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Cidades. Origem do bom e do mau e berço das melhores invenções

26 nov, 2021 - 15:30 • Sandra Afonso

As cidades do futuro vão ter mais verde e menos ficção científica, garante o historiador britânico Ben Wilson. Em entrevista à Renascença, Wilson diz que o desafio, nas próximas décadas, será liderar o combate às alterações climáticas e se calhar até mais rápido que os próprios governos. E deixa vários exemplos de mudanças já visíveis em muitas metrópoles.

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O autor de “Metrópoles - A história da cidade, a maior criação da civilização” (Ed Desassossego) alerta para o preço da expansão geográfica das cidades. Fala também da pressão do turismo e como invertê-la, do impacto na desertificação dos centros e no agravamento da desigualdade.

Ainda assim, defende que os grandes centros urbanos vão continuar a atrair pessoas, à procura de melhores oportunidades, minimizando o movimento atual de fuga para o campo.

Depois de ter analisado mais de duas dúzias de cidades durante milhares de anos, “as que melhor representam o seu tempo”, no livro agora publicado em Portugal, Ben Wilson aponta, nesta entrevista, o melhor e o pior da vida urbana. O historiador admite que as cidades estão na origem de muita criminalidade, fome, discriminação e dor, mas são também o berço das melhores e maiores invenções do homem.


O que influencia mais a estrutura e organização das cidades? As condições externas, os regimes políticos, a religião, o dinheiro…?

Todas as cidades são uma combinação de diferentes fatores. As primeiras cidades foram construídas em torno da ideia do sagrado, replicavam o que juraram ser uma ordem divina, a ordem dos Deuses. De certa forma, é por isso que são cidades que perduraram, conseguiram prosperar e sobreviver, porque as pessoas que viviam nelas tinham histórias e mitos sobre as cidades.

São as primeiras cidades com mais do que uma ideia; elas tentam dominar o ambiente em que se inserem, muitas vezes terrenos muito difíceis e perigosos.

Aconteceu no Sul do Iraque e na Mesopotâmia, com intervenções em áreas pantanosas que tinham sido inundadas. Essa forma de organização foi essencial no início da urbanização.

Ao longo do tempo, as cidades desenvolveram-se por diferentes razões. O comércio teve sempre um papel importante, o poder por si e sobre outras pessoas, poder sobre o meio ambiente, a capacidade de extrair grande riqueza das rotas de comércio.

E a geografia...

É a habilidade de tirar o máximo proveito do local onde se vive. Na verdade, as cidades não foram formadas nos sítios mais benéficos, em termos ambientais ou em termos de proximidade de recursos. A localização foi escolhida pela acessibilidade, o mais importante era a proximidade à água, por isso encontramos tantas cidades na linha costeira.

Muitas cidades, sobretudo na Europa, são também o resultado da guerra, a conquista de novos territórios, locais de abastecimento de tropas em movimento, bases de abastecimento para exércitos inteiros.

Há todo o tipo de razões pelas quais as cidades são implementadas. Os Romanos patrocinaram a urbanização, porque servia os objetivos imperialistas e militares.

Na atualidade, temos uma urbanização massiva, numa escala colossal, porque vivemos num tempo em que a urbanização, sobretudo no mundo desenvolvido, é uma saída para a pobreza, para países e indivíduos.

Mas a cidade sempre alimentou bairros de pobreza, fome e exclusão

Somos atraídos para as cidades, apesar das desvantagens, porque o retorno pode ser maior, porque nas cidades a mudança acontece rapidamente. Durante muito tempo, foi um privilégio ser citadino, sobretudo na Europa da Idade Média, quando as cidades eram muito mais livres e locais de grande mobilidade social do campo.

Representavam uma oportunidade para as pessoas se aperfeiçoarem. Embora muitas vezes fosse uma lotaria, era uma oportunidade de mudança da vida estática e aprisionante do campo.

