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"Jihad" ou meros bandidos? Ataques alarmam Moçambique

07 fev, 2018 - 17:04 • Filipe d'Avillez

Uma série de ataques na zona de Cabo Delgado levanta a suspeita de que o terrorismo islâmico chegou à África lusófona. Especialistas admitem outras hipóteses. Portugal acompanha situação.
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Alegado vídeo de recrutamento de um grupo terrorista islâmico em Moçambique
Alegado vídeo de recrutamento de um grupo terrorista islâmico em Moçambique. O vídeo não inclui referências a nomes ou qualquer símbolo, mas a alegada identidade islâmica está patente na linguagem usada. As autoridades não confirmam a veracidade do vídeo.

No dia 5 de outubro de 2017, um grupo de homens armados atacou vários pontos de Mocímboa da Praia, conseguindo dominar metade da cidade. Morreram dois polícias e quatro atacantes. Alguns dias depois, as autoridades recuperaram o controlo de todo o local.

Mas este foi só a primeira investida do que alguns consideram ser uma “jihad” em Moçambique. Desde então houve emboscadas e ataques a aldeias. Milhares de pessoas refugiaram-se em Cabo Delgado e haverá algumas dezenas de mortos, embora o número real possa ser substancialmente mais alto.

Quem são os responsáveis por estes ataques? Eis o mistério. Os relatos das testemunhas apontam para grupos islâmicos, dando como provas a indumentária, os tradicionais gritos de “Allahu Akbar” por parte dos terroristas e mesmo a identidade dos mortos e capturados.

Para os conhecedores do islão em Moçambique a existência de radicais é alvo de preocupação, mas não constitui grande surpresa. “De facto, tem-se assistido a uma série de grupos mais pequenos, ou casos isolados, de fenómenos de alguma radicalização. É preciso reconhecer isso, as próprias autoridades islâmicas em Moçambique já o reconheceram”, diz Khalid Jamal, dirigente da Comunidade Islâmica de Lisboa, mas cujas raízes, como de tantos muçulmanos portugueses, estão precisamente em Moçambique, onde mantém contactos.

Um documento de 2016 comprova que as autoridades islâmicas locais estavam já preocupadas com a existência de uma seita, a que denominaram al-Shabaab, a agir na zona. Os jovens ligados a esta seita estariam a desencorajar a ida a instituições de ensino formal, a desconsiderar “os princípios islâmicos”, a permitir o casamento de jovens raparigas sem o consentimento dos pais e a incitar a violência. As autoridades foram avisadas, dizem, mas não agiram.

Mas será provável que o grupo a atuar em Cabo Delgado esteja verdadeiramente ligado ao al-Shabaab, um movimento terrorista ligado sobretudo à Somália? “Há sempre esta dúvida sobre até onde o al-Shabaab conseguiu descer na costa oriental africana e há seríssimas dúvidas sobre se terão passado do Quénia. Agora, Mocímboa da Praia fica precisamente na rota de migração geralmente ilegal, que tem origem na Somália e que tem como destino a África do Sul”, explica Raúl Braga Pires, politólogo e arabista que viveu alguns anos em Moçambique e tem escrito sobre este assunto no seu site.

Para este especialista, o facto de a população apelidar o grupo radical de al-Shabaab, ou al-Shabaabi, não significa que exista uma ligação formal, mas não descarta a possibilidade de essa ser a vontade dos jovens moçambicanos. “Há um grupo de indivíduos que não tem nenhum contacto com o al-Shabaab, mas quer pertencer, por isso tem de ter visibilidade e tem de fazer alguma ação espetacular para dizer ‘nós ainda não somos do al-Shabaab, mas estamos à espera do vosso telefonema’”, considera.

Khalid Jamal, que esteve em contacto com dirigentes da comunidade muçulmana em Maputo e Cabo Delgado, também acredita que a influência terá vindo da Somália e vê isto como uma consequência infeliz, mas expectável, da onda de refugiados somalis que têm chegado a Moçambique nos últimos anos.

“Assistimos a uma imigração da Somália para Moçambique e, portanto, é inevitável que possa haver aqui alguns constrangimentos fruto dessa imigração. Existem regras que impossibilitam que os somalis possam ser expulsos e Moçambique e todos os países vizinhos têm feito um esforço grande para não ostracizar e não vitimizar os somalis. Portanto, todos os que emigram para Moçambique naturalmente têm ali um porto de abrigo”, afirma o dirigente da Comunidade Islâmica de Lisboa.

Para além da ligação somali, fala-se também da influência de um cidadão de origem gambiana, que estará desaparecido desde o primeiro ataque, em outubro.

Igreja preocupada

Embora não existam ainda números oficiais, estima-se que haja em Moçambique mais ou menos o mesmo número de cristãos e de muçulmanos, sendo que metade da população ainda pratica religiões tradicionais.

Grande parte dos muçulmanos são de origem indiana, mas há tribos autóctones que também abraçaram o islão. No geral, porém, o país caracteriza-se por uma exemplar harmonia inter-religiosa.

