergunte explicitamente aos Catalães se a questão deve ou não ser referendada; e, se a resposta for NÃO, então, sim, o problema ficará logo resolvido sem mais dúvidas.