Ainda hoje, muita da urbanização é uma fuga da pobreza rural. Encontramos o mesmo na Revolução Industrial no século XIX, muitos dos irlandeses pobres ou italianos que foram para a América, fugiam da fome nas terras de origem, da pobreza ou da falta de oportunidades. Muitos acabaram por ir parar a locais escuros, perigosos, poluídos ou repletos de doenças, mas encontraram uma oportunidade que, embora dura, era melhor que a vida no campo.

Não nos devemos enganar – a vida urbana vem com sacrifícios, mas, em última análise, as cidades beneficiam as pessoas.

As cidades transformam os seus habitantes ou apenas refletem quem as habita?

Desenvolvemos as cidades e, com o passar do tempo, mudamos enquanto sociedade, através das cidades. Mas as cidades também nos mudam: é a experiência de viver nelas.

Nas primeiras cidades, podemos ver como a convivência e a densidade populacional, ao juntar diferentes mentes, aumentou a invenção, a colaboração e a competição. Deu origem ao início da palavra escrita, na primeira cidade de Uruk, ou ao início da matemática.

Encontramos também este tipo de exemplos nos bairros pobres de Bombaím ou em Lagos. Já o vi com os meus próprios olhos: quando as pessoas se juntam assistimos a mudanças inovadoras. É o efeito cluster, de humanos a viverem com outros humanos.

Na história das cidades, a ordem é produzida pela desordem.

No entanto, nas primeiras cidades também encontramos a escravatura e altas hierarquias. A vivência nas cidades é complexa e muda dramaticamente as relações sociais, quer seja há milhares de anos ou agora; a alienação urbana pode aprisionar os habitantes, que se perdem na grande massa urbana.

Mas também pode ser libertadora, porque diminui a vigilância, há mais oportunidade de conhecer pessoas novas e experimentar, participar ou simplesmente assistir. As cidades são o motor da mudança rápida, que tanto tememos como celebramos.

Podemos dizer que as cidades marcam a evolução do homem?

Do ponto de vista da evolução cultural, sim. Na antiga Grécia, o desenvolvimento dos espaços públicos na Ágora tornou as pessoas mais políticas, criou a política, viver e trabalhar em colaboração. O espaço público na pólis é fundamental para a nossa experiência urbana, a ideia de partilha de conhecimento.

Outro exemplo são as casas de café ("coffee houses") no século XVII, em Londres. Não eram apenas um lugar para provar uma bebida exótica, do outro lado do mundo, um luxo, eram também um novo tipo de espaço público para reunir as pessoas, para conversar e discutir.

Aqui encontramos uma mistura de personagens, temos cientista com homens de negócios, que falam com empresários, que se encontram com jornalistas. É o início do capitalismo financeiro em Londres, à volta do café, em espaços públicos informais.

Este é também o início das notícias, da fofoca, da troca de informações durante o café e estes espaços fazem a cidade mexer. É por estas áreas, informais, que passa muita da mudança nas cidades.

As cidades alimentam-se do conhecimento; elas são, em certa medida, uma criação da mente. Como são desafiantes, criamos histórias para as entendermos, desenvolvemos a nossa versão da cidade, assim perduram por mais tempo.

O outro lado da moeda é o crime, a poluição, a corrupção e outras desvantagens, aspetos negativos que também aponta no livro.

É importante lembrar que as cidades são tanto o produto dos seus desastres como dos seus sucessos. As cidades podem ser notoriamente difíceis para quem vive nelas; grandes e brutalmente más para os cidadãos. Sobretudo nas grandes cidades atuais, é quase um milagre que as pessoas sobrevivam e que até se saiam relativamente bem. Esta tem sido a história. Na maioria dos casos, as pessoas fazem um grande sacrifício para viverem nas cidades, têm uma esperança média de vida mais curta, enfrentam maiores riscos com doenças e pandemias.