“Não temos nenhum problema de relacionamento com os muçulmanos em Moçambique”, explica D. Fernando Luiz Lisboa, o bispo de Pemba, a diocese que engloba Cabo Delgado.

De origem brasileira, D. Fernando está em Moçambique há cerca de 17 anos. Diz que até ao momento não houve qualquer ato de hostilidade por parte deste grupo terrorista para com cristãos ou igrejas. “Graças a Deus não. Justamente porque temos um ótimo relacionamento. Quando começaram a acontecer estes factos em Mocímboa fizemos uma carta assinada por mim e pelo líder das Igrejas Cristãs do Conselho Cristão de Moçambique, solidarizando-nos com os muçulmanos e com as vítimas em tudo o que aconteceu.”

Raúl Braga Pires também sublinha a excelente relação entre as religiões e diz até que isso se deve a Portugal. “Há uma rejeição natural das populações relativamente a estas clivagens e isso é o bem mais precioso da colonização portuguesa. Aqui que não haja dúvidas absolutamente nenhumas, que esta harmonia é fruto da nossa maneira de estar no mundo e do que lá deixámos e é talvez o bem mais precioso que lá deixámos.”

Sem reivindicações

A ausência de ataques a cristãos é apenas um dado que parece enfraquecer a tese de se tratar de um grupo terrorista islâmico. O Governo tem insistido em não usar esse termo, embora tenha demolido algumas mesquitas e encerrado outras no seguimento dos primeiros ataques.

Outro dado curioso é a ausência de qualquer nome ou símbolo relativo aos atacantes, sendo que nos casos de terrorismo islâmico estes tendem a divulgar ao máximo os seus atos e a deixar bem claras as suas motivações. Embora haja relatos de nalgumas aldeias os atacantes terem hasteado bandeiras, não existem filmagens nem reivindicações oficiais e o único vídeo alegadamente divulgado pelo grupo não inclui referências a nomes ou qualquer símbolo, apesar de a identidade islâmica estar alegadamente patente na linguagem usada. As autoridades não confirmam a veracidade do vídeo.

Jihadismo ou cortina de fumo?

Mas se não se trata de puro terrorismo islâmico, que mais pode estar por detrás desta instabilidade? Todos os entrevistados pela Renascença apontam para o facto de em Cabo Delgado terem sido descobertos recursos naturais no valor de largos milhares de milhões de euros e de facto alguns dos vários ataques ocorreram precisamente no local onde se está a começar a explorar petróleo.

“Eu estava em Moçambique praticamente durante todo o segundo mandato de [Armando] Gebusa [ex-Presidente]. Nessa altura, o Gebusa jogou muito com o fantasma da presença da al-Qaeda em Moçambique. Talvez agora estejamos a ver [o atual Presidente] Filipe Nyusi a jogar com o fantasma da presença do al-Shabaab, tendo uma razão perfeita para militarizar toda a província petroleira”, diz Raúl Braga Pires.

“Há aqui fatores que colocam bastantes dúvidas sobre se há de facto um jihadismo de cariz islâmico e militante no Norte de Moçambique, ou se é uma excelente cortina de fumo para descentralizar militarmente, como também tornar obrigatório que as empresas que pretendem implantar-se naquela região, para explorar petróleo, tenham de contratar segurança para as instalações e para o seu pessoal. Neste momento, os grandes tubarões das empresas de segurança estão com um olho no norte de Moçambique”, explica.

Existe também a possibilidade de se tratar de uma mistura destes dois fatores, de haver um aproveitamento ou até incentivo de radicalização já existente por parte de entidades interessadas em desestabilizar a região para ganho próprio, tudo potenciado pelo ressentimento de uma população que assiste à exploração de recursos naturais de grande valor sem que os lucros sejam reinvestidos no território.

Governos acompanham

O Governo moçambicano insiste que os ataques foram levados a cabo por bandidos e que é demasiado cedo para atribuir culpas ao jihadismo. A polícia está a investigar e promete-se um relatório para breve.

O bispo de Pemba acredita que esse relatório possa esclarecer a população. “O Governo tem de dar uma resposta não só a Moçambique, mas para o mundo, porque isto foi divulgado em toda a parte. É do interesse, em primeiro lugar, do Governo, ter uma resposta cabal. Não acredito que o Governo vá trabalhar com dados errados ou dar uma informação errada, porque hoje em dia a sociedade não aceita qualquer resposta irresponsável”, diz D. Luiz Fernando, o bispo de Pemba.

A Renascença interrogou também o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal. Sem detalhes, Augusto Santos Silva garantiu que o país acompanha a situação, com “respeito integral pela soberania de Moçambique”.

“Chamo também a atenção para que dentro do programa de cooperação bilateral entre Portugal e Moçambique a área da segurança é uma das áreas em que os dois cooperam e continuarão a cooperar, com a discrição que a cooperação na área da segurança exige”, disse o ministro português.

A Renascença tentou ainda contactar o Governador de Cabo Delgado, José Júlio Parruque, mas até à hora de publicação desta notícia não foi possível obter qualquer resposta.

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