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Entrevista

​Fernanda Torres. O Brasil é um "trem desgovernado"

05 fev, 2018 - 15:52 • Maria João Costa

A atriz brasileira assina o seu segundo romance, "A Glória e o seu Cortejo de Horrores". "Sempre fiz teatro, cinema e televisão, um pouco aliviando a repetição, e agora a literatura entrou nessa roda", diz em entrevista à Renascença.
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“A Glória e o seu Cortejo de Horrores” é o segundo romance da atriz e escritora Fernanda Torres e conta a história de Mário Cardoso, um ator de meia-idade caído em desgraça. O título do livro é inspirado numa frase que a sua mãe, a atriz brasileira Fernanda Montenegro, “sempre” lhe disse. A obra, agora editada pela Companhia das Letras reflete sobre o Brasil de ontem e o de hoje

"A Glória e o seu Cortejo de Horrores" tem como personagem principal um ator. Usou como ingredientes para a escrita do seu segundo romance um universo que conhece por dentro.

Acho que este livro partiu de uma reflexão minha sobre a potência que a arte, o teatro e o cinema tinham no final do século XX e o poder de influência da arte nos dias de hoje, que acho que diminuiu. Achei que poderia contar esta história através de um ator. É claro que tem a minha experiência ou uma experiência estendida pela minha memória que guardo de atores que conviveram com os meus pais, os meus próprios pais e atores com que convivi. É a minha experiência, mas é também a experiência da arte no Brasil e no mundo nas últimas quatro décadas.

No livro há também a inspiração da sua experiência na representação da peça “Rei Lear”, de William Shakespeare. Tal como com a personagem Mário Cardoso, a sua representação também não correu bem.

Tinha 18 anos e fiz a Cordélia. Foi um “Rei Lear” que não deu certo! Os fracassos são tão curiosos, talvez até mais para a literatura do que os grandes êxitos. Era um “Rei Lear” péssimo! Eu fui acometida de acessos de riso. Passei um mês a ter risos incontroláveis em cena. Foi aí que surgiu a ideia do primeiro capítulo. É a história de um ator que faz esse terrível “Rei Lear”. Ele é também o produtor do espetáculo e é obrigado a tirá-lo de cena porque ri em cena e aquilo leva-o à ruína.

Ser artista é uma condição que se cola à pele. Envelhecer artista é um desafio?

Acho que o envelhecimento do artista é bem-vindo. Você ganha uma certa maturidade. Quando se é novo é-se muito ansioso. Um ator é feito dos papéis que enfrenta. Por um lado, na juventude, você tem a garra e qualquer papel é um papel, tem mais chances de trabalho porque se é menos exigente, mas com a idade você torna-se mais exigente e maduro. Não tenho o sentimento de que as minhas oportunidades diminuíram por causa da minha idade, pelo contrário. Acho que aprendi com a vida a perder a ansiedade e a ser mais madura nos meus trabalhos.

E o Mário Cardoso, a sua personagem, também soube envelhecer?

Esse Mário tem uma altura em que ele se torna um ator cínico. Encontra um grande êxito na televisão e acomoda-se. Isso é terrível para ele porque quando acorda, tenta reinventar-se no teatro e o mundo mudou, é tarde demais. Ele paga severamente esse cinismo e por ter tratado, como diz no livro, a sua profissão como um emprego.

O título, "A Glória e o seu Cortejo de Horrores", é inspirado numa frase da sua mãe, a atriz Fernanda Montenegro.

A minha mãe sempre falou essa frase e eu sempre a achei curiosa. Os meus momentos de maior sucesso eram sempre acompanhados de uma ansiedade terrível em que parecia que era impossível viver aquilo como felicidade. Havia um enorme tormento no grande êxito, parecido com o tormento do fracasso. Um tem uma alegria e um sentimento de não caber em si e o fracasso tem uma melancolia terrível. Eu sempre gostei desta frase da minha mãe: "A Glória e o seu Cortejo de Horrores"!

Neste livro está também um retrato de um certo Brasil. A arte de hoje no Brasil, a forma como os artistas são olhados no contexto atual, também contaminou a sua escrita?

Sem dúvida. É sobre o Brasil e sobre o mundo que mudou. Tem uma hora em que o Mário Cardoso só encontra emprego numa novela bíblica que é um fenómeno que acontece atualmente no Brasil. Ele fala isso, que o canal evangélico é o único que sobrevive às redes sociais porque oferece um mundo ordenado. Toda a outra cadeia de produção de que ele faz parte está ruindo para dar lugar a "bloggueros". Eu acho que essa massificação da arte e o atropelo à maneira de produzir arte foi produzido pela tecnologia. A música foi a primeira a sentir isso, depois foram a literatura e o teatro a sofrerem com isso. Também é uma visão do Brasil nas últimas quatro décadas.

Em que medida há esse retrato do Brasil?

Ele começa por fazer teatro político, de resistência à ditadura na universidade; depois conhece o “desbunde” da revolução de costumes; faz um cinema herdeiro do cinema novo. O livro vai atravessando todas as fases da cultura brasileira.

E para onde vai este Brasil de hoje?

O Brasil anda um trem desgovernado. É um ano de grande incógnita. É um país que sempre viveu em convulsão, seja económica ou política. Há um traço trágico no Brasil. Durante 20 anos conhecemos uma certa estabilidade democrática e económica. Foi um prazer enorme viver isso, mas ao mesmo tempo eu via com grande desconfiança. Achava que aquilo não era normal. Então agora que voltamos à convulsão política, eu acho que o normal, no Brasil, é isso. Sobreviveremos, mas é um ano muito duro.

Quando está a escrever sente saudades de representar? Ou hoje é mais escritora que atriz?

Um ofício salva você do outro. Existe uma enorme solidão no ato de escrever, que considero uma bênção. Tenho um enorme prazer no silêncio, na solidão e na imaginação da escrita. Por outro lado, quando escrevo muito tempo termino com uma enorme saudade da relação coletiva. Sentia falta da convivência com os outros atores, produtores, diretores e equipa. Esse ano, acho que vou trabalhar muito como atriz. Volto para ao Brasil para fazer uma série, tenho dois filmes encaminhados.

Eu sempre fiz teatro, cinema e televisão, um pouco aliviando a repetição, e agora a literatura entrou nessa roda. Todo o processo da imaginação à literatura. Às vezes, acho que a literatura é tudo o que um ator imagina entre falas. Um ator não é apenas aquilo que ele diz, é o que ele imagina quando diz que dá a "nuance" à fala. Por isso, acho que o subtexto é algo próximo da literatura.

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