As cidades são conhecidas pelas taxas de criminalidade e ficam na história como locais violentos. Temos as noites de crime na Londres medieval, a violência na Florença renascentista, gangues e crimes durante a revolução industrial em Chicago. Mas, enfatizo sobretudo a ordem espontânea que as cidades produzem. Somos bastante bons a desenvolver uma espécie de equilíbrio na vida urbana. Não parece natural viver nestas circunstâncias, mas fazemo-lo.

Na história das cidades, a ordem é produzida pela desordem. As cidades têm uma certa habilidade em se gerirem e nós em vivermos com outros, o que parece quase impossível para uma espécie que não evoluiu com este nível de proximidade o consiga fazer com sucesso.

Desastres e catástrofes são exemplo dessa "ordem produzida pela desordem"? A resposta das cidades a fenómenos com impacto avassalador na sua estrutura. No livro dá vários exemplos.

A Peste Negra, a disenteria, o tifo e a cólera no século XIX. A Peste Negra, horrível como foi, com uma enorme contagem de mortes, transformou fundamentalmente as cidades, criou muito espaço para as pessoas se mudarem do campo para a cidade, para ganharem melhores salários com o aumento da procura de trabalhadores. Os trabalhadores ganharam algum poder sobre o combustível, sobre os patrões. Socialmente, foi uma mudança importante.

As cidades responderam aos surtos de cólera no século XIX desenvolvendo sistemas de esgoto muito sofisticados, que se tornaram a coluna vertebral das cidades.

Há uma espécie de habilidade das cidades em adaptarem-se, em absorverem choques e desastres de todo o tipo e continuarem numa evolução em metamorfose. A reação a estes eventos é o que determina a sobrevivência da cidade a longo prazo. É, de alguma forma, um milagre que seja possível viver a esta escala. Chegam a ser 25 milhões de pessoas.

Na prática, muitos habitantes restringem os movimentos a um espaço restrito, há quem viva uma vida na mesma cidade sem nunca visitar todos os locais de referência ou conhecer todas as zonas.

É aqui que entra a imaginação de cada um para tornar a cidade habitável, criar a própria comunidade, para sobreviver. Vi isso no terreno em cidades como Lagos, enorme, que lembra outras metrópoles do passado, onde a vida urbana era um desafio.

Em Lagos, encontramos muito entreajuda na comunidade, sobretudo em redor das igrejas; encontramos muitos locais fascinantes, como uma vila informática que começou por ser um local onde eram reparadas máquinas de escrever. Agora, é o maior mercado eletrónico da África Ocidental, movimenta milhões de dólares e é uma criação da rua, é um mercado de rua. Grandes empresas têm de competir nas ruas com dezenas de milhares de empreendedores no que parece um ambiente caótico, mas é apenas uma desordem aparente.

Os setores público e privado têm agora uma nova prioridade: a pressão ambiental. Vai mudar o rosto das cidades?

Deverá. Já está e vai continuar a mudar as cidades. O que está a acontecer em muitas cidades no mundo é o reconhecimento de que o que pensávamos que poderíamos fazer, resolver os nossos problemas através da engenharia pesada, dominar a natureza com máquinas, não deu. Agora procuram-se soluções mais sustentáveis. Admitimos que a temperatura está a aumentar, o clima está imprevisível e aumentam as inundações, as cidades estão mais vulneráveis.

Que soluções sustentáveis são essas?

Regular o microclima através da plantação de árvores. Elas estão a surgir nas cidades a uma velocidade fenomenal para mitigar os efeitos das alterações climáticas. O mesmo para as inundações: temos lagos artificiais, rios renaturalizados, cidades que imitam a hidrografia natural em vez de tentarem retirar o excesso de água com a engenharia.

As cidades começam a adaptar-se, pelo menos algumas. Já vemos o início da mudança. As cidades têm uma grande capacidade de adaptação, elas olham para a sobrevivência a longo prazo de forma bastante cruel, às vezes. Vivemos num período em que as cidades, em vez de serem a antítese da natureza, começam a ver-se como parte do ecossistema.

