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Entrevista Renascença/Ecclesia

Reitor do Santuário de Fátima nota “aumento exponencial” de pedidos de ajuda

14 mai, 2023 - 09:14 • Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Agência Ecclesia)

Eleito para um novo mandato à frente do Santuário de Fátima, o padre Carlos Cabecinhas aponta a profissionalização da gestão do Santuário como "uma necessidade e um imperativo". Em entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia, o reitor diz que está a crescer o número de pedidos de ajuda de famílias em dificuldades e que o santuário dá sempre resposta.

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O reitor do Santuário, padre Carlos Cabecinhas revela em entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia que se regista um “aumento exponencial” do número de pedidos de ajuda.

Este aumeno de pedidos que chegam à Cova da Iria começou a sentir-se “no final do ano passado e em todo este início do novo ano”, diz o sacerdote, adiantando que “há muitas famílias que não conseguem pagar rendas de casa, que não conseguem comprar medicamentos na farmácia”.

Carlos Cabecinhas revela que o Santuário “está também a ajudar com alimentos” e alerta para aquelas situações “para as quais não existem apoios sociais estabelecidos”.

O reitor lembra “os idosos com pensões de reforma muito baixas” que não lhes permite, por exemplo, comprar “uma prótese dentária” ou mesmo uns óculos, o que para “muitas pessoas se torna um desafio enorme”.

Estabelecendo prioridades “o Santuário foi sempre capaz de dar resposta”, acrescenta o sacerdote.

Ainda no plano económico, o padre Carlos Cabecinhas sublinha que apesar de “um ano de 2020 extremamente complicado” por causa da pandemia em que “teve de procurar diminuir drasticamente as suas despesas”, o Santuário mantém a sua estabilidade económica.

Nesta entrevista por ocasião da sua recondução como reitor do Santuário por parte do bispo diocesano D. José Ornelas, o padre Cabecinhas entende a situação como “um voto de confiança em relação ao trabalho realizado” e adianta que “a profissionalização da gestão do Santuário é uma necessidade e um imperativo”.


"O Papa quer vir como peregrino, quer vir para rezar no santuário"

Nesta entrevista à Renascença e à Agência Ecclesia, o sacerdote reitera a aposta na internacionalização do Santuário e revela que, depois da pandemia, já estão a regressar “os peregrinos vindos da Ásia”.

Carlos Cabecinhas anuncia ainda “algumas apostas para enriquecer o acolhimento de peregrinos” e admite que a presença do Papa Francisco em Fátima por ocasião da JMJ Lisboa 2023 abre caminhos diferentes para o futuro da Cova da Iria.

O responsável sublinha que “a dimensão da paz foi sempre uma parte absolutamente fundamental da mensagem de Fátima” e lembra que “o Papa disse, e disse-o várias vezes e a diversos interlocutores, que não punha sequer a hipótese de voltar a Portugal sem voltar a Fátima”.

Vou começar sua nomeação para o novo mandato e pergunto se vê esta recondução como uma confirmação do rumo que tem sido seguido aqui em Fátima nos últimos anos?

Obviamente que ser reconduzido numa função como esta, numa missão como esta significa sempre receber um voto de confiança em relação ao trabalho realizado e, portanto, de alguma forma, uma confirmação daquilo que foi o rumo seguido e que, no meu entender, vai ser implementado durante o período do mandato, que são os próximos cinco anos. Obviamente, sempre na perspetiva daquilo que o possa fazer-se de renovação, porque estes mandatos significam sempre conduzir a vida do Santuário de forma a que vá respondendo cada vez mais e melhor àquilo que é a sua missão e isso significa renovação constante.

"A pandemia motivou-nos no sentido de uma atenção muito maior à fragilidade humana"

Os anos da pandemia com impacto na atividade pastoral e no equilíbrio económico do Santuário foram o período mais delicado nos anos do seu mandato?

