|
A+ / A-

Roma reconhece licitude dos casamentos “lefebvrianos”

04 abr, 2017 - 14:05 • Filipe d'Avillez

Num documento divulgado esta terça-feira o Vaticano reconhece que a Sociedade de São Pio X (SSPX) não se encontra em comunhão plena, mas acrescenta “por enquanto”.

A+ / A-

No que parece ser mais um passo rumo à normalização das relações com os tradicionalistas da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X (FSSPX), o Vaticano publicou esta terça-feira um documento em que elabora normas para que sejam reconhecidos oficialmente os casamentos celebrados por padres dessa organização, que ainda não se encontra em comunhão plena com Roma.

A FSSPX foi fundada pelo já falecido arcebispo Marcel Lefebvre e os seus membros rejeitam algumas das conclusões do Concílio Vaticano II, nomeadamente a reforma litúrgica, a abertura ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso e o conceito de liberdade religiosa. A fraternidade existiu durante muitos anos como organização católica mas em 1988 Lefebvre foi excomungado depois de ter ordenado quatro bispos sem autorização do Papa João Paulo II.

Desde essa altura a FSSPX tem estado fora de comunhão com a Igreja Católica, embora tenham sido dados importantes passos de reaproximação na última década. Bento XVI levantou as excomunhões que pendiam sobre os quatro bispos ordenados por Lefebvre, que já tinha morrido, e esteve a pouco de firmar um acordo de reintegração do movimento.

Já no pontificado de Francisco o acordo parece iminente. O Papa já concedeu oficialmente aos sacerdotes da FSSPX a capacidade de ouvirem confissões de católicos e, com o documento desta terça-feira, esse privilégio estende-se, em certas circunstâncias, aos casamentos.

Segundo o documento, o bispo de cada diocese deve, caso lhe seja pedido, nomear um padre em situação regular, isto é, que não pertença à FSSPX, para estar presente no casamento e será esse sacerdote a receber o consentimento dos esposos que, de acordo com a forma extraordinária da missa – conhecida informalmente como rito antigo, ou rito tridentino – realiza-se antes da celebração da missa. Depois de recebido o consentimento dos noivos, a missa pode ser celebrada pelo padre da fraternidade.

Contudo, em casos em que isto não seja possível o bispo pode delegar no próprio padre da FSSPX a autoridade de celebrar legitimamente o casamento, pedindo que ele preencha toda a documentação e a envie para os serviços da cúria diocesana para que o casamento fique registado.

No caso português, em que o casamento católico tem efeitos civis, estes procedimentos permitem, por exemplo, aos casais que aderem ao FSSPX tratarem de tudo na mesma celebração.

Num apontamento importante, o documento refere a situação canonicamente irregular da fraternidade mas acrescenta a expressão “por enquanto”, reforçando a ideia, que tem sido veiculada recentemente por fontes ligadas às negociações, que um acordo entre Roma e a FSSPX está iminente. Esse acordo poderá passar por atribuir à fraternidade o estatuto de prelatura pessoal, de que actualmente apenas goza a Opus Dei. Esta estrutura dará à fraternidade uma certa autonomia para agir e manter as suas tradições, estando em simultâneo em comunhão plena com o Papa.

O documento desta terça-feira termina dizendo que "conta com a colaboração" do bispo local "certo de que desta forma se possa aliviar quaisquer escrúpulos de consciência de alguns fiéis unidos à FSSPX e a falta de certeza sobre a validez do sacramento do matrimónio, facilitando ao mesmo tempo a total regularização institucional" da fraternidade.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.