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Caminhos Cruzados

​Rio e Jerónimo passam por Beja. “Aqui é tudo comunista. É tudo laranja do chão”

26 set, 2019 - 20:38 • Inês Rocha , Pedro Filipe Silva

Campanhas do PSD e da CDU andaram pelo coração do alentejo. O líder comunista, Jerónimo de Sousa, jogava em casa, enquanto o secretário-geral social-democrata, Rui Rio, teve uma receção menos calorosa, mas "o PSD tem muita gente, não querem é dizer nada, estão calados”, garante um apoiante.

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O líder do PSD percorreu, em passo apressado, a cidade de Beja e teve uma receção tímida da população, historicamente mais virada à esquerda. Já Jerónimo de Sousa jogou em casa: foi recebido de braços abertos na Vidigueira, bastião comunista. A laranja, aqui, é de outra categoria.

“Deram-me duas canetas e assim que mas deram, meti-as no caixote do lixo. Eu não sou do PSD, nunca fui nem nunca serei”.

Constantino José está à porta do mercado municipal da Vidigueira, onde participou num almoço-comício da CDU, esta quinta-feira, com a participação de Jerónimo de Sousa. No dia anterior, esteve no centro de Beja, onde viu passar – de fugida – a caravana social democrata.

“Foi muito rápido, em Beja não teve grande sucesso. Vi as pessoas a virarem-lhe as costas, nem queriam receber o papel do PSD.”

O distrito de Beja foi o local escolhido por Rui Rio para o primeiro contacto com a população desta campanha eleitoral, esta quarta-feira. Mas o contacto não durou muito.

O líder do PSD percorreu os pouco mais de 300 metros que separam o café Luiz da Rocha da praça central da cidade em passo apressado, acompanhado por alguns apoiantes e cerca de uma dúzia de “jotas”, vindos de Lisboa, munidos de megafones e material de divulgação do partido.

Rio entrou em lojas, distribuiu “merchandising” do partido e cumprimentou quem passava, enquanto se encaminhava para a praça central, onde iria participar num programa da TSF.

Um dos populares prontos para cumprimentar o líder do PSD era Isidoro Nascimento. “Vim aqui de propósito para o ver. Deu-me um aperto de mão”, diz o bejense, orgulhoso.

Isidoro garante não ser caso único – apesar de o distrito ser terreno pouco fértil para o PSD, ainda há alguns sociais-democratas, ainda que envergonhados. “É mais a CDU. Mas o PSD tem muita gente, não querem é dizer nada, estão calados”.

Este orgulhoso social-democrata confia que o seu partido pode fazer melhor. “Vamos lá ver se o PSD dá mais qualquer coisinha à gente, ao povo. E se trabalham mais um bocado do que estes, que não têm feito nada. Prometeram, prometeram e o que fizeram?”, questiona o reformado.

Ao lado de Isidoro – mas no lado oposto das opções políticas - está o amigo Idalino Guedelha. Para este ex-contínuo de uma escola local, o voto foi e será sempre para a CDU. Vota nos comunistas desde 1969. Diz que “vira-casacas há muitos”, mas não é um deles. “Não sou capaz de mudar. Nem com o Euromilhões eu mudava!”

E entre a discussão de esquerda e direita, está António Galrito - um descrente. Já não acredita nos políticos. “Agora prometem tudo e mais alguma coisa”. “Estou a receber menos 98 euros do que recebia em 2004. E todos dizem que estamos melhores? Eu acho que não. Acho que estamos todos é um bocadinho pior.

Está ainda com o voto “em estudo”. Quer ir votar, mas ainda não sabe em quem. “Ainda não tenho nenhuma decisão. Ninguém sabe para onde eu vou, mas vou!”

Rui Rio saiu de Beja com a esperança de conseguir manter o único deputado que tem no distrito de Beja. Os outros dois são do PS e da CDU.

“Aqui é tudo Partido Comunista. É tudo laranja do chão”

Um dia depois, é a vez de Jerónimo de Sousa passar pelo distrito, um dos bastiões históricos do Partido Comunista, tanto a nível municipal como nacional.

No mercado municipal desta pequena vila alentejana, o líder do partido discursa, perante o entusiasmo de mais de 150 militantes e apoiantes.

Aqui, é difícil encontrar sociais-democratas. Nas últimas legislativas, em 2015, o PSD conquistou apenas 17% dos votos, contra os 40% do PS e os 26% da CDU.

Aqui, a laranja é de outra categoria, brinca Jacinta Galinha, depois de espreitar pela porta do mercado para ver Jerónimo de Sousa. “Aqui é tudo Partido Comunista. É tudo laranja do chão. As outras laranjas melhores vão para os outros lados”, diz.

“Os outros partidos são dos ricos, dos que têm mais e querem tirar o dinheiro aos pobres. Tenho que ser do partido dos mais pobres”, afirma a reformada.

Na autarquia da Vidigueira, desde 1979, a CDU só não governou entre 2001 e 2005, quando perdeu as autárquicas para o PS. O PSD não costuma ultrapassar os 10% dos votos.

Em frente ao mercado, Constantino José explica que na política é tudo uma questão de pessoas.

“Eu era PS, mas como vivo aqui eu voto pelas pessoas, não pelo partido. Sou amigo do presidente da Câmara e da Junta, estou satisfeito com eles todos”. Lembra os serviços públicos, a maioria gratuitos e com qualidade. “Não há muitos sítios no país em que a gente tenha tantas primazias”, remata.

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