Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Boris e a fronteira irlandesa

23 ago, 2019 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Os britânicos não gostam da solução provisória para manter aberta a fronteira entre a República da Irlanda e o Ulster após a sua saída da UE. Mas nunca propuseram uma solução alternativa.

Desde há pelo menos três anos que se sabe ser muito difícil resolver o problema da fronteira entre a República da Irlanda e o Ulster (Irlanda do Norte), uma vez que o Reino Unido esteja fora da UE. No final de 2016 foi preciso um papel assinado pelas partes garantindo que, no acordo de saída, essa fronteira não voltaria a ser fechada; o papel era necessário para se iniciarem negociações de saída. E a manutenção daquela fronteira aberta é um compromisso inscrito no acordo de 1998 que pacificou as relações entre protestantes e católicos no Ulster.

Ora durante as longas negociações do acordo de saída, que a anterior primeira ministra britânica T. May assinou, não foi possível ir além de uma solução classificada de provisória para o problema, até ser encontrada, dentro de um prazo de dois anos, uma solução melhor e definitiva (por exemplo, no futuro acordo que regulará as relações entre o Reino Unido e a UE). A solução provisória – o “backstop” – consiste em manter o Reino Unido e a UE numa união aduaneira.

O “backstop” não passou na Câmara dos Comuns. E é anátema para os mais assanhados defensores britânicos da saída da UE, como se tornou hoje Boris Johnson.

Boris é agora primeiro-ministro e comprometeu-se a fazer o seu país sair da UE a 31 de outubro, com ou sem acordo de saída. Entretanto, Boris Johnson começou a dar-se conta dos enormes problemas que o Reino Unido enfrentará com uma saída da UE sem acordo. Por isso veio a Berlim jantar com Merkel e a Paris almoçar com Macron.

Nem Merkel nem Macron afastaram totalmente a ideia de uma renegociação do “backstop”, que teria de ser concluída num mês – o que não significa necessariamente modificar o acordo de saída, mas alterar a declaração política que o acompanha (uma hipótese muito contestada em Londres). Merkel acrescentou que cabia aos britânicos o ónus de encontrar uma nova solução para manter aberta a fronteira irlandesa. E Macron insistiu na importância do “backstop”.

Extraordinário é o facto de nunca ter aparecido no Reino Unido a tal solução alternativa. E Boris Johnson ter vindo a Berlim e a Paris sem qualquer proposta concreta no bolso. Parece que o primeiro-ministro britânico não dá grande importância aos problemas da Irlanda. O que é, de resto, uma antiga e lamentável tradição inglesa.

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