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Forças turcas ocupam pontos estratégicos na Síria e abrem caminho para milícias

10 out, 2019 - 11:44 • Filipe d'Avillez

Fustigado pelas críticas internas, Donald Trump passou agora a menosprezar o valor dos curdos que passou anos a apoiar no nordeste da Síria.

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As Forças Armadas turcas anunciaram a ocupação de vários pontos estratégicos no nordeste da Síria, na manhã depois de terem começado a sua operação “Primavera de Paz”.

Depois de uma série de raides aéreos e bombardeamentos de artilharia, grupos de militares de elite entraram em solo sírio para consolidar a presença turca no terreno.

As Forças Democráticas da Síria, uma coligação de milícias de diferentes comunidades étnicas e religiosos, onde predominam as YPG curdas, afirmaram em comunicado que conseguiram repelir a entrada de soldados turcos em algumas cidades e que havia batalhas intensas em vários pontos.

Esta versão foi desmentida pelo Exército Nacional, uma milícia apoiada e equipada pela Turquia, composta por sírios e estrangeiros, incluindo jihadistas, que está a preparar-se para entrar na Síria para auxiliar os turcos na ocupação do nordeste da Síria.

A Turquia apelidou esta ação bélica outonal, que já fez várias mortes, entre os quais civis, de “Primavera da Paz”. Ancara não aceita que as milícias curdas operem livremente no nordeste da Síria, pois considera-as terroristas aliadas do PKK, o partido e grupo paramilitar que tem levado a cabo uma insurreição contra o regime turco nas montanhas da zona curda daquele país.

O Presidente turco Erdogan diz que quer criar uma “zona segura” no nordeste da Síria, livre de “terroristas” onde planeia depositar milhões de refugiados sírios que ao longo dos oito anos da guerra civil da Síria procuraram abrigo na Turquia. Se o seu plano funcionar a comunidade de refugiados servirá de tampão à presença curda, entretanto liquidada ou deslocada.

Aliados ontem, terroristas hoje

Mas os terroristas de Erdogan eram, até ontem, aliados dos Estados Unidos, tendo desempenhado um papel fundamental na derrota territorial do autoproclamado Estado Islâmico na Síria. A remoção de algumas dezenas de tropas americanas da região agora ocupada pela Turquia foi o que permitiu que a invasão se concretizasse.

Donald Trump, que está a ser fustigado pelos críticos internos, incluindo figuras influentes do seu próprio partido, passou agora a menosprezar a importância dos curdos enquanto aliados dos americanos. Em declarações aos jornalistas, na quarta-feira, disse que “os curdos limitaram-se a lutar pela sua terra” e acusou-os de não terem ajudado os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, dando como exemplo a invasão da Normandia. “Dito isto”, concluiu Trump, “nós gostamos dos curdos”.

Trump disse ainda que não está preocupado com o facto de haver cerca de 12 mil ex-combatentes do Estado Islâmico em prisões no território que a Turquia está a tentar ocupar, uma vez que acredita que Ancara se responsabilizará por eles. Os grupos que integram as FDS já vieram alertar para o perigo de deixar que isso aconteça, dizendo que não confiam na capacidade nem na vontade da Turquia de proteger as prisões, acusando Ancara de ter um historial de apoio secreto ao Estado Islâmico.

O senador Lindsey Graham, um dos mais próximos aliados de Trump, disse publicamente que o abandono dos curdos é “o maior erro da sua presidência”.

Trump disse ainda estar ciente da presença de uma significativa minoria cristã no nordeste da Síria. As principais forças cristãs são aliadas dos curdos e integram as FDS, mas o Presidente americano disse ter recebido garantias do seu homólogo turco de que as minorias seriam protegidas. Entretanto, na noite de ontem havia já relatos de bombardeamentos a atingir a cidade de Qamishli, onde vive uma grande comunidade cristã. Qamishli foi construída precisamente por cristãos fugidos da Turquia em 1915, na altura do genocídio contra arménios e cristãos siríacos.

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