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Um encontro histórico “para que as pessoas saibam que a religião é importante"

09 mar, 2016 - 20:05 • Filipe d'Avillez , Teresa Abecasis (imagem)

Marcelo Rebelo de Sousa fez história ao visitar a Mesquita de Lisboa no dia da sua inauguração. Entre as 18 religiões presentes não houve dúvidas sobre a importância do evento, nem de que Portugal, neste campo, “é exemplar”.
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Encontro histórico na Mesquita de Lisboa marca início de mandato de Marcelo
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Tiago Calaím tem oito anos e esta quarta-feira esteve na Mesquita Central de Lisboa, integrado num grupo de crianças de diferentes confissões religiosas, para saudar o novo Presidente da República na sua chegada ao encontro inter-religioso que teve lugar no dia em que foi empossado.

Para o jovem evangélico tratou-se de um evento significativo “para as pessoas saberem que isto é muito importante”. "Isto", entenda-se, é a religião.

No mesmo grupo que Tiago estavam crianças budistas, hindus, muçulmanas e sikhs. A maioria destas palavras ele nem as conhece, mas quando lhe perguntamos que outras religiões estavam representadas fala nos “muçulmanos e nos indianos”.

É certo que os indianos não são uma religião em si, mas não deixa de ser verdade que muitas das comunidades presentes na mesquita esta tarde têm as suas raízes na Índia. É o caso dos hindus, evidentemente, mas também dos sikhs e até dos muçulmanos, uma vez que a espinha dorsal da comunidade islâmica de Lisboa é oriunda da Índia, por via de Moçambique.

Se na Índia os episódios de violência inter-religiosa são infelizmente comuns, em Portugal a realidade é outra. “Nós trabalhamos em conjunto, ajudamo-nos uns aos outros. Aqui não há tensões, temos um bom relacionamento entre todas as comunidades”, diz Kantilal Vallabhdas, da comunidade hindu do Templo de Shiva, em Santo António de Cavaleiros.

O sorridente Palwinder Singh está ao seu lado, acompanhado de outros dois membros da comunidade sikh, impressionantes com as suas barbas e turbantes coloridos. Singh diz, num português esforçado, que este foi um encontro “muito bom” e que um dia gostariam que o novo Presidente visitasse o seu templo.

Ao lado de Palwinder Singh, o sacerdote da comunidade, com uma barba que chega até ao meio do peito, mostra-nos orgulhosamente o seu kirpan, a adaga cerimonial que todos os homens sikh devem usar em todas as alturas. O kirpan simboliza a prontidão para lutar pelo bem e contra o mal, mas representa também uma dor de cabeça para os protocolos de segurança em eventos inter-religiosos com figuras mundiais. Quando Bento XVI visitou os Estados Unidos, os sikhs não puderam participar num encontro inter-religioso na Casa Branca porque se recusaram a entrar sem esta arma.

Com este evento na mesquita a questão nem se pôs e a segurança à volta do evento estava claramente relaxada. Sinal claro, também, de que as comunidades religiosas em Portugal não são vistas como ameaça. “Costumo dizer que temos a felicidade de termos aqui uma grande harmonia religiosa e essa harmonia deriva da conjugação de duas variáveis, por um lado uma sociedade portuguesa que recebe bem os imigrantes”, diz Khalid Jamal, um jovem que faz parte da direcção da Comunidade Islâmica de Lisboa.

Para este jovem muçulmano a decisão de Marcelo Rebelo de Sousa de visitar a mesquita, logo neste dia tão importante, “representa um sinal claro de que a nossa classe política e o senhor Presidente da República vai, neste mandato, dar importância ao fenómeno religioso. Sendo muçulmano, é particularmente importante no sentido de evitar a radicalização de que tanto se tem falado, sobretudo ao nível europeu”, diz ainda.

Cristãos de “todas as cores”

Entre as 18 religiões representadas no encontro na mesquita encontravam-se várias confissões cristãs diferentes. Evangélicos, metodistas, anglicanos, ortodoxos e católicos, entre outros.

Da parte dos metodistas, D. Sifredo Teixeira, que é também presidente do Conselho Português de Igrejas Cristãs, realça “o reconhecimento oficial da importância da contribuição de cada uma das realidades religiosas" presentes em Portugal e revela que foi uma “grande alegria de poder participar neste tempo histórico em que é reconhecida a diversidade e também a sua riqueza”.

Com esta presença estará Marcelo Rebelo de Sousa a indicar que vai ter uma presidência mais atenta ao fenómeno religioso? “Essa é a nossa esperança, porque a contribuição religiosa ajudará muito e deve ser muito valorizada para o bem do país”, diz o líder metodista.

Marcelo "será sempre um defensor da liberdade religiosa", disse o próprio. No seu discurso na mesquita, Marcelo afirmou que "Portugal foi grande" sempre que se abriu ao outro e a outras culturas, civilizações e religiões.

O sheikh David Munir, hoje a jogar em casa, faz um balanço muito positivo do evento. “Foi histórico, foi muito marcante e só demonstra que há pessoas que querem a paz, há pessoas que querem o diálogo e há pessoas que respeitam as outras confissões e as outras comunidades. No que diz respeito ao diálogo inter-religioso, Portugal foi sempre exemplar”, diz.

Ivone Felix, da comunidade baha'í, concorda. “É muito importante, porque isto é uma maneira de o senhor Presidente demonstrar que realmente está interessado em manter esta boa relação entre as religiões e as comunidades”.

Já à saída da mesquita um grupo de muçulmanas guineenses, vestidas com roupa e véus coloridos, não escondem a sua alegria por terem estado presentes, nem a sua admiração pelo Presidente. “É um Presidente social, comum, é por isso que estamos contentes. Por ele fazemos tudo, com chuva, frio ou de qualquer maneira.”

[Notícia corrigida no dia 11 de Março. Na versão original desta reportagem D. Sifredo era identificado como sendo presbiteriano, quando na verdade é metodista.]

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