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Papa elogia moçambicanos. “Não deixastes que o ódio tivesse a última palavra”

05 set, 2019 - 09:31 • Aura Miguel , Filipe d'Avillez

No primeiro discurso feito em Moçambique, Francisco deixou uma palavra especial para as vítimas dos ciclones Kenneth e Idai, lamentando não poder visitar pessoalmente as zonas atingidas.
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Papa elogia moçambicanos. “Não deixastes que o ódio tivesse a última palavra”

O Papa Francisco elogiou esta quinta-feira o povo moçambicano pelo esforço que tem feito nas últimas décadas para solidificar o processo de paz.

No seu primeiro discurso feito em solo Moçambicano, num encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático no Palácio Ponta Vermelha, residência oficial do Presidente.

Recordando o acordo de cessação de hostilidades assinado no passado dia 6 de agosto, na Serra da Gorongosa, e que surge 27 anos depois do Acordo Geral de Paz assinado em 1992, em Roma, Francisco afirmou: “Conhecestes o sofrimento, o luto e a aflição, mas não deixastes que o critério regulador das relações humanas fosse a vingança ou a repressão, nem que o ódio e a violência tivessem a última palavra.”

Contudo, alertou o Papa, é preciso recordar que a batalha pela paz não pode cessar. “A paz não é apenas ausência de guerra, mas o empenho incansável – especialmente daqueles que ocupamos um cargo de maior responsabilidade – de reconhecer, garantir e reconstruir concretamente a dignidade, tantas vezes esquecida ou ignorada, de irmãos nossos, para que possam sentir-se os principais protagonistas do destino da própria nação”, disse, afirmando ainda que esta só pode beneficiar dos desenvolvimentos efetuados no âmbito da educação e da Saúde em Moçambique, embora ainda haja muito a fazer.

“Tendes uma corajosa e histórica missão a cumprir: não cesseis os esforços enquanto houver crianças e adolescentes sem educação, famílias sem teto, trabalhadores sem trabalho, camponeses sem terra... Tais são as bases dum futuro de esperança, porque futuro de dignidade! Tais são as armas da paz.”

O esforço pela paz já tinha sido sublinhado antes pelo Presidente Nyusi que fez questão de citar o documento do Papa Evangeli Gaudium, no qual o Papa diz que reza por políticos que tenham o bem comum como prioridade. Nyusi citou em particular a frase "o primeiro a pedir desculpas é o mais valente; o primeiro a perdoar é o mais forte".

"Os esforços desenvolvidos pelos Moçambicanos, Santo Padre, visam essencialmente construir uma nação onde a não violência passe a ser uma cultura vivida por todos, em que a política se faça através da força dos argumentos e não mais da força das armas", disse o Chefe de Estado.

Proximidade com vítimas dos ciclones

Logo no início do seu discurso Francisco fez questão de saudar de forma especial as vítimas dos ciclones Kenneth e Idai, que espalharam a destruição e a morte em largas zonas do país, que o Papa lamentou não poder visitar pessoalmente.

“Quero que as minhas primeiras palavras de proximidade e solidariedade sejam dirigidas a todos aqueles sobre quem se abateram recentemente os ciclones Idai e Kenneth, cujas devastadoras consequências continuam a pesar sobre tantas famílias, principalmente nos lugares onde ainda não foi possível a reconstrução, requerendo esta especial atenção.”

“Infelizmente, não poderei ir pessoalmente até junto de vós, mas quero que saibais que partilho a vossa angústia, sofrimento e também o compromisso da comunidade católica para fazer frente a tão dura situação. No meio da catástrofe e da desolação, peço à Providência que não falte a solicitude de todos os atores civis e sociais que, pondo a pessoa no centro, sejam capazes de promover a necessária reconstrução”, disse.

As vítimas dos ciclones foram também recordadas pelo presidente Filipe Nyusi, que aproveitou o momento para agradecer a toda a comunidade internacional a ajuda prestada ao país naquela altura.

Já no final do seu discurso o Papa alertou para as ameaças ambientais que pairam sobre Moçambique, onde a exploração desregrada dos recursos naturais apresenta grandes riscos.

“Moçambique é uma nação abençoada, e vós sois especialmente convidados a cuidar desta bênção. A defesa da terra é também a defesa da vida, que reclama atenção especial quando se constata uma tendência à pilhagem e espoliação, guiada por uma ânsia de acumular que, em geral, não é cultivada sequer por pessoas que habitam estas terras, nem é motivada pelo bem comum do vosso povo.”

“Uma cultura de paz implica um desenvolvimento produtivo, sustentável e inclusivo, onde cada moçambicano possa sentir que este país é seu, e no qual possa estabelecer relações de fraternidade e equidade com o seu vizinho e com tudo o que o rodeia.”

Terrorismo em Cabo Delgado

Embora o Papa não se tenha referido diretamente ao assunto, Filipe Nyusi fez questão de falar da violência que se tem feito sentir em Cabo Delgado e que já foi atribuído a extremistas islâmicos, embora esta tese não tenha sido ainda confirmada de forma oficial.

"A Paz efectiva que tanto ansiamos e pugnamos tem vindo a ser ameaçada na província nortenha de Cabo Delgado, onde malfeitores, ainda sem rosto, semeiam actos de terror, matam, destroem e pilham bens das populações indefesas", disse, acrescentando "guardamos a fé e a convicção de que o Povo Moçambicano é um povo pacífico e resiliente que se livrará de mais esta provação a que está sujeito".

Nyusi terminou o seu discurso recitando a oração de São Francisco que, disse, está a ser rezada em todas as capelas de Moçambique, nesta altura em que a prioridade é a Paz.

Este foi o primeiro discurso do Papa em Moçambique, no início de uma visita de vários dias que o leva também ao Madagáscar e às Ilhas Maurícias. Esta quinta-feira Francisco tem ainda um encontro inter-religioso com jovens, seguido de um encontro com a comunidade religiosa, na Catedral da Imaculada Conceição. Sexta-feira será celebrada uma missa no estádio de Zimpeto, onde são esperadas mais de 80 mil pessoas.


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