Há cidades muito à frente da curva. Singapura é um exemplo de uma cidade que provocou muita destruição ambiental e é agora responsável por muita restauração ecológica.

As cidades são o motor da mudança rápida, que tanto tememos como celebramos.

Na minha cidade, Londres, soube recentemente que criaram um espaço verde do tamanho do Hyde Park, que é enorme, apenas com jardins no topo dos prédios. São espaços verdes em locais onde não se pensou ser possível existirem.

As cidades têm sido criativas na adaptação aos novos desafios. Copenhaga é também um bom exemplo, com a transformação de superfícies duras impermeáveis da cidade, dividindo-as em espaços verdes, áreas que ajudarão com grandes tempestades como a que a cidade enfrentou em 2011.

Qual é o próximo passo, o que falta?

As cidades produzem muitas emissões de carbono, muitos resíduos, essa é a próxima fase. Têm de aprender a lidar com isso.

Acabámos de ter a COP26, isso foi ao nível dos governos nacionais. Penso que nas cidades as alterações climáticas necessitam de uma abordagem mais local.

As cidades são locais inovadores, lidam bem com a mudança, as novas formas pioneiras de viver o ambiente, a nível local e global, serão extremamente críticas para a redução da pegada de carbono.

A maioria de nós vive em cidades, é onde podemos tentar inovar. Não será fácil nem barato, mas é necessário, porque estamos vulneráveis ao ambiente. As cidades têm de se adaptar e já se adaptaram a tudo no passado.

Podemos usar os nossos recursos de forma melhor nas cidades e, provavelmente, esse é o nosso desafio para as próximas décadas, que as cidades liderem esta transformação e podem ser mais rápidas do que os governos nacionais.

Globalmente, as cidades têm níveis muito distintos de desenvolvimento, nem todas estão em condições de responder a esta pressão ambiental.

Vejo muito perigo pela frente, tempos difíceis, sobretudo nas cidades em desenvolvimento, que não causaram as alterações climáticas, mas vão sofrer as consequências, devido à sua localização e à velocidade a que crescem, que ultrapassa as infraestruturas que as suportam.

Temos de pensar como podemos ajudar estas cidades a mitigar e viver com as alterações climáticas, de outro modo este será um tempo muito escuro e perigoso. A esperança é que, com os recursos que concentram, possam mudar rapidamente.

Hoje são cada vez mais as pessoas que trocam a cidade pelo campo, um movimento que cresceu com a pandemia. Esta fuga dos centros urbanos já se tinha repetido antes?

Sim! Por muito que celebremos a vida nas cidades, em certa medida sempre tentámos sair delas. Houve períodos em que foi difícil viver em certos sítios, sempre existiram reações contra a cidade.

Tentamos criar a imagem da cidade perfeita, que traz o melhor de nós, mas isso é impossível, as cidades refletem tanto os nossos defeitos como as virtudes. O contrário é ficção científica.

Os subúrbios e a periferia devem ser integrados e vistos como parte da cidade e não apenas dormitórios.

Os subúrbios são uma alternativa? Um meio termo entre o campo e a cidade?

A suburbanização foi uma reação contra a cidade, o desejo de escapar do congestionamento, das doenças da cidade industrial e de viver uma vida entre o campo e a cidade. Na sua essência, o movimento anti-cidade é a rejeição da cidade e uma tentativa de criar uma nova forma urbana. Há várias tentativas, experiências, cidades completamente remodeladas, a destruição do congestionamento e a substituição dos centros históricos.

Há sempre o sentimento de que o nosso verdadeiro eu não está nas cidades, mas na natureza.

O sobredimensionamento é também hoje um problema. Há limites para o crescimento das cidades?

Não podemos expandir as nossas cidades indefinidamente sem causar enormes danos ecológicos. No mundo moderno, a densidade populacional das cidades já é suficientemente impressionante: temos mais de 200 mil pessoas a mudar para a cidade por dia, é uma migração fenomenal.

