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Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu, nem fariseu

Aborto como eugenia

02 dez, 2016 • Opinião de Henrique Raposo


Num Ocidente que muda o trajecto de uma estrada só para não ferir o habitat de um rato, num Ocidente obcecado com focas bebé, num Ocidente que endeusa as baleias do Árctico islandês, como é que se desvaloriza assim a vida de seres humanos?

Chamemos-lhe Joana. Tem uma filha com trissomia 21. Quando lhe dizem que demonstrou coragem ou grandeza, Joana abana a cabeça. Nunca lhe passou pela cabeça matar na própria barriga um bebé só porque ele era imperfeito na genética. Desde quando é que os seres imperfeitos não têm direito à vida? Desde quando é que aqueles que beliscam a estética não têm direito à existência? E como é que a genética pode ser o centro da nossa moral colectiva? Não é a Joana que é grande ou corajosa, a sociedade é que entrou numa caverna. Caverna, essa, que muda o nome às coisas. “Aborto” é “IVG”. “Eutanásia” é “direito à morte”. “Bebé” na barriga é “feto” ou “amontoado de células”, termos burocráticos que procuram anular a carga odiosa do aborto. E, claro, “eugenia” já não é “eugenia”. Convém sublinhar a palavra (“eugenia”), porque as nossas sociedades fazem eugenia em massa. 90% das inglesas que detectam um bebé com síndrome de Down fazem aborto. Na fofinha Islândia não há pessoas com trissomia. Há uma taxa de 100% de aborto nestes casos, e esta devastação é apresentada como um grande avanço médico. É como se estivéssemos a falar de uma campanha contra a tuberculose ou sida. É como se o bebé da Joana fosse em si mesmo uma doença erradicável. Isto não é “progresso”, é uma barbárie medicamente assistida.

Esta agenda eugenística é tão bárbara que chega a ser cómica. Ainda há dias a lei francesa proibiu a divulgação pública de um vídeo de uma associação de pais como Joana. O vídeo mostra a alegria de crianças com trissomia 21. O vídeo foi proibido. Alegou-se que podia ferir a susceptibilidade das mulheres que abortaram. Confesso que isto me dá vontade de rir. Dante Alighieri ensinou-nos que o grotesco tem sempre um lado cómico. Esta proibição é tão grotesca, tão absurda, que até parece piada. A piadinha porém é agora a realidade. É uma piada que não ataca apenas o direito à vida, ataca o próprio direito à liberdade de expressão de pessoas como a Joana. Mas repare-se que a proibição revela acima de tudo a má consciência dos defensores do aborto, dos defensores de campanhas médicas contra crianças deficientes, das próprias mulheres que abortam. Revela embaraço, culpa e remorsos. Serão estes remorsos que acabarão por destruir o edifício intelectual e moral deste cultura eugenística.

E essa destruição está para breve. Chegámos ao fim da linha. Este quadro grotesco é indefensável. Como é que chegámos ao ponto em que se consideram “estúpidas” as pessoas como Joana? Como é que chegámos ao ponto em que uma mensagem comovente de crianças com trissomia é vista como “ofensiva”? Num Ocidente que muda o trajecto de uma estrada só para não ferir o habitat de um rato, num Ocidente obcecado com focas bebé, num Ocidente que endeusa as baleias do Árctico islandês, como é que se desvaloriza assim a vida de seres humanos? Daqui a vinte e cinco anos, teremos sérias dificuldades para explicar aos nossos netos esta comédia grotesca.

