Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​Instabilidade política em Espanha

10 ago, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Mais tarde ou mais cedo, haverá eleições antecipadas em Espanha. Um governo estável implicará formar coligações. Ora o PP atravessa uma inesperada complicação.

Como em Espanha, ao contrário de Portugal, existe a chamada moção de censura construtiva, quando o líder do PSOE (socialista), Pedro Sanchez, conseguiu uma maioria parlamentar para fazer passar uma moção de censura ao governo de M. Rajoy, tornou-se automaticamente presidente do governo espanhol (primeiro-ministro). Mas o PSOE não dispõe de qualquer maioria para governar. Por isso, mais tarde ou mais cedo, haverá eleições antecipadas em Espanha.

Entretanto, P. Sanchez adotou uma atitude mais dialogante com os dirigentes independentistas catalães. E recorre menos à justiça do que recorreu Rajoy. É positivo, mas está longe de ser suficiente para resolver o complexo problema da Catalunha.

Sanchez, e o seu partido, o PSOE, não aceitam uma Catalunha independente. E fazem bem, até porque a maioria da população catalã não é isso que quer. Em parte, é certo, porque uma parcela importante dessa população não é catalã de origem – trata-se de pessoas que vieram trabalhar para a Catalunha, uma região rica, vindas de outras regiões espanholas, menos desenvolvidas. É o caso, por exemplo, de Inês Arrimadas, líder do partido Ciudadanos na Catalunha (onde é o partido mais votado), que veio da Andaluzia.

Do lado dos líderes catalães que provocaram o confronto aberto com Madrid prevalece a intransigência: só a independência e um regime republicano lhes serve. Quanto aos autonomistas moderados, que poderiam contentar-se com novas regras – e mais dinheiro – para a autonomia catalã, eles têm um curto espaço de manobra na sua própria região, uma vez que o conflito está estremado. Além disso, as outras regiões autónomas espanholas não aceitam que a Catalunha receba mais dinheiro, a não ser no quadro de uma revisão geral do regime autonómico, em cuja negociação todas participem.

Um outro fator de incerteza política em Espanha envolve o PP, Partido Popular. Mariano Rajoy demitiu-se de presidente do partido, como é natural. Seguiu-se uma campanha eleitoral pouco amigável, da qual saiu eleito o novo líder: Pablo Casado, antigo chefe de gabinete de José Maria Aznar, antigo primeiro-ministro cujas relações com Rajoy nunca foram boas.

Inesperadamente, P. Casado viu-se envolvido num estranho caso. Do seu currículo oficial consta que obteve um mestrado na Universidade Complutense de Madrid. Mas suscitaram-se muitas dúvidas sobre a forma como foi obtido esse mestrado. Não parece que exista o propósito de enganar da parte de P. Casado; em causa estarão sobretudo os procedimentos e regras daquela universidade privada. O caso já está a ser analisado pelo Supremo Tribunal espanhol – e poderá conduzir a um julgamento. Ora esta situação tem como resultado o novo líder do PP ficar meses e meses numa posição enfraquecida. Ora a Espanha precisa de governos estáveis, que só coligações permitirão formar; com o PP coxo, será mais difícil.


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