Mas as cidades estão a crescer mais rápido do que as suas populações; crescem mais em espaço do que em habitantes, o que é chocante, porque está em causa não só porque crescem, mas também para onde. Há locais onde estão a ser ameaçadas espécies em vias de extinção, onde a cidade entra em contacto com a vida animal o que é uma receita para a origem de novas pandemias.

Em última análise, este crescimento torna também as cidades insustentáveis, se cortarmos os ecossistemas que as tornam viáveis em primeiro lugar, então toda a vida torna-se muito mais difícil.

Algumas das nossas melhores ideias vieram de cidades e continuarão a vir. É uma forma muito sustentável de vida.

Com a pandemia a proximidade voltou a ganhar importância também dentro das cidades. O conforto passa agora por viver numa espécie de aldeia dentro da cidade, onde o essencial está a uma curta distância.

Se tivermos tudo o que precisamos à distância de uma caminhada ou de um passeio de bicicleta – o acesso a cultura, lojas, locais de reparação, parques – isso é uma forma de vida sustentável que retira pressão do quotidiano. É um estilo de vida amigo do ambiente, reduz a pegada ambiental. A visa urbana deve ser anti-carro. De certa forma, devemos viver próximo daquilo que precisamos. Isto é o ideal e deve ser o nosso objetivo.

Paris quer ser a cidade dos 15 minutos.

Sim. A cidade em que todos estão a 15 minutos, a pé ou de bicicleta, do que precisam. Acho que é uma maneira muito boa de olhar para a cidade e de como de estar organizada, numa escala macro.

As cidades já não devem ser o centro e tudo circular à sua volta, como satélites. Os subúrbios e a periferia devem ser integrados e vistos como parte da cidade e não apenas dormitórios.

A cidade é uma selva confusa de diferentes funções, onde tudo pode acontecer, na proximidade ou nas imediações. É isso que torna as cidades excitantes.

Mas quem vive hoje nas cidades? É cada vez mais caro comprar uma casa ou uma renda; para a maioria, as despesas são incomportáveis. Muitos já defendem que as cidades estão hoje entregues aos serviços e aos turistas.

Tem razão. A gentrificação está a empurrar os habitantes originais e os novos habitantes para fora da cidade, para áreas suburbanas mais periféricas. Simultaneamente, a população em trânsito é enorme.

Londres tem 9 milhões de habitantes, é uma cidade enorme. 20 milhões ficam pelo menos uma noite na cidade por ano e 300 milhões fazem viagens de um dia, para além dos que entram todos os dias na cidade para trabalhar.

Este fluxo mudou as cidades. O turismo em massa, os passageiros, deixaram os centros das cidades estéreis, artificiais. São uma espécie de museus, cheios de locais que servem esta imensa massa crescente em movimento: bares e restaurantes, airbnb’s e lojas para turistas. Têm um efeito negativo na vida e população local, tornam inacessível moral no centro das cidades.

Esta é uma das características negativas do mundo moderno.

Como é que as cidades estão a responder a esta avalanche de turismo?

Amsterdão está a limitar legalmente a quantidade de B&B autorizados e admite limitar o número de voos na cidade, para evitar que se transforme numa espécie de cidade museu ou parque temático.

Enquanto turista, acho que muitas vezes não é no centro que encontro a cidade, a verdadeira vida urbana está na maioria das vezes nos subúrbios. Em Londres, os sítios mais excitantes, mercados e restaurantes estão na periferia, nos subúrbios.

O aumento da desigualdade nas cidades é um perigo real. Retiram o prazer de viver na cidade, tendo em conta que são locais de diversidade, ao passarem a mensagem que podemos varrer os problemas para baixo do tapete e torná-los invisíveis, porque não são uma experiência diária.