Comentários
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  • João Lopes
    08 dez, 2016 Viseu 19:25
    Excelente artigo de Henrique Raposo. A sociedade mundial tem vindo a degradar-se, enveredando por um estilo de vida desumano, por um regresso às trevas, onde se busca o prazer a todo o custo. Defende-se e legaliza-se o aborto, a eutanásia e o infanticídio. Tudo é relativo, não há princípios que estruturem uma sociedade estável, alegre e humana. A vida humana vai-se tornando insuportável e insegura. Os mais fortes e os mais violentos dominam tudo! É preciso resistir!
  • Carla Rocha
    08 dez, 2016 Mirandela 13:47
    Não existe interrupção voluntária da gravidez, são meros eufemismos. Existe aborto. Interrupção é algo que se interrompe, ou suspende para mais tarde ser prosseguido, continuado. Existe interrupção do fornecimento da eletricidade ou da água, porque mais tarde vai ser retomado esse fornecimento. Uma vida abortada, não pode ser continuada mais tarde, termina naquele momento.
  • Carlos Martins
    08 dez, 2016 Vila Real 13:27
    Morte à morte. Viva a vida.
  • Filipe Castro
    06 dez, 2016 College Station, Texas 14:50
    Este texto é horrível e odioso. Eu sou ateu mas como antropólogo interessa-me este fenómeno do ódio religioso. Sobretudo porque a mensagem da Bíblia é clara e prescreve aos cristãos empatia, aceitação, compreensão, perdão. E esta gente quer reprimir a sexualidade das mulheres, puni-las, julgá-las, condená-las, prendê-las...
  • Ângela Veloso
    04 dez, 2016 Porto 22:14
    Mau texto. A agressividade das palavras de HR são um incentivo à violência e não à resolução deste problema.
  • ALETO
    04 dez, 2016 Vila Franca de Xira 12:35
    Julgo que o texto de HR é mais um exemplo de fanatismo numa sociedade ja muito em queda. Ha muita agressividade nas palavras de HR e estas não sao boas para resolver o caso do aborto.
  • Luis
    04 dez, 2016 Porto 00:23
    Excelente texto que denuncia a forma como a nossa sociedade admite que se matem bebés (dando mais protecção a um animal do que quer um bebé)
  • MASQUEGRACINHA
    03 dez, 2016 TERRADOMEIO 19:32
    A proibição francesa, a todos os títulos absurda, revela sobretudo má consciência? Talvez. Mas, atendendo aos custos acrescidos que a pessoa deficiente tem para o Estado, revelará também o interesse em desincentivar a prática de procriar cidadãos cujo balanço custo-benefício não é vantajoso - e, como bem sabemos, esse balanço é o que realmente-realmente-realmente é importante nos tempos que correm. Ou seja: o caso concreto que tanto indigna o articulista é apenas um entre tantos na profunda desmoralização e desumanização já quase normalizada nas sociedades modernas. Basta ver o que se passa em Alepo, todos aqueles terroristas de chucha à espera da bomba que por fim os "aborte", e nós assistindo, sem poder fazer nada. O Sr. H. Raposo deixe lá a bicharada, tem tantos bons (maus) exemplos entre os homens à espera de serem usados... Por outro lado: se daqui a 25 anos, como é expectável, for possível evitar a trissomia 21 ante-concepção, acha que alguém em seu perfeito juízo não o fará? A menos, claro, que defenda alguma espécie de funcionalismo da deficiência, tipo "a trissomia 21 existe para que existam as admiráveis Joanas" - o que me cheira a fundamentalismo... ou narcisismo patológico. É apanágio do Homem defender, amar, os mais fracos e inaptos, em aparente contra-senso evolutivo. Mas também o é curar - Jesus curou muitos doentes, não disse "Tem paciência, contigo os saudáveis aprenderão a amar". Tudo tem o seu tempo, e os nossos netos terão outras preocupações.
  • RG
    03 dez, 2016 Setubal 19:13
    Publicaram este texto? A RR não tem critérios ou discrimina!!!!! João Galhardo 03 dez, 2016 Lisboa 09:42 Julgo que estamos perante de mais um comentador oportunista, onde os actos são diferentes das palavras. Henrique Raposo serve-se de um tema sério e profundo, para tentar se projectar. Escreve sobre os seres humanos, como se fosse um catedrático na matéria. Defende o direito à vida, como outrora defenderam os padres fanáticos que entregaram muitos à fogueira da inquisição.
  • Marco Visan
    03 dez, 2016 Porto 15:25
    Nota-se um certo fervor excessivo e persistente por parte de Henrique Raposo neste tema. Creio que o próprio cultiva a dicotomia bem/mal, onde o mal reside naquilo e naqueles que contrariam seu modo de pensar.