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Do amor de uma vida à agressão. O que se sabe do processo Johnny Depp vs. Amber Heard

05 mai, 2022 - 19:24 • Diogo Camilo

Ator acusa a ex-mulher de difamação por esta se afirmar como uma vítima de violência doméstica. A queixa em tribunal veio revelar pormenores de uma relação tóxica, que inclui abusos, procura por drogas em partes íntimas e um dedo decepado.

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Durante o último mês, o tribunal do condado norte-americano de Fairfax, na Virgínia, tem sido pequeno para o processo que envolve Johnny Depp e Amber Heard, no qual o ator acusa a ex-mulher de difamação por esta ter afirmado, num artigo de opinião publicado num jornal, que foi vítima de violência doméstica.

Os dois conheceram-se na rodagem do filme “O Diário a Rum”, em 2009, e, na altura, ambos encontravam-se em relações. Johnny Depp, mais de 20 anos mais velho do que Heard, já tinha sido nomeado por três vezes nos Óscares e acabara de interpretar alguns dos seus mais conhecidos papéis, como “Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street” ou os primeiros filmes da saga “Piratas das Caraíbas”. A atriz estava a dar os primeiros passos em Hollywood e tinha conseguido o seu primeiro grande papel em “Pineapple Express”, no ano anterior.

A relação entre ambos foi assumida em 2014 e no ano seguinte virou matrimónio. Depois, em 2016, Amber Heard avançou com o divórcio e pediu uma ordem de restrição a Depp, naquela que foi a primeira acusação pública de violência doméstica ao ator.

Quando foi alcançado um acordo sobre o divórcio, em agosto desse ano, o casal emitiu um comunicado conjunto no qual desmentiu eventuais abusos por parte de Depp ou que Heard estivesse a mentir para obter dinheiro a partir de um acordo - a atriz viria a receber 7 milhões de dólares, que anunciou doar a caridades.

“Nenhuma das partes fez falsas acusações por ganho financeiro. Nunca houve qualquer tentativa de dano físico ou emocional”, indicava a nota.

O que deu origem ao processo?

A dezembro de 2018, foi publicado no Washington Post um artigo de opinião assinado por Amber Heard, no qual a atriz descreveu a “fúria” que enfrentou após ter acusado publicamente Johnny Depp de violência doméstica, referindo-se como uma “figura pública que representa o abuso”, mas sem nunca mencionar o ex-marido.

“Tal como muitas mulheres, fui assediada e vítima de assédio sexual na idade de universidade. Mas fiquei calada - não esperava que queixas trouxessem justiça. E não me vi como vítima. Há dois anos, tornei-me uma figura pública que representa o abuso doméstico, e senti a força da fúria da nossa cultura contra mulheres que falam”, escreveu.

Em resposta, Depp processou Heard por difamação, reclamando 50 milhões de dólares de indemnização e argumentando que as acusações da atriz tiveram um duro impacto na sua carreira. Embora o seu nome não surja no artigo, a sua equipa legal alega que o artigo sugere que “Depp é um abusador doméstico”, o que consideram ser “categoricamente falso”.

Sabe-se agora que o artigo não foi, afinal, escrito por Amber Heard, mas sim pela União Americana das Liberdades Civis (ACLU), associação da qual a atriz era embaixadora, que teve em conta no texto o acordo de confidencialidade assinado por Heard no âmbito do divórcio. A data de publicação também não era inocente: nesse dia era lançado o filme "Aquaman", onde Heard era atriz principal.

Em 2021, depois de não conseguir que o caso fosse arquivado, Heard avançou com uma contra-acusação a Johnny Depp por 100 milhões de dólares, num processo que deverá ir a tribunal no final deste ano, também em Fairfax, Virgínia, a pequena cidade que acolhe os servidores a partir da qual é publicada a edição online do "Washington Post".


A tóxica relação entre Johnny Depp e Amber Heard

Nas sessões de tribunal que começaram há um mês, e que fizeram as audiências televisivas da norte-americana Court TV duplicar, foi descrita a relação turbulenta que unia os dois atores.

Sob juramento, Depp chegou mesmo a dizer que Heard tinha “necessidade de conflito” e que as cenas de violência podiam começar “com uma chapada” ou “um empurrão”, com a atriz a “lançar um comando de televisão” à cabeça do marido ou ainda um “copo de vinho” à sua cara: “puro ódio”, chegou a descrever.

Em quatro semanas de depoimentos e testemunhos, o ator manteve uma versão que aponta a ex-mulher como a pessoa violenta na relação, não ele. Heard sempre negou ter atingido o ex-marido, a não ser por legítima defesa.

No entanto, em tribunal foram ouvidos trechos de discussões entre ambos no qual a atriz admite ter “começado uma luta” com o ator: “Eu não te dei um murro, dei-te uma chapada”, disse, chamando-lhe “bebé”.

O pico de tensão terá acontecido na Austrália, em 2015. Heard apontou abusos repetidos de Depp durante três dias, num período que coincidiu com o incidente que acabou um dedo cortado do ator: este diz que a ex-mulher atirou uma garrafa contra si, Heard alega que o dedo foi cortado enquanto Depp esmurrava uma parede. Durante o julgamento, a juíza admitiu que Heard era uma "vítima de repetidos abusos" por parte de Depp e que este a deixou "a temer pela vida".

Na terça-feira desta semana foi ouvida a especialista em violência interpessoal, Dawn Hughes, chamada pela defesa de Amber Heard, que revelou detalhes sobre a violência íntima perpetrada por Depp, referindo que este sofria de ciúmes doentios e que tentava controlar a ex-mulher quando esta não estava com ele.

Uma relação “altamente volátil e altamente prejudicial”, descreveu, avançando que o ator “procurou ostensivamente por drogas”, nas partes íntimas de Heard após a ter acusado de estar com outra mulher.

"Quando o senhor Depp estava alcoolizado ou drogado, atirava-a para a cama, rasgava-lhe as roupas e tentava ter sexo com ela. Houve vezes em que ele a forçou a fazer-lhe sexo oral quando estava chateado e momentos de domínio para tentar ter controlo sobre ela".

Esta semana, Amber Heard falou pela primeira vez para contar a sua versão dos acontecimentos, indicando que Depp era “o amor da vida”, mas que “se tornou noutra coisa horrível”. Chamando-lhe de "Johnny", quando o ator até agora sempre a referiu como Ms. Heard, recordou o incidente que alega ter sido a primeira vez em que o ator a agrediu fisicamente.

Enquanto no primeiro dia, Heard falou durante duas horas sobre o início da sua relação com Depp e quando a relação se tornou abusiva, no segundo dia deu a conhecer a raiva do marido e o fim do matrimónio, indicando que foi causado pela crença de que a atriz se estaria a encontrar com outro ator, James Franco, que Depp "odiava". Esse ciúme terá estado por detrás de uma discussão em que terá pontapeado a ex-mulher durante um voo de Boston para Los Angeles. "Pontapeou-me nas costas e ninguém disse nada. Ninguém fez nada."

Após o primeiro dia de declarações, a especialista em linguagem corporal Janine Driver apontou à CourtTV que as expressões e forma de falar de Heard em tribunal são consistentes com alguém que está a mentir, referindo que a atriz acrescenta detalhes irrelevantes durante o seu testemunho, algo indicador de quem está a inventar uma história, apoiando os dados falsos em detalhes verdadeiros.

A líder do Instituto de Linguagem Corporal diz mesmo que a prestação de Amber Heard é “risível”, mas disse acreditar no que a atriz diz quando descreve a arrogância de Depp perante outras atrizes.

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