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Entrevista a Isabel Sanchéz

“Papel da mulher e do homem é visto de maneira antagónica e isso não nos leva a lado nenhum”

02 jun, 2022 - 06:20 • Ana Catarina André

A espanhola que dirige o conselho de mulheres do Opus Dei considera que o papel feminino na Igreja é estudado de modo redutor e afirma que muitas tarefas atribuídas a sacerdotes poderiam ser desempenhadas por leigos. “O horizonte mais amplo e mais apaixonante é que cada cristão se sinta a cumprir a missão divina no mundo.”

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Isabel Sanchéz, secretária central da assessoria do Opus Dei, defende que “a mulher tem de ser valorizada no mundo laboral e o homem tem de ser descoberto no mundo dos cuidados”. A espanhola, que é considerada a mais poderosa na prelatura, esteve em Lisboa para apresentar o seu primeiro livro, "Procurar o Norte Num Bosque de Desafios", onde conta histórias de mulheres inspiradoras.

Em entrevista à Renascença, Isabel Sanchéz, que vive em Roma e trabalha com 50 mil mulheres de 70 países, afirma que o Opus Dei continua a ser visto com preconceito. E defende que o feminismo sempre foi visto a partir de uma perspetiva guerreira, mas diz que “agora estamos num momento de construir juntos”.

Dirige há uma década o conselho de mulheres que presta assessoria ao prelado do Opus Dei. Qual é exatamente a sua função deste conselho?

Este conselho é composto por nove mulheres que prestam assessoria ao prelado do Opus Dei em programas de formação, iniciativas para a mulheres. Fazemos sugestões, recomendações e temos o poder para vetar algo que o prelado queira propor. Na realidade, a nossa função não é negativa. É mais propositiva.

Que tipos de temas e iniciativas se discutem?

Tudo o que tem, por exemplo, a ver com a família: que tipo de formação podemos oferecer para que possam crescer unidas, fortes, sãs, para expandir a fé. Outros dos temas é a juventude. Temos na juventude o futuro de toda a Igreja – e aqui em Portugal sabem-no bem. Como diz o lema desta Jornada Mundial da Juventude, temos a esperança de que se levantem e partam apressadamente

É um papel pastoral?

Sim. Um papel de decisão e um papel de fantasia criativa, esse que a mulher acrescenta quando está em posições de liderança. No livro que escrevi, e que agora vim apresentar a Portugal, explico que uma parte deste trabalho se faz no escritório, como em muitos trabalhos.

Outra parte é passada em viagens, saídas, para conhecer as pessoas de carne e osso que estão a tentar tornar vivas as mensagens de São Josemaría Escrivá, em mais de 70 países. Procuro conhecer como vivem, saber a que coisas se propõem, que necessidades encontram à sua volta, porque daí saem iniciativas que promovem a mulher cristã.

Nesses países por onde vai passando, vê muitas diferenças na forma como as desempenham a sua atividade na Igreja?

São as diferenças de cada sociedade, desde logo, mas o maravilhoso que vi é o espírito cristão que leva cada pessoa a dar o melhor de si, a aspirar à santidade. Na Nigéria, por exemplo, há uma universidade que tem uma mulher como reitora. No livro conto a história de Pilar Deza, que criou um orfanato porque encontrava muitas crianças abandonadas na rua.

É apresentada, muitas vezes, nos meios de comunicação como a mulher com mais poder do Opus Dei. Isso significa exatamente o quê?

Um título que teria apagado é isso que significa. É certo que dirijo um conjunto de pessoas que está muito próxima do prelado, mas sabemos que na Igreja temos poder para servir. Todo o poder que poderia ter quero pô-lo à disposição, ao serviço de todas as pessoas, famílias que nos perguntam como viver, como deixar a semente da fé ao seu redor para daí retirar iniciativas de bem.

A complexidade do mundo atual não pode fazer-nos passar por cima uns dos outros.

O papel das mulheres na Igreja está aquém daquele que poderia ser?

O papel da mulher e do homem na sociedade é visto de maneira antagónica e isso não nos leva a lado nenhum. O papel da mulher na Igreja, às vezes, é estudado de modo redutor, porque o que está em jogo é o papel dos cristãos leigos na Igreja. Talvez tenhamos funções exercidas por sacerdotes que, na realidade, poderiam ser desempenhadas por leigos.