Foram o momento mais difícil e o momento mais doloroso. Não direi o mais delicado porque a celebração do centenário foi, talvez, o momento mais delicado, embora felicíssimo. Foi um período de intensa atividade, um momento que nos encheu o coração, quer a quem trabalhava no Santuário e durante tantos anos foi preparando o momento quer pelos peregrinos. Recordo a visita da imagem peregrina às dioceses portuguesas, que teve um impacto absolutamente incrível.

Obviamente, do ponto de vista do Santuário significou alguma vivência, eu diria mesmo dramática pelo facto de termos um lugar vocacionado para acolher peregrinos, um lugar conhecido pelas multidões e termos, de repente, de celebrar um 12 e 13 de maio com o recinto completamente vazio, sem peregrinos. Foi algo que tocou o fundo, que tocou o coração, mas que, por outro, nos ajudou também a sentirmo-nos unidos: todos aqueles que viviam o drama da pandemia, com toda a incerteza que ela trazia. Tivemos uma pandemia que veio pôr em causa completamente as nossas vidas, as nossas certezas, coisas que dávamos por adquiridas e intocáveis. Tudo isto provocou uma grande apreensão.

Fátima não ficou à margem de tudo isso e o esforço que fomos fazendo foi também o de procurarmos dar alguma resposta. Direi que da pandemia, se fica a memória de alguns momentos dolorosos, fica também o enorme desafio que sentimos e que foi depois moldando também algumas das iniciativas do Santuário.

Do ponto de vista financeiro, não ficaram feridas? A situação está ultrapassada? O que é nos pode dizer da situação financeira do Santuário?

O ano de 2020 foi um extremamente complicado, foi um ano extremamente difícil. Tivemos, naquele exercício, mais de cinco milhões de resultado negativo.

O ano de 2021 já permitiu alguma recuperação e equilíbrio. No entanto, estes anos, apesar do dramático que foram, não puseram em causa a solidez económica do Santuário, que é uma instituição também a este nível sólida, que teve de procurar diminuir drasticamente as suas despesas, uma vez que também diminuiu drasticamente a sua atividade. Mas isso não pôs em causa aquilo que era a estabilidade económica da instituição, que se mantém.

"O ano de 2020 foi um extremamente complicado (...) O ano de 2021 já permitiu alguma recuperação e equilíbrio"

Indo um pouco atrás, à sua reflexão sobre o ciclo do centenário, que foi um momento muito intenso, de grande responsabilidade: desde então, o mundo mudou radicalmente? Tivemos uma pandemia, a guerra voltou à Europa e eu pergunto-lhe de que forma é que estes acontecimentos imprevistos mudaram as prioridades que teria definido para o futuro do Santuário?

Este tipo de acontecimentos muda e tinha de mudar o Santuário, porque o Santuário não poderia ficar imune a esta realidade. Seria ser infiel à sua missão não reparar ou não ter devidamente em conta todos estes acontecimentos que foram mudando o mundo. Obviamente que houve algumas mudanças de prioridades. A pandemia motivou-nos no sentido de uma atenção muito maior à fragilidade humana, à dimensão da fragilidade, quer a nível reflexivo quer a nível de atividades concretas. Estou a lembrar, de forma muito situada, um centro de escuta que temos já montado e que pretendemos que seja uma resposta a tanta gente que nos procura. A pandemia veio mostrar que precisa urgentemente de quem acolha, de quem ouça, de quem possa dar uma palavra de condução...

Mostrou um mundo mais só...

Mostrou um mundo mais só, um mundo mais frágil também a nível da própria saúde mental, do equilíbrio emocional. Há muitas destas pessoas que procuram o Santuário, procuram uma resposta e, portanto, para nós, este foi um desafio. Sentimos também o desafio da aposta na nossa comunicação digital. Percebemos que há muita gente que não vinha no tempo da pandemia, não vinha ao Santuário porque não podia vir. Mas há muita outra gente que não vem porque não tem condições para vir, independentemente de haver uma pandemia. Isso também nos mostrou que a aposta tem de continuar, no sentido em que o Santuário é um lugar que se define como um lugar, um lugar que não muda. Não pode mudar daqui, mas que o Santuário tem vocação de chegar muito para além destes confins. Deve fazê-lo, é para nós uma das prioridades.

