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Aguiar da Beira. A fuga de Pedro Dias transformou-se num "reality show"?

21 out, 2016 - 19:27 • João Carlos Malta

As televisões acompanham em directo a fuga do alegado homicida. Há quem defenda que os média prejudicam a investigação. Mas também quem critique as polícias por não fornecerem informação.

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Telejornais feitos à chuva em directo de uma aldeia em que as autoridades fazem buscas. Imagens de um local onde Pedro Dias poderá ter pernoitado e até fóruns de opinião sobre a fuga do homem mais procurado do país. As televisões estão em directo quase permanente desde que o suspeito de ter morto duas pessoas em Aguiar da Beira começou a fuga já lá vão 11 dias. Mas poderão os jornalistas estar a atrapalhar o trabalho dos investigadores? E de quem é a responsabilidade de isso acontecer?

A ministra da Justiça, Francisca Van Dunnen, na passada quinta-feira, apontou baterias aos repórteres.

“Infelizmente, isto não é um ‘reality show’, e não pode ser tratado como tal. É preciso dar espaço para que as polícias trabalharem e, sobretudo, é preciso que não nos ponhamos a criar factores laterais, ideias de que há problemas de descoordenação. Não há problema rigorosamente nenhum”, explicitou.

À Renascença, Carlos Anjos, ex-inspector da Polícia Judiciária, chama a atenção que os tempos em que as forças de segurança investigam sem que os meios de comunicação estejam presentes acabaram. “É como as tecnologias, não vale a pena chorar a pensar no passado”, compara.

Numa sociedade mediática, os investigadores têm de contar com esse factor. Mas em Portugal isso continua a não acontecer, afirma. “Não há nenhuma estratégia de comunicação dos órgãos de polícia com os média no terreno. Por não haver informação, há meios de comunicação que vão dando informações da polícia e dizendo coisas certas e coisas erradas, e antecipando buscas e operações da polícia”, lembra.

E se o foragido tiver acesso a uma televisão “sabe por antecipação o que a polícia está a pensar”. O que, defende, “é um erro dramático”. O presidente da Associação Sindical dos Profissionais de Polícia (ASPP), Paulo Rodrigues, também alerta para os perigos de fuga de informação que comprometem o trabalho no terreno.

Já Eduardo Dâmaso, director-adjunto da CMTV, assume que estes casos colocam sempre questões à acção da polícia e dos média. No caso de Aguiar da Beira, a estratégia das televisões, a de estar em directo quase permanente, “propicia erros”. A capacidade de verificação diminui, reconhece.

Apesar de mais expostos a falhas, Dâmaso defende que prefere uma sociedade “aberta, que leve informação às pessoas, do que uma sociedade fechada, que se resguarde numa lógica de autolimitações que matam a informação".

O director-adjunto da CMTV critica ainda as palavras da ministra (o "reality show") e não “compra” a tese de que é pelos jornalistas que a investigação não progride. “Há qualquer coisa de errado do lado das forças de segurança por omissão. Os jornalistas fazem o seu papel. Em Inglaterra e França, os espaços são delimitados e há locais dos quais não se podem fazer directos. E as regras são respeitadas nesses países”, garante.

Em Portugal, pelo contrário, “há muitas indefinições, muitas zonas cinzentas”. “Há um problema crónico na forma como as polícias não são capazes de comunicar correctamente e em tempo útil não só com os jornalistas, mas também com a população em geral. Este exemplo de Aguiar da Beira é de escola”, sublinha.

Os mesmos erros de sempre

Independentemente do funcionamento deste caso em concreto, ele pôs a nu, mais uma vez, que não existe uma comunicação centralizada nas forças de segurança, sobretudo em casos de maior gravidade e que despertam a atenção mediática.

“Era importante ter-se criado um centro de coordenação que pudesse fazer, como noutros países, que os jornalistas soubessem as informações que existem de duas em duas horas”, explica o presidente da ASPP, Paulo Rodrigues.

No terreno, a forte presença dos média parece estar a provocar um jogo do “gato e do rato” entre jornalistas e polícias. O “i” desta sexta-feira fala de uma acção inventada pelas forças de segurança em duas aldeias de Vila Real para despistar os repórteres das buscas em casas noutro local.

“Não me parece que isso seja eficaz. Resultou desta vez, mas na próxima pode não ser assim”, reage Paulo Rodrigues.

Carlos Anjos diz que a polícia nada aprende de uns casos para os outros. “Quando era presidente do sindicato da PJ comecei por defender que os órgãos de polícia e os tribunais tivessem um gabinete de imprensa que funcionasse enquanto tal. Não apenas alguém a ler comunicados”, defende o ex-PJ.

O antigo inspector defende que o problema de comunicação entre o sistema de justiça e os média tem mais problemas. “É impensável que os jornalistas continuem a esperar durante horas à porta de tribunais sem que se dê informações ou apenas se diz que ele fica em preventiva e no dia a seguir assistimos a um vilipendiar do segredo de justiça em que toda a gente tem fontes”, revela.

