A vida de Delfim dava um filme... com final feliz

09 jul, 2015

O antigo médio viu a sua "progressão brutalmente ceifada" por uma grave lesão na coluna, quando jogava no Marselha. Uma longa recuperação de dois anos e meio não o impediu de regressar à competição. Carreira marcada por esse episódio, mas recheada por outros momentos que Delfim prefere valorizar.
A vida de Delfim dava um filme... com final feliz

Teria sido mais fácil desistir. Os prognósticos eram aterradores: não havia solução. Depois de uma longa viagem de autocarro, entre Lyon e Marselha, em 2002, a vida de Delfim mudou. Começaram as dores e o futebol ficou em modo de pausa, durante dois anos e meio, para o médio internacional português, reconhecido pelo seu pontapé canhão.

Operado a alegadas hérnias inguinais, Delfim, na altura com 25 anos, viveu um calvário de intervenções cirúrgicas, sem qualquer melhoria. O problema, mais do que afectar a sua vida profissional, limitou-o no seu quotidiano. "Vi-me privado das minhas capacidades físicas e a minha margem de progressão foi brutalmente ceifada", recorda o ex-jogador, em entrevista a Bola Branca.

Após meses de indefinição e dúvida foi-lhe diagnosticado o verdadeiro problema. Um grave lesão na coluna que trazia as tais perspectivas negras relativamente ao futuro. Descontente com o tratamento em Marselha, sem confiança no departamento médico do clube, decidido a não abreviar a carreira, optou por ser tratado em Portugal, por António Gaspar, fisioterapeuta da selecção nacional.

O longo processo de recuperação terminou em 2005, altura em que Delfim voltou aos relvados para jogar no Moreirense, ainda por empréstimo do Marselha. A história, no entanto, não começa, nem acaba, aqui.

Carreira limitada, mas preenchida
Natural de Amarante, foi no Boavista que Delfim começou a dar nas vistas. O seu pontapé canhão era marca registada e não passou despercebido ao Sporting que o contratou em 1998, quando tinha 21 anos.

Em Alvalade viveu o momento mais alto da sua carreira, ao conquistar o título de campeão nacional em 2000, colocando um ponto final a 18 anos de jejum do leão. "Esse ano foi o mais importante da minha carreira. Nunca tive amor clubístico, mas a partir do momento em que representei o Sporting durante três anos, ao mais alto nível, a partir do momento em que me receberam de braços abertos e a massa associativa revia-se no meu trabalho, fiquei com um carinho muito especial pelo Sporting", confessa.

O momento era de Delfim e as perspectivas de uma grande carreira eram cada vez mais uma certeza. António Oliveira estreou-o na selecção portuguesa e o Marselha surgiu como mais um degrau. Estava a consolidar posição no futebol francês quando o seu percurso é interrompido pelo fatídico momento da lesão.

Fica para sempre a ideia de um horizonte que poderia ter tocado, mas também o vinco de uma série de objectivos atingidos. "Não vejo a perda do que, eventualmente, poderia ter ganho, mas sempre vi a minha vida com optimismo, alegria e grato por ter abraçado esta bonita profissão", sublinha, olhando para um currículo com passagens por clubes grandes, pela selecção nacional, com um título de campeão, uma Supertaça e uma Intertoto.

Regresso à competição
Depois dos dois anos e meio de paragem, Delfim voltou à actividade em Portugal, no Moreirense, ainda por empréstimo do Marselha. Curiosamente, regressou a França na época seguinte (2005/06) e teve minutos de jogo. 

Deixou o Marselha em Junho de 2006, "grato pela experiência internacional, por ter conhecido uma nova cultura e aprendido um novo idioma". No entanto, não esquecee o sofrimento e o prejuízo desportivo que acumulou. Nos tribunais franceses prossegue um processo contra o clube. Com a mesma perseverança que lhe permitiu recuperar da lesão, Delfim sublinha que defenderá os seus interesses até ao fim.

Depois de passagens por Young Boys (Suíça) e Naval 1º de Maio, o médio rumou ao Trofense (2008/09). Pendurou as botas aos 32 anos, na I Liga, com a noção de que "soube compreender o fim da carreira". "Fui eu que estipulei o fim da minha carreira e só tenho que estar grato pela vida que tenho e pelas opções que tomei", acrescenta.

A vida depois do futebol
Afastado da competição há seis anos, Delfim optou, também, por se distanciar do futebol. Vive "100% para a família, para os três magníficos filhos" e com a perspectiva de num "futuro próximo regressar ao futebol", em funções de gestão e não no trabalho diário com os jogadores.

Aos 38 anos, gere o património que adquiriu ao logo da careira e está obrigado a manter a forma física para manter a tonicidade muscular. Uma exigência do seu dia-a-dia decorrente das limitações a que ficou sujeito, após os vários problemas clínicos que condicionaram a sua carreira e com os quais ainda tem que lidar.

Delfim sofreu outras lesões graves durante a carreira, além da situação mais mediática no Marselha, nomeadamente, no joelho direito, quando ainda jogava no Sporting. Longe da forma de outros tempos, dedica-se recreativamente ao futsal para manter contacto com o ambiente de balneário.

"Nada arrependido pelo percurso. Difícil, penoso, pelo historial clínico, mas fez de mim o profissional que as pessoas conheceram e o homem que sou", rematou de forma enfática, como fazia nos relvados.