"A profissionalização da gestão do Santuário é uma necessidade e um imperativo"

É a profissionalização da gestão? Essa será uma necessidade incontornável face à dimensão da instituição?

A profissionalização da gestão do Santuário é uma necessidade e um imperativo. O Santuário de Fátima tem hoje uma dimensão, mesmo como estrutura, como instituição, que não se compadece com amadorismos. Desde que assumi funções, uma das preocupações foi a de ajudar a alguma reestruturação interna. Isto não é nenhuma crítica aos meus antecessores: é o reconhecimento que a estrutura que foi montada nos anos 80 precisava de se readequar.

Nessa reestruturação interna que se foi fazendo durante os anos do centenário e contemporaneamente com aquele ciclo, levou-nos também a uma cada vez maior profissionalização da própria gestão. Profissionalização que significa, sobretudo, otimização. Significa que o Santuário tem de procurar responder de forma mais eficaz à sua missão e que toda a dimensão administrativa tem de estar ao serviço da dimensão pastoral.

Esse processo está em curso ou está concluído?

Será sempre um processo em curso, isto é, nunca podemos dizer que está concluído. É sempre um processo em curso porque a vida do Santuário, também como instituição viva que é, obriga a novos desafios, a abraçar novos projetos pastorais, o que tem sempre implicações na dimensão da gestão do próprio Santuário. Obviamente, para nós, foi sempre muito claro que toda a gestão tem de estar ao serviço da missão pastoral. Não pode ser de outra forma.

"A gestão tem de estar ao serviço da missão pastoral"

Ainda neste campo do impacto da pandemia e do impacto da atual crise económica, o Santuário sentiu um aumento no número de pedidos de ajuda? Como se processa esse apoio?

Nós temos sentido um aumento exponencial dos pedidos de ajuda.

Mais recentemente?

Sobretudo na fase final do ano passado e em todo este início deste novo ano.

Que tipo de pedidos vão surgindo?

Por um lado, temos os pedidos institucionais, de instituições, nomeadamente instituições eclesiais ou instituições de solidariedade social. É sempre uma ajuda para projetos, não uma ajuda para atividade regular. Isso acontece com regularidade. A este nível, não houve um aumento significativo do número de pedidos.

Os pedidos que tiveram um aumento significativo foram para o apoio social aos mais carenciados, atingindo este tecido social de Fátima e arredores. Há muitas famílias que não conseguem pagar rendas de casa, há muitas famílias que não conseguem comprar os medicamentos na farmácia. Estamos a ajudar também com alimentos. Depois, há uma série de aspetos que muitas vezes nos passam despercebidos, para os quais não existem apoios sociais estabelecidos, nomeadamente oficiais. Estou a pensar em tudo o que tenha que ver com a saúde oral, com próteses dentárias. Por exemplo, os idosos com pensões muito baixas de que forma é que podem adquirir uma prótese dentária que é fundamental para o mínimo de qualidade de vida? Ou falemos de óculos: a mudança de uns óculos para muitas pessoas torna-se um desafio enorme quando têm pensões de reforma tão baixas. Ou quando o preço das rendas vai aumentando também a um ritmo muito grande. A esse nível, o crescimento dos pedidos tem sido exponencial.

O Santuário tem tido capacidade para dar resposta?

Esta é talvez a dimensão menos conhecida do Santuário. O Santuário foi sempre discreto em relação a esta dimensão caritativa e discreto também nestes casos concretos porque tratamos de pessoas que não queremos e não podemos expor. Obviamente que se estabelecem prioridades e, por isso, o Santuário foi sempre capaz de dar resposta, porque quer dar: não pode deixar de dar resposta a estes pedidos de ajuda.