O horizonte mais amplo e mais apaixonante é que cada cristão se sinta a cumprir a missão divina no mundo, no local onde está, no trabalho, numa fábrica, numa estação espacial. O papel de um cristão aí é insubstituível e esse não pode desempenhá-lo outro. Esse é o papel do homem e da mulher na Igreja, o primordial. Oxalá nos dessemos conta disso. Aí aspiraríamos à santidade.

É uma nova visão sobre o feminismo que procura apresentar?

No livro tento explicar que o Cristianismo confere uma enorme dignidade, tanto ao homem como à mulher. A complexidade do mundo atual não pode fazer-nos passar por cima uns dos outros. O mundo atual precisa do talento de todos.

Creio que só assim poderemos construir, ir em frente. A mulher tem aí um papel crucial. Tem características para aportar ao mundo que não chegaram a fecundar alguns âmbitos onde até agora não estava, muitos mares onde não navegava. Há que aprender a navegar com outra carta de navegação.

Creio que a chave da transformação não está na organização da Igreja, na hierarquia ou na burocratização. Está no mundo onde estão os nossos semelhantes.

Há uma tendência para que o discurso sobre o papel de homens e mulheres na sociedade seja polarizado. É um discurso necessário para que as coisas mudem?

Creio que a chave é que todos aprendamos a dialogar em muitos campos, mas neste também. A mulher tem de ser valorizada no mundo laboral. O homem tem de ser descoberto no mundo dos cuidados. Uns e outros têm de se ouvir para verem o que de positivo lhe oferece o companheiro, a companheira, marido, a mulher, o amigo, a amiga.

Passa muito pelo diálogo, parece-me. Passa também por não nos deixarmos manipular por uma espécie de publicidade desta guerra. O feminismo sempre foi visto numa chave guerreira. A mulher venceu batalhas, conquistou postos. Estamos agora num momento de construir juntos, sendo assertivas, ambiciosas, proativas, querendo contribuir humildemente em todos os âmbitos.

Mencionou há pouco que muitos sacerdotes desempenham funções que poderiam ser atribuídas a leigos. Esta parece-lhe ser hoje uma das chaves de transformação da Igreja?

Não diria que é chave. É uma parte importante. Há lugares ocupados por sacerdotes que poderiam ser ocupados por leigos e isso merece um crivo. Mas creio que a chave da transformação não está na organização da Igreja, na hierarquia ou na burocratização. Está no mundo onde estão os nossos semelhantes. No final, muito mais do que estruturas, o que vamos transformar são os corações das pessoas. Só estando a seu lado e compreendendo os seus problemas, fazendo-os nossos, pode haver transformação. É muito importante o diálogo com os demais.

O Opus Dei separa homens e mulheres em muitas das suas estruturas organizativas. É uma separação que continua a ser pertinente hoje?

Talvez essa apreciação possa ocorrer por falta de perspetiva. O Opus Dei é composto por 90 mil pessoas, sendo mais as mulheres do que os homens.

Quantas mulheres são?

Cerca de 50 mil. Dessas 70% delas são supranumerárias, ou seja, casadas ou chamadas ao matrimónio. Imagine que queríamos separar estes casais? Não podemos, homens e mulheres estão juntos.

No entanto, é verdade que São Josemaría dizia que, às vezes, as atividades de formação espiritual poderiam ser mais eficazes se homens e mulheres estiverem separados, como em muitas coisas do quotidiano. Às vezes, combinamos um café de mulheres porque há temas, há perspetivas... Não se trata de uma separação que segregue, mas que recarregue as características de cada um e nos leve a estar unidos.

Este mundo acelerado em que vivemos vai deixar-nos numa encruzilhada: ou nos leva à era da dignidade ou à era do descarte.

Está em Portugal para o lançamento do livro "Procurar o norte num bosque de desafios". É este desejo de encontrar um norte que perpassa as diferentes histórias?

O livro nasce da ideia da existência de um mundo que nos dói. Temos chagas. Estamos desorientados e confusos sobre nós, sobre o que nos rodeia. Às vezes, pomos todas as energias numa direção que afinal é a errada, que nos enche de vazio. Então pensei: ‘O que posso eu mostrar?’ Mulheres que encontraram um norte nas suas vidas. Esse norte, às vezes, é alguém a quem amar. Isso foi o que lhes deu direção, força, propulsão.

Muito do que a sociedade atualmente propõe está longe dessa busca desse sentido...

