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Paquistão

“Estamos felizes pela Asia Bibi, mas é apenas um caso. Há muitos outros”

09 mai, 2019 - 06:30 • Filipe d'Avillez

Com a situação dos cristãos no Paquistão a piorar, um casal está a tentar arranjar bolsas de estudo para jovens do país poderem vir para a Europa e assim escapar à discriminação.

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A comunidade cristã no Paquistão está feliz com a libertação de Asia Bibi que esteve 10 anos na prisão, condenada à morte por blasfémia, acabando por ser libertada e que se encontra agora em segurança no Canadá.

Mas o político Joel Sahotra, um cristão que integra o Governo regional do Punjab, recorda que este caso é apenas um entre muitos outros.

“Estamos muito felizes pelo facto de esta nossa irmã ter sido libertada, mas este é apenas um caso excecional. Toda a comunidade internacional ergueu a voz e pôs pressão sobre o Governo do Paquistão e finalmente foi libertada pelo Supremo Tribunal. Mas ainda assim, levou cinco meses até ela conseguir sair do país”, refere em entrevista à Renascença.

“Esse é apenas um caso. Temos vários. Uma semana antes outro cristão foi acusado de blasfémia. Para onde é que caminhamos?”, pergunta Joel Sahotra.

O político recorda que, em 1947, quando o Paquistão foi fundado, os cristãos representavam cerca de 26% da população. Hoje são 1,6% e, segundo Sahotra, a situação nunca esteve tão má.

“As coisas pioram todos os dias. Há dois meses um aluno universitário cristão foi assassinado por outros alunos e um funcionário por beber água da mesma torneira usada pelos restantes alunos. Isto mostra o extremismo e o estado de espírito da comunidade muçulmana e a situação que enfrentamos agora no Paquistão.”

Precisamente porque a discriminação é transversal à sociedade, Joel e a sua colega Fatima estão agora a viajar pela Europa, com o apoio da Igreja Católica paquistanesa, para tentarem obter bolsas de estudo em universidades europeias para jovens cristãos paquistaneses. Em Portugal já tiveram reuniões promissoras, dizem, com a Universidade Católica e a Universidade Nova.

“Eles conhecem a situação dos cristãos paquistaneses e vão-nos dizer o que nos podem oferecer”, explica Joel.

Fatima, que tem formação em Educação, explica que no Paquistão as poucas universidades privadas que existem estão fora do alcance das famílias cristãs. “A maior parte dos cristãos tem trabalhos na área da limpeza. Mesmo o Governo chega a anunciar vagas nessa área e diz nos anúncios que as posições são apenas para cristãos. Um chefe de família nessa situação ganha cerca de 90 euros por mês, com os quais tem de sustentar uma família, e por isso é muito difícil pagar uma educação superior de qualidade para os filhos. Então têm de ir para as universidades públicas, onde enfrentam muita discriminação.”

A cristã paquistanesa descreve um exemplo recente que se passou na mesma universidade onde ela estudou, anos antes. “Há um ano uma rapariga cristã, órfã, ficou doente e estava a piorar muito. A situação estava a tornar-se crítica e até as amigas estavam a pedir aos professores para chamarem as equipas de emergência médica, mas eles recusavam-se, diziam que ela estava a dramatizar. Acontece que ela tinha uma intoxicação alimentar. Acabou por desenvolver septicémia e passados três dias morreu”, explica.

“O resultado é que quando falámos com a sua irmã mais nova, de nove anos, ela disse-nos que tinha medo de prosseguir os estudos”, conta Fatima.

Joel insiste que a única solução é procurar oportunidades educativas fora do país. “A nossa comunidade é pequena, estamos muito espalhados e somos pobres. Os nossos jovens são muito talentosos, têm potencial e podem tirar cursos, mestrados e doutoramentos, mas não têm dinheiro para isso.”

Medo da morte é constante

De todas as ameaças enfrentadas pelos cristãos e outras minorias religiosas, a lei da blasfémia é a mais grave, diz o político, até pela sua arbitrariedade.

“É muito fácil acusar alguém de qualquer comunidade religiosa. Se um muçulmano tiver algum problema com um cristão ou um hindu, basta acusá-lo de ter humilhado o Islão e rapidamente surgirá uma multidão que não vai esperar pela polícia, vai tentar fazer justiça pelas próprias mãos. Há tantos exemplos!”

Quando Asia Bibi foi detida, Joel Sahotra diz que foi o primeiro político no Punjab, o estado onde o caso se desenrolou, a criticar abertamente o processo.

“Disse que o caso era falso e que a lei devia ser eliminada. O presidente do Parlamento não nos quis dar tempo para falar do assunto, por isso eu e um colega saímos da Câmara, porque sabemos que temos de falar pela nossa comunidade. Temos paixão, somos fortes na fé. Podemos não ter recursos, mas Deus está connosco”, diz.

Salmaan Taseer, político muçulmano que é o atual governador do Punjab, também criticou a lei e o caso de Asia Bibi, e por isso foi assassinado por um dos próprios guarda-costas. Joel diz que o medo da morte faz parte do seu dia-a-dia.

Houve um caso em dezembro de dois irmãos cristãos acusados de blasfémia. Critiquei novamente o caso e uma multidão apedrejou a nossa casa. Tentaram mesmo pegar-lhe fogo. Isto para eles é normal.”

Idealmente, Joel e Fatima gostariam de ver entre 15 a 20 alunos cristãos do Paquistão a vir estudar para a Europa com bolsas de estudo. “Peço que as instituições de ensino na Europa ofereçam bolsas aos nossos jovens, tratando-os como situações excecionais e humanitárias. As novas gerações já não estão seguras no Paquistão”, sublinha.

Sobre o risco de estes alunos acabarem por permanecer no estrangeiro em vez de regressarem ao seu país-natal, Sahotra reconhece que é real. “Muitos poderão ficar, mas outros voltarão. Eles conhecem a situação e têm estima pela comunidade. Se beneficiarem disto sentirão o dever de regressar para ajudar a sua comunidade oprimida no Paquistão.”

[Notícia atualizada às 12h26]

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