"O Santuário não pode deixar de dar resposta aos pedidos de ajuda"

Uma pergunta sobre as apostas pastorais que estão a ser pensadas: o seu novo mandato é de cinco anos e, portanto, seguramente, também a aponta ao futuro, sobretudo no que diz respeito ao acolhimento dos peregrinos. Há pouco falava que o Santuário não pode sair do lugar. O Santuário também tem uma vocação específica dentro do pensamento católico e teológico e é um lugar de passagem, não é o lugar propriamente de chegada e de se ficar. As pessoas têm de chegar e partir de novo...

Sem dúvida que o que define um santuário é precisamente esta dimensão de lugar de passagem. Pode ser meta de peregrinação, mas nunca é local onde se permanecerá. É sempre uma meta em ordem ao regresso, à quotidianidade. Aliás, a peregrinação tem precisamente esse sentido do ir a um lugar diferente para se voltar diferente, para se voltar transformado.

A esse nível, o nosso acolhimento de peregrinos tem feito algumas apostas que queremos continuar a enriquecer. Não apenas nos espaços. Os espaços precisam também de ser trabalhados e estou concretamente a pensar no conjunto da área envolvente do Centro Pastoral Paulo VI, com todo aquele conjunto de parques que precisam de ser trabalhados, porque não são apenas parques de estacionamento.

Muita gente que acampa nos parques de estacionamento...

São lugares onde as pessoas param, convivem, tomam o seu almoço em família. Portanto, queremos revalorizar o acolhimento naqueles espaços como fizemos atrás da Basílica de Nossa Senhora do Rosário. Mas queremos também, por exemplo, continuar a apostar num acolhimento que passa para além dos momentos celebrativos, que são sempre a oferta primordial, mas também por propostas formativas, por propostas daquilo a que chamamos a "Escola do Santuário", com itinerários diversos ao longo do ano, que procuram convidar a aprofundar uma outra dimensão da vida cristã e da espiritualidade de Fátima, como também aproveitar e valorizar a via da beleza.

Temos vindo a apostar, há uma série de anos, em exposições. Essas exposições têm o grande mérito de falar de Fátima por meio de outra linguagem, através da via da beleza. Uma via da beleza, de acordo com aquilo que o Papa Francisco dizia a propósito dos museus do Vaticano: não queria que os museus ficassem como algo elitista, apenas para um grupo específico de estudiosos ou de pessoas com uma capacidade ou uma formação e erudição especiais para o visitar. Quer que sejam o mais aberto a todos. As nossas exposições procuram ser isso mesmo: falar de Fátima com a linguagem da beleza, mas falar de uma forma aberta a todos.

Penso que as nossas exposições temporárias, por exemplo, com a grande afluência que sempre registam, manifestam o quanto essa aposta tem sido uma aposta ganha.

"O Santuário tem vocação de chegar muito para além destes confins"

A internacionalização da mensagem de Fátima faz com que as fronteiras da Cova da Iria se alarguem constantemente. Espera que se confirme, no pós-pandemia, o crescimento do número de peregrinos vindos, por exemplo, da Ásia?

Sem dúvida. Voltando à pergunta anterior, esse é um dos aspetos que está muito presente neste novo mandato: a aposta na internacionalização de Fátima. Sabemos que a pandemia limitou muito a vinda de peregrinos, sobretudo estrangeiros. Os peregrinos portugueses regressaram de imediato, os espanhóis pouco tempo depois. Mas tem havido outros peregrinos que têm regressado mais lentamente. Este ano, assistimos já a um aumento significativo de peregrinos vindos da Ásia e, obviamente, essa é uma origem de peregrinos que nós queríamos também privilegiar.