Talvez o coração deste livro seja tentar chegar a uma cultura do cuidado. O que escolho no dia a dia faz-me cuidar dos que mais amo. Faz-me estar com os que quero. Se isso não acontece, o trabalho, que pode ser um dos nortes, converte-se num amigo mortal. Se isso não acontece, muitas das coisas que nos prometem acabam por revelar-se uma falácia.

Sempre me inspirou muito o ensinamento do Papa Francisco de chegarmos à cultura do cuidado. Este mundo acelerado em que vivemos vai deixar-nos numa encruzilhada: ou nos leva à era da dignidade ou à era do descarte. O livro tenta chamar a atenção para as nossas escolhas, para podermos optar por coisas que nos conduzam à vida, ao positivo e não à autodestruição.

Conta inúmeras histórias no livro. Qual é a que a impressionou mais?

Há duas histórias que costumo contar. Uma é a de Maria, uma pessoa que foi abandonada pelo marido que reapareceu 25 anos depois, meio-morto, bêbado. Maria incentivou um dos seus filhos, já com 25 anos, a ir ao hospital visitar o pai. Sabia que ele se arrependeria de não ter feito algo de positivo pelo pai.

Com o tempo, esta relação pai/filho vai-se tornando mais forte e, um dia, este filho convida o pai para ir a sua casa, o mesmo homem que abandonou a sua mãe com os filhos pequenos. No livro, relato o debate interior de Maria, uma pessoa que, quando está na cama a morrer, conta ao médico que o melhor que fez na vida foi acolher aquele homem em sua casa, servir-lhe aquela refeição, como se fosse a esposa mais querida do mundo.

Fê-lo pelos netos. Queria deixar-lhes uma herança de amor, de perdão. É uma história que representa a grande escala que os nossos atos pequenos podem adquirir.

São histórias de uma liderança improvável.

São líderes do dia a dia, líderes que realizam pequenas ações. É aí que jogamos o nosso próprio destino, nos tornarmos melhores, e consequentemente melhoramos aquilo que nos rodeia. Falando de líderes grandes, encanta-me a história de Tiziana Benardi, uma empresária italiana que se dispôs a cuidar dos seus empregados, para que fossem muito felizes e para que, através do seu trabalho, fizessem felizes as suas famílias e o seu país.

Esta mulher mudou a cultura da sua empresa. Tornou as mulheres visíveis, conseguiu mudar as políticas de maternidade. Nasceram muitos bebés. Além disso, optou por metas ecológicas: de cada vez que nascia um bebé, era plantada uma árvore. Quando me contou a história, disse-me: "Isabel, agora temos sete bosques".

Como vê a relação entre liderança e poder?

Penso que a mulher tem mostrado, enquanto líder, que o poder se transforma em serviço aos outros. É um poder integrador, inovador, compassivo.

Penso que temos uma tradição de histórias mal contadas. Talvez também não nos tenhamos sabido contar: o bom, o mau, o que temos.

O Papa Francisco abriu formalmente os ministérios de leitor e acólito a leigos, homens e mulheres. Como é que vê este processo em curso na Igreja?
Parece-me que o Papa Francisco está a ter um papel muito bom, muito lúcido. Parece-me que está a tentar dar muito mais protagonismo aos leigos. Creio que é sensível àquilo que a mulher traz de novo. Nota-se. É um Papa atento à voz da mulher e às suas possibilidades.

Falando agora sobre a prelatura. Considera que o Opus Dei continua a ser olhado com preconceito?

É verdade. Usou a palavra correta. Há preconceito, pré, anterior. Curiosamente, um preconceito pode mudar. Desejamos que as pessoas saibam o que é isto, que maravilha de mensagem é esta. Este é um caminho que quer chegar à santidade.

Há preconceitos sobre perfeição, mas esta é uma casa cheia de pessoas vulneráveis, com todo o tipo de problemas. Queremos construir a mesma Igreja. Queremos o mesmo Jesus Cristo. Penso que temos uma tradição de histórias mal contadas. Talvez também não nos tenhamos sabido contar: o bom, o mau, o que temos.

Temos agora uma oportunidade muito boa, o centenário da obra. Foi-nos pedido que olhemos para o passado, para descobrir a nossa história, a nossa identidade, que sonhemos com o futuro, que melhoremos e que também peçamos perdão.

Se há preconceito? Na verdade, queremos colaborar com muita gente. Venham vejam, queremos falar. Não temos problemas, porque estamos muito contentes com o que Deus nos deixou nas mãos. Queremos partilhar um tesouro.

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