Eduardo Dâmaso sublinha que, na relação entre jornalistas e investigadores, os jornalistas devem ter como única preocupação os leitores. “Tirando as limitações de não fazer nada que ponha em risco a vida das pessoas, vivemos numa sociedade livre e democrática. Uma sociedade de informação e não vale a pena estar a insistir em práticas que levam a autocensura. Os jornais e as televisões estão a fazer o seu papel, levar informação às pessoas”, conclui.

O líder sindical da PSP concorda que, “não podendo impedir que os jornalistas façam o seu trabalho, as forças de segurança têm de contar com isso e estarem preparadas”.

O antigo investigador da PJ Carlos Anjos diz que não vale a pena que os políticos responsabilizem os órgãos de comunicação social pelos falhanços no terreno. “Não podemos dizer que a culpa de não prendermos é das televisões e dos média que não têm consciência social. A culpa é de quem devia liderar e não lidera e deixou que a situação ficasse sem rei nem roque”, remata.

Comentários
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  • Homocivilis
    13 nov, 2016 Planeta Terra 13:02
    Eu sou um ser humano que só admito e aceito a autoridade que decorre da minha própria consciência, e penso que o mundo seria óptimo se os outros não aceitassem nenhuma espécie de autoridade que não essa. Apenas quero comentar dizendo que gostaria muito de ver os actuais comentadores do infeliz caso Pedro Dias colocarem-se verdadeiramente no lugar dele, para poderem então validar os seus próprios comentários.
  • Um fugitivo em acção
    28 out, 2016 RIBEIRA 23:16
    SEGUNDO AS PESSOAS ELE ATÉ É UM INDIVIDUO AFÁVEL. Mas se o confrontarem o desenrolar da situação poderá ser bem pior. Ele sabe gerir o contexto em que está inserido.
  • A divulgação
    25 out, 2016 lisboa 15:11
    A comunicaçao social tem ajudado bastante a divulgar o rosto do assassino e o seu percurso contribuindo desta forma para a nossa segurança. O País inteiro está em alerta!
  • 24 out, 2016 17:08
    E igual ao caso do Manuel Palito.As autoridades só o apanham quando ele se entregar. Imaginem se o país fosse grande.A nossa polícia está mais vocacionada para estar nos tascos ou nas bombas de gasolina a beber umas minis e a dis cutie futebol
  • Azevedo
    24 out, 2016 Santo >Tirso 17:05
    Eu até sou um dos que estou a gostar de ver esta telenovela ao vivo,mas acho tudo devia ter o seu limite , vejo jornalistas dizerem uma coisa ,a seguir dizer outra ,uns comentadores a dizer isto está por minutos , a seguir já se dizem tão cedo não se apanha o assassino, bolas e mais bolas , estes jornalistas estão a ganhar o seu ,mas talvez o seu trabalho seria mais util se fosse todos mato dentro ajudar as forças policiais certamente o homem o criminoso apar cia mais rápido
  • Manuel Sá
    24 out, 2016 Porto 16:59
    Os jornais fazem apenas o seu papel ou seja publicar tudo (mesmo reles) para osvender : Aproveitar todos os pormenores - quanto mais sórdidos melhor. É o estilo do (grande) filme de Scola, Feios Porcos e Maus. AGORA, o chefe dos investigadores no terreno é que deve proibir a imprensa de andar mesmo em cima deles. Não sei como não os abafam.
  • maria
    24 out, 2016 Lx 16:57
    Infelizmente sim, sendo que a responsabilidade é inteiramente de toda a comunicação social, acabando por beneficiar o fugitivo.
  • xico
    24 out, 2016 norte 16:05
    É uma vergonha, andarem autoridades atrás de um individuo e por trás em directo noticiarem os factos que estão acontecer. isto é mesmo vergonhoso. Ainda hoje li duas paginas de um jornal sobre isto, parece que os órgãos de comunicação querem filmar em directo a possível captura. Realmente isto é uma diversão para o pais ver como vai a liberdade de imprensa. Imagino o que devem fazer as autoridades para se verem livres de tanta melga pelas matas. Força autoridades o pais está com vocês, apanhem-no longe das comeras e jornais.
  • Manuel Oliveira
    24 out, 2016 Braga 15:55
    .... Somos o que somos...., mas muito por CULPA de "parasitas" (pessoas que ..., não têm FORMAÇÂO para a informação).
  • Justo
    24 out, 2016 Leiria 15:01
    Já dá para desconfiar desta demora em apanhar um homem! Onde param os companheiros do assalto? Nunca se falou se roubaram ou Não!" Quem chamou os GNR ao sitio do roubo? Quem assassinou, foi ele ou não? Para que servem os helicópteros e os cães, a tropa, GNR, PSP,PJ, etc? Não se compreende a demora de tanta gente para apanhar ou não um homem!