Em 2019, já tínhamos uma presença praticamente diária de grupos de peregrinos vindos da Coreia do Sul. Este ano não estamos ainda nesse nível, mas eles estão claramente a regressar, tal como os peregrinos filipinos. E os da China e da China continental, também, embora sem a expressividade dos peregrinos da Coreia.

Sem dúvida, essa é uma das nossas preocupações: potenciar o aumento dos peregrinos vindos da Ásia, os peregrinos vindos do continente americano - seja dos Estados Unidos, que é também uma origem que tem vindo a crescer, e da América Latina. O Brasil, com a pandemia, também decresceu enormemente. Assistimos neste momento a um regresso e temos muitos outros países da América Latina com um interesse cada vez maior por Fátima.

Há um momento deste ano que, seguramente, também vai atrair muita gente: o do esperado regresso do Papa Francisco à Cova da Iria. Olhando para o que aconteceu em março de 2022, da consagração que o Papa Francisco quis ao unir Fátima ao Vaticano, com a consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria, pedindo a paz. Trata-se de um momento novo na interpretação da mensagem de Fátima? Abre caminhos diferentes também para o futuro da Cova da Iria?

Eu estou convencido que sim. A dimensão da paz foi sempre uma parte absolutamente fundamental da mensagem de Fátima. Desde o primeiro momento, falemos das aparições do Anjo, falemos das aparições de Nossa Senhora, a paz apareceu sempre como horizonte e concretamente na aparição de maio, o pedido - é último pedido na aparição, segundo o relato da Irmã Lúcia - é que rezem o terço para alcançar a paz. Portanto, a dimensão da paz é parte integrante da própria mensagem de Fátima.

Quando, na sequência do início da guerra na Ucrânia, o Papa decide fazer um ato de consagração dos dois países beligerantes e unir Fátima a esse ato de consagração, obviamente houve um reconhecimento desta dimensão de Fátima como pólo de paz, como mensagem de paz, como ponto de oração permanente pela paz. Esse nível pode abrir um capítulo novo também na interpretação.

Já caiu o Muro de Berlim...

Exato. Já caiu o Muro de Berlim e nós diríamos que a consagração está feita, a consagração da Rússia foi feita pelo Papa São João Paulo II a 25 de março - significativamente a 25 de março de 1984 - e, no entanto, o Papa Francisco reinterpreta porque nos convida a renovar essa consagração, mas não é agora a consagração da Rússia no sentido de alguma diabolização da própria Rússia, mas da consagração dos dois países beligerantes no sentido de pedir por ambos, de pedir para ambos a paz.

Creio que neste momento não podemos interpretar a Rússia com os olhos com que se interpretava antes, mesmo à luz da mensagem de Fátima. Não se trata de pedir a conversão da Rússia, trata-se de pedir especificamente pela paz e trata-se de pedir pela paz também para a Rússia, para o povo russo.

"A dimensão da paz é parte integrante da própria mensagem de Fátima"

O regresso do Papa, no contexto da Jornada Mundial da Juventude, é um momento inédito nas visitas do Pontífice a Fátima, porque vai ocorrer não numa celebração de maio. Vai ser um momento especial? Como é que vê esta ligação de Francisco à Cova da Iria?

O Papa Francisco reconhece que antes de ter vindo a Fátima, em 2017, não tinha uma devoção muito grande a Fátima e conhecia muito pouco de Fátima. No fundo, aquilo que o tocou e sensibilizou para Fátima foi essa experiência forte que viveu aqui nos dias 12 e 13 de maio de 2017. É verdade que já tinha feito uma experiência forte em 2013, com a ida da imagem ao Vaticano e como uma celebração mariana presidida por ele, mas esta ligação a Fátima tem o seu ápice, o seu momento culminante com a vinda por ocasião do Jubileu.

Agora é diferente. Agora trata-se do regresso a Fátima. O Papa disse, e disse-o várias vezes e a diversos interlocutores, que não punha sequer a hipótese de voltar a Portugal sem voltar a Fátima.