Segregam as nossas cidades, transformam-nas em locais superficiais, limpos, estéreis, isso não é saudável. O que faz uma cidade vibrar, ser empreendedora é uma mistura de muitas pessoas diferentes. Quando ficam ricas e vendem os locais, eles perdem a alma. Vi isso acontecer na minha cidade.

A sociedade que combinar a tecnologia com ecossistemas será resiliente e sustentável terá mais hipótese de alcançar coisas imprevisíveis.

O contrário também é possível?

Temos Medellín, na Colômbia, a terra natal de Pablo Escobar, que já foi a capital com mais assassinatos no mundo e uma sociedade infeliz, em decadência. Mas, ao ligar os bairros de lata ao centro da cidade, através da melhoria dos acessos e transportes; ao colocar alguns dos chamados grandes novos edifícios arquitetónicos culturais, funky, nas zonas mais pobres, obrigou as pessoas a circular e quebrou a gentrificação. Isso não é mau.

Tóquio, nas cinzas da Segunda Guerra Mundial, tratou todos os distritos da mesma forma, ricos ou pobres, todos receberam o mesmo nível de infraestruturas e de conectividade. Isto promove diferentes usos, vivências e estilos de vida.

Numa cidade assim, encontramos escolas com filhos de emigrantes de segunda e terceira geração e são, com frequência, as escolas com melhores resultados, porque têm sede de conhecimento, querem aprender.

Esta mistura de pessoas faz brilhar a cidade, é uma espécie de microcosmo na cidade, precisamos destes contrastes para que os lugares não se tornem entediantes, muito controlados.

É um perigo real que as cidades se tornem enfadonhas, à medida que são drenadas de vida. Não tenho a certeza se é inevitável, há problemas que ultrapassam as cidades, refletem a economia, os fluxos financeiros, coisas que vão para além das pessoas. O que a cidade pode fazer é promover a inclusão, através da forma como os serviços são fornecidos e como nos deslocamos.

Por exemplo, as pessoas devem ter acesso a espaços verdes, que historicamente estão concentrados nas zonas nobres e ricas. A localização de novos parques deve ser escolhida de forma inteligente, porque vai afetar a qualidade de vida em diferentes áreas e tem um papel importante na união da cidade.

Estes são alguns dos sinais de sucesso que acabam por testar a resiliência das comunidades, assim como pandemias, mudanças climáticas ou ameaças futuras.

Quando esvaziamos os centros das cidades, quando as tornamos locais de desigualdade, privamo-las do capital humano, do que as faz vibrar: a sua resiliência, o sentido de comunidade, a solidariedade.

Como historiador, está habituado a olhar para o passado. Agora peço-lhe que olhe para a frente: como vê as cidades do futuro?

Penso que vamos assistir a uma intensificação, com mais pessoas a viver nas cidades, com toda a certeza. Por mais que tenham dito, durante a pandemia, que iam sair das cidades, não acredito. O futuro passa pelas cidades.

Somos treinados pela ficção científica a imaginar as cidades como verdadeiros pesadelos com cenários distópicos ou locais glamorosos cheios de arranha-céus. Assistimos a uma fase de construção intensiva de arranha-céus ao nível global; as cidades ganham uma imagem moderna, futurística, através da arquitetura grandiosa.

Para mim, futurístico é diferente – é semelhante a Singapura, com folhagem sobre edifícios, pontes e viaduto para pedestres, telhados verdes, mais espaços públicos mais ou menos selvagens, rios que fluem em vez de estarem contidos.

Para mim, estes são os sinais de futuro e modernidade, não coisas de alta tecnologia que somos treinados para ver. A sociedade que combinar a tecnologia com ecossistemas será resiliente e sustentável e será a que tem mais hipótese de enfrentar o imprevisível. Isso é futurista, uma vez que vai contra o que pensávamos que as cidades deviam ser, produtos completamente artificiais, produto do homem.

Na verdade, as cidades são uma combinação entre o natural e a produção humana e é assim que devem ser no futuro.

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