Crónicas da América
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Director do FBI suspendeu investigações no Verão para não interferir na campanha eleitoral

02 nov, 2016 - 06:32 • José Alberto Lemos, em Nova Iorque

James Comey aceitou colocar em lume brando uma investigação à Fundação Clinton e outra ao director de campanha de Trump para evitar intromissões judiciais no processo eleitoral. Revelação do “New York Times” expõe aparente incoerência do director do FBI.
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O FBI absteve-se de avançar com duas investigações criminais no Verão passado para não interferir na campanha eleitoral, obedecendo à regra existente no âmbito do Ministério da Justiça que visa evitar casos judiciais que possam condicionar eleições em curso.

A revelação foi feita esta terça-feira à noite (madrugada de quarta em Portugal) pelo “New York Times”, que cita fontes policiais sob anonimato. As investigações respeitavam a dois casos que tiveram, apesar de tudo, alguma repercussão pública: os negócios do então director de campanha de Trump, Paul Manafort, com oligarcas russos e com o Kremlin; e as relações de Hillary Clinton enquanto secretária de Estado com doadores da Fundação Clinton, liderada pelo marido.

Ambos os casos tinham investigações abertas no FBI, mas a sua complexidade e o previsível arrastamento no tempo fariam deles casos de grande impacto na campanha presidencial em curso.

Por isso, o Ministério da Justiça instou o FBI a não avançar com intimações ou quaisquer outras diligências judiciais na linha da política seguida nos Estados Unidos em casos deste tipo.

Como explicámos no último artigo, há uma tradição genérica das administrações no sentido de evitar envolver em processos judiciais pessoas que estejam a candidatar-se a cargos políticos e existe mesmo um protocolo que o desaconselha nos 60 dias anteriores à eleição.

Nos dois casos referidos, o director do FBI, James Comey, concordou com a posição do Ministério da Justiça e as investigações ficaram em lume brando até ao desfecho das eleições.

O que surpreende na notícia é a aparente incoerência de Comey entre a decisão do Verão passado e a da semana passada relacionada com os emails de Hillary Clinton, em que rejeitou manter o caso em sigilo até à realização do acto eleitoral, a apenas 11 dias de distância.

Clima sombrio

Embora a tutela do FBI seja o Ministério de Justiça, a agência goza de autonomia de decisão e no caso dos emails de Clinton o director terá querido vincar a sua independência perante o poder político. Comey pretende que a sua decisão seja estritamente jurídica e desprovida de motivações ou influências políticas.

O resultado foi, contudo, bem diferente, mergulhando o FBI no centro da maior controvérsia política desta campanha. Segundo as fontes do “New York Times”, o clima no interior da agência de investigação policial é bastante sombrio e ninguém arrisca prever o que acontecerá se, até ao dia das eleições, o FBI não estiver em condições de dar alguma informação à opinião pública sobre os emails agora em análise.

Concluir a investigação aos milhares de emails em causa está fora de questão dada a dimensão da tarefa, mas as pressões internas e externas são enormes para que o FBI consiga pelo menos esclarecer antes do dia 8 se os novos emails poderão dar um outro rumo ao processo de Hillary Clinton.

Segundo funcionários ouvidos pelo jornal nova-iorquino, só “algo extraordinário” poderia alterar a conclusão de Julho de não acusar criminalmente Clinton. Mas a falta de esclarecimentos oficiais permite alimentar a especulação de que os emails serão relevantes para o processo. Uma especulação que está a ter um efeito devastador na campanha democrática, hoje mais inquieta do que nunca perante a subida de Donald Trump nas sondagens.

Recorde-se que estamos a falar de emails que foram trocados entre a principal assessora de Hillary, Huma Abedin, e o seu ex-marido, Anthony Weiner, que está a ser investigado por aliciamento sexual a menores através da internet.

Não são, portanto, e-mails escritos ou recebidos por Hillary Clinton, mas emails de terceiros por onde poderá eventualmente ter circulado informação classificada, dando consistência à suspeita de que a ex-secretária de Estado não acautelou o sigilo da informação sensível com que lidava.

A garantia ao Congresso

A revelação de que Comey aceitou congelar duas investigações no Verão por causa das suas repercussões políticas e não aceitou fazê-lo agora no caso Clinton coloca o director do FBI sob fogo ainda mais intenso. Aparentemente, a diferença de critérios terá a ver com o compromisso que Comey tinha assumido perante o Congresso em Julho.

Durante o duro interrogatório a que foi então sujeito – sobretudo, por congressistas republicanos descontentes com a não dedução de acusação a Clinton – o director garantiu que se surgissem novos elementos relevantes para o processo a agência voltaria a “olhar para o caso”, que formalmente não foi arquivado. Confessou que lhe era “difícil responder em abstracto”, mas admitiu retomar as investigações se novos elementos o justificassem.

Na carta que enviou na sexta-feira passada, Comey informa o Congresso sobre o novo desenvolvimento do caso e foi essa informação que desencadeou toda a tempestade política desta recta final da campanha.

A notícia do “New York Times” dá ainda conta das divisões no seio do FBI quer por causa deste caso quer por causa dos dois casos no Verão. Nessa altura, responsáveis do Ministério da Justiça e do FBI concordaram em que avançar com a investigação à Fundação Clinton poderia influenciar a corrida presidencial e sugerir que estavam a favorecer Trump.

Esperar, por outro lado, expô-los-ia às críticas dos republicanos, que exigiam uma investigação. Por isso, foi decidido manter o caso em aberto e aguardar até ao fim das eleições para definir os novos passos do processo, o que enfureceu alguns agentes, convencidos que estavam a ser coarctados por razões políticas.

No caso actual, surgido a apenas 11 dias das eleições, os observadores interrogam-se por que não foi adoptado o mesmo procedimento. Aqueles que no FBI defendem a decisão do director explicam que haveria certamente fugas de informação sobre o exame que estava a ser feito ao computador de Weiner e que isso daria a ideia de que Comey estava a reter informação que deveria ser fornecida ao Congresso.

Perante o dilema de, por um lado, ser acusado de reter informação ao Congresso e, por outro, sofrer as consequências de influenciar as eleições presidenciais, Comey preferiu a segunda hipótese. Vá-se lá saber porquê! Mesmo os agentes que o defendem reconhecem que o impacto da decisão nunca foi tão negativo na história recente do FBI.

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