Creio que aqui, num outro contexto, já não é o contexto de uma grande peregrinação: o Papa quer vir como peregrino, quer vir para rezar ao santuário. Não conhecemos ainda o programa do Papa, estamos na expectativa. Certamente será uma vinda para rezar, mas obviamente será sempre uma vinda para rezar acompanhado por uma grande multidão que aqui se reunirá para rezar com o Papa.

E será uma oportunidade também para reforçar a comunicação entre Fátima e as novas gerações?

Eu tenho essa convicção de que a vinda do Papa no contexto da Jornada Mundial da Juventude terá uma importância fundamental no sentido de projetar Fátima também a população mais jovem.

A experiência que eu fiz, por exemplo, no Panamá, na última Jornada Mundial da Juventude, em que a imagem de Nossa Senhora - a Imagem Peregrina - foi também e esteve inserida em momentos do programa, foi, por um lado, do reconhecimento da invocação de Nossa Senhora de Fátima. Quando a imagem, na vigília, percorreu todo o largo espaço onde os jovens estavam, o interessante não foi notar, simplesmente, que os jovens reagiam a uma invocação mariana. Os jovens reagiam sabendo que era a imagem de Nossa Senhora de Fátima e cantavam o "Av´" e acenavam com lenços brancos. Isto é, havia uma clara identificação daquela invocação e muita gente, quando no dia seguinte foi anunciado que a próxima jornada seria em Lisboa, muita gente veio dizer-nos "vamos estar em Lisboa porque queremos ir a Fátima, nós não podemos ir a Lisboa sem ir a Fátima".

Essa perspetiva já existe em muitos jovens e estou convencido que muitos outros ficarão cativados por esta experiência. Por isso, desde o anúncio da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa que o Santuário procurou começar a preparar-se para esse acontecimento. Manifestou, desde o início, aos responsáveis toda a disponibilidade para colaborar naquilo que fosse necessário e temos mantido sempre essa colaboração para procurar que Fátima seja momento da jornada.

"Assistimos já a um aumento significativo de peregrinos vindos da Ásia"

D. José Ornelas, bispo de Leiria- Fátima, disse numa entrevista recente à Ecclesia que o Santuário também pode ser um pólo de ação na defesa dos direitos das crianças, até dando o contexto das aparições terem sido dirigidas a três crianças. Como vê esse desafio tendo em conta o momento que se vive na Igreja Católica em Portugal?

O desafio do senhor D. José Ornelas parece-me que é um desafio enorme também para o Santuário. O Santuário teve sempre alguma pastoral voltada para as crianças.

A peregrinação anual…

Não apenas a peregrinação anual, embora seja o momento culminante, o momento de maior visibilidade e mais conhecido. Temos também outras propostas que se fazem desde as escolas, aos grupos de catequese, permitindo-lhes passar por Fátima, visitar Fátima, conhecer melhor Fátima. Temos muitas atividades com escuteiros, nomeadamente com os mais novos, com os "lobitos", temos vindo a trabalhar com o Corpo Nacional de Escutas. Portanto, a pastoral das crianças tem estado presente na vida do Santuário.

As palavras de senhor D. José alertam-nos para uma outra dimensão, que é toda a dimensão do cuidado com as crianças e, portanto, toda uma dimensão que teremos de desenvolver, uma vez que não a temos desenvolvido, a não ser em relação àquilo que são instituições dedicadas ao apoio de crianças em situação muito especial, seja por motivo de saúde, seja por desagregação familiar.

Isto lança-nos um novo desafio. Obviamente, Nossa Senhora escolheu crianças como interlocutoras. A mensagem de Fátima é muito mais do que uma mensagem dirigida a crianças, mas o facto de Nossa Senhora ter escolhido crianças como interlocutoras, o facto de os dois santos de Fátima serem duas crianças, Francisco e Jacinta, faz com que esse desafio, seja um desafio a que o santuário não possa, de forma alguma, ficar alheio.

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