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Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Regresso à ortodoxia financeira

13 jan, 2018 • Fracisco Sarsfield Cabral • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O ciclo dos juros muito baixos está a acabar. O que exigirá grande cuidado com a dívida pública portuguesa.

Há dez anos, quando começou a grande crise financeira que conduziu a uma séria recessão económica global, governos e bancos centrais conseguiram evitar uma depressão (uma crise mais grave do que a recessão), como a que se viveu nos anos 30 do século passado e só terminou com a II Guerra Mundial. Os bancos centrais, a começar pela Reserva Federal americana, lançaram mão de medidas monetárias expansionistas, comprando grandes quantidades de obrigações no mercado e baixando as taxas de juro para zero ou quase.

Ora a tradição das décadas anteriores tinha sido dominada pelo combate à inflação, subindo os juros. A Reserva Federal, liderada então por Paul Volcker, subiu violentamente nos anos 80 as suas taxas de juro directoras, desagradando ao presidente Reagan e à maioria dos agentes económicos, pois provocou uma recessão – mas dominou o “monstro” da alta continuada dos preços.

Na Europa, o banco central alemão (Bundesbank) defendia com unhas e dentes o valor do marco – ou seja, travava qualquer potencial surto de inflação com subidas dos juros. A sociedade alemã nunca esqueceu a híper inflação de 1923, quando um almoço custava mais dinheiro no fim do que no princípio e era preciso levar uma mala de notas para comprar um maço de cigarros. Sem dinheiro para pagar as elevadas indemnizações exigidas pelos vencedores da I Guerra Mundial, o banco central alemão imprimia notas a grande velocidade para pagar salários. Esta híper inflação reduziu a pó todas as poupanças, criando um ambiente de pânico que contribuiu para a ascensão de Hitler ao poder. Daí a popularidade da política restritiva do Bundesbank.

Outros bancos centrais recorriam a políticas monetárias restritivas para combater a inflação. Recorde-se que nos anos seguintes ao 25 de Abril de 1974 tivemos taxa anuais de inflação à volta de 30%, a que respondiam juros dessa ordem de grandeza. Mas, tirando casos agudos como essa inflação portuguesa ou a alta de preços americana já referida, a verdade é que, de um modo geral, as taxas de juro na Europa, nos EUA e no Japão eram relativamente moderadas – sobretudo se tomarmos em conta os preços reais, descontando a desvalorização das moedas por causa da inflação.

Afastado o receio de deflação

Se dominar a inflação foi o grande combate dos bancos centrais até há dez anos, mais recentemente o problema foi o inverso: a deflação, isto é, uma descida prolongada dos preços. O Japão foi mesmo vítima de deflação durante vários anos. E a ameaça deflacionista pairou nos EUA e na Europa. Porquê ameaça? Porque, com os preços a descer, os compradores adiam aquisições, para comprarem mais barato. A tendência espalha-se e a economia paralisa. E se a alta dos preços beneficia os devedores, a descida é vantajosa para os credores. Embora os níveis da inflação ainda se mantenham baixos, a ameaça de deflação praticamente desapareceu.

É mais um motivo para o regresso à tradicional ortodoxia monetária. Muita gente, sobretudo na Alemanha, discordou das políticas “não ortodoxas” de expansão monetária pelos bancos centrais, receando estarem elas a alimentar uma vaga inflacionista a médio prazo. Agora os críticos estarão menos nervosos.

De facto, parece que estamos, gradualmente, a regressar à ortodoxia financeira em matéria de juros e de expansão monetária. A Reserva Federal já no ano passado começou a subir a sua taxa de juro de referência. No corrente ano deverá fazê-lo pelo menos três vezes. E o BCE, que havia anunciado baixar para metade a compra de títulos da dívida pública de países do euro, entre o princípio desde ano e Setembro próximo, deu sinais de que iria retirar mais rapidamente do que se previa os estímulos monetários. A economia da zona euro está a crescer a bom ritmo.

Juros no mercado

Mas os mercados também têm uma palavra a dizer quanto aos juros. Nos últimos dias os juros pagos pela dívida pública dos EUA subiram significativamente. A China – grande compradora de dívida americana – terá encarado novas compras como pouco atractivas, levando a subir os respectivos juros para as tornarem mais atraentes. O banco central do Japão, por seu turno, diminuiu a compra de títulos da dívida pública japonesa.

Portugal poderá ter que pagar mais em futuras emissões da sua dívida pública. Mas, espera-se, não muito mais. Apesar de o BCE estar a comprar menos dívida pública portuguesa, os juros desta encontram-se – para já, pelo menos – a níveis francamente baixos. Na quarta-feira passada o IGCP (a agência que gere a dívida pública portuguesa) emitiu 4,4 mil milhões de euros de dívida a dez anos e dez meses (atinge a maturidade em Outubro de 2028). Houve forte procura e o juro foi de quase metade do que o IGCP tinha pago numa emissão semelhante há um ano. No mercado secundário a dívida pública portuguesa a dez anos transaciona a menos de 2%, abaixo da Itália. Também a REN foi na quinta-feira ao mercado emitir 300 milhões de euros de dívida a dez anos. A procura foi mais de seis vezes superior à oferta e o juro pago pela empresa rondou 1,7%.

Esta “bonança” dos juros não deve, porém, ocultar que temos uma enorme dívida pública. E que, daqui para a frente, os juros só poderão subir, pois desceram para níveis historicamente nunca vistos. Todo o cuidado é pouco.

Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus

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