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Livro reúne textos dos Papas contra os abusos sexuais

07 out, 2019 - 12:32 • Filipe d'Avillez

“Não façam mal a nenhum destes pequeninos” é um livro com uma carga penitencial, mas que serve também de recurso para os católicos que se confrontam com este tema e é ainda um exercício de unidade.

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É apresentado esta segunda-feira o livro “Não façam mal a nenhum destes pequeninos – a voz de Pedro contra a pedofilia”, que reúne textos dos Papas Francisco e Bento XVI sobre a questão dos abusos sexuais praticados por membros da Igreja Católica.

Trata-se de uma iniciativa internacional, que em Portugal tem chancela da Lucerna.

Para além de uma introdução de Federico Lombardi, que foi durante anos o responsável do gabinete de comunicação da Santa Sé, o livro inclui três textos de Francisco e dois de Bento XVI, sendo que o mais recente foi escrito já enquanto Papa emérito.

Henrique Mota, responsável pela edição portuguesa, destaca precisamente o facto de este ser um exercício de unidade. “Pela primeira vez, após seis anos de pontificado de Francisco, há um livro escrito pelos dois. Num momento em que muitas vezes Bento XVI é usado como arma de arremesso contra o Papa Francisco, seja por grupos dentro da Igreja, seja por grupos de fora, esta demonstração de sintonia dos dois, que juntos pedem perdão pelos males feitos à Igreja e ao mundo por aqueles que abusaram de menores, é um gesto que tem muito significado.”

Esta unidade é realçada pela forma como esse texto foi publicado, uma vez que Bento XVI, já emérito, submeteu o texto à Secretaria de Estado do Vaticano e ao próprio Francisco, tendo sido autorizado a divulgá-lo.

Henrique Mota explica ainda que há textos que ficaram de fora e que gostaria de ter incluído os comentários feitos por Bento XVI a caminho de Lisboa, em 2010, em que falou sobre o assunto dos abusos sexuais, dizendo que alguns dos ataques que a Igreja sofria vinham precisamente de dentro, dos pecados da própria Igreja.

Sentir vergonha, mas não se envergonhar de pedir perdão

O segundo texto de Bento XVI no livro é a sua carta aos católicos irlandeses, um documento que Henrique Mota sublinha pelo seu caráter penitencial. “É um texto que aborda o tema de uma forma totalmente livre das consequências que possa ter em termos da adesão à Igreja na Irlanda, do impacto que possa ter na imagem que os católicos dão à sociedade irlandesa, do impacto que possa ter dentro da própria estrutura da Igreja irlandesa e da relação com a Santa Sé, acho um texto de uma grande liberdade, de uma grande equidade e esta dimensão penitencial não pode deixar de ser referida.”

Os textos do Papa Francisco são naturalmente mais recentes e incluem o apêndice à carta apostólica que surgiu depois do encontro com os bispos do mundo inteiro sobre a questão dos abusos, no qual Francisco cria as novas normas para lidar com estas situações. “É muito importante porque mostra claramente o exercício da unidade feito a partir da autoridade do Papa, e isso gostava de sublinhar, porque sendo de leitura mais técnica tem uma mensagem que não pode deixar de ser tida em conta e reúne os dois papas nesse desejo que não haja qualquer tolerância quanto à pedofilia na Igreja Católica”, diz Henrique Mota.

Mais do que um mero repositório de textos, este livro permite aos católicos ter sempre à mão as referências mais importantes e pode até servir de manual para uma época em que é nenhum crente pode fugir ao tema. “Ensina desde logo a não esconder o problema, a ter vergonha mas a não se envergonhar de pedir perdão”, diz.

“Ensina que os Papas estão totalmente em sintonia nesta matéria”, acrescenta Henrique Mota, acrescentando que permite, “para o cristão comum, para um católico normal, sem responsabilidades especiais, sentir que este é um tema que a Igreja não esconde, relativamente ao qual não há alçapões, nem sombras.”

“Há um grande pesar, há uma necessidade de pedir perdão e de recuperar credibilidade e de repensar o futuro e o primeiro passo para repensar o futuro está neste livro e é um pedido de perdão.”

O livro “Não façam mal a nenhum destes pequeninos” é editado nas principais línguas usadas pela Santa Sé e outras, incluindo o albanês.

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