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375 anos da Coroação de Nossa Senhora da Conceição. “Só há vida quando há raízes”, diz arcebispo de Évora

22 mar, 2022 - 18:00 • Rosário Silva

Para D. Francisco Senra Coelho, em entrevista à Renascença, celebrar os 375 anos da Coroação de Nossa senhora da Conceição como Padroeira de Portugal, é celebrar a “dimensão da esperança”, num Portugal cheio de História, com “marca e identidade” cristãs e profundamente devoto de Nossa Senhora.

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O Santuário de Fátima recebe, na quinta e sexta-feira, o congresso internacional “Mulher, Mãe e Rainha”, promovido pelo Instituto da Padroeira de Portugal para os Estudos da Mariologia e que assinala os 375 anos da Coroação de Nossa Senhora da Conceição

O evento surge numa altura particularmente desafiante, num “momento de violência na Europa”, destaca o arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, em entrevista à Renascença.

O programa do congresso encerra em Vila Viçosa, no sábado, dia 27, onde vão estar expostas também as três coroas de Nossa Senhora em Portugal: Senhora da Conceição (Vila Viçosa), Sameiro (Braga) e Fátima.

Os 375 anos da Coroação de Nossa Senhora da Conceição como Padroeira de Portugal vão ser assinalados, entre 24 e 26 de março, com o congresso internacional “Mulher, Mãe e Rainha”. Porquê celebrar esta efeméride?

É uma memória que importa celebrar com uma dimensão de esperança, porque só há vida quando há raízes. Esta grande árvore que se chama Portugal, com nove séculos de História, tem raízes muito profundas. São raízes com marca cristã, com identidade, onde Nossa Senhora aparece de um modo distinto. Podemos dizer que a História de Portugal é constantemente acompanhada pela grande devoção deste povo a Nossa Senhora. Por isso, chamamos a Portugal, Terra de Santa Maria.

É curioso que, logo, D. Afonso Henriques dedicou Portugal a Nossa Senhora, se fosse independente, se fosse reino e ofereceu-lhe um troféu importante, o Mosteiro de Alcobaça, com a vinda dos Cistercienses. Depois, quando se deu a grande questão da nossa Independência, na crise 1383 1385, D. João I renova essa mesma promessa. Se conseguíssemos a nossa Independência, o Mestre de Avis faria uma grande proclamação, através do Mosteiro da Batalha, em ação de graças. É nesse contexto, e é muito interessante perceber isso, que Nuno Álvares Pereira faz melhoramentos na Igreja do Castelo de Vila Viçosa e traz a imagem de Inglaterra e coloca-a, Nossa Senhora dos Anjos, com dois anjos, atualmente repostos no seu contexto natural.

Mais tarde, vai ser muito importante para Portugal a descoberta do caminho marítimo para a Índia e D. Manuel I faz a promessa que se chegássemos por mar a essas terras das especiarias, que aliviariam imenso a economia portuguesa, ofereceria a Nossa Senhora um grande sinal: Nossa Senhora de Belém, Mosteiro dos Jerónimos.

D. João IV, o Duque de Bragança, faz exatamente proclamar Nossa Senhora, Padroeira de Portugal, na sua ermida reconstruída, e, ao mesmo tempo, ampliada pelo rei D. Sebastião, o atual Santuário de Vila Viçosa, fazendo nela repousar a coroa da Pátria. É interessante que os dois grandes momentos aflitivos da Independência de Portugal, 1383-1385 e 1640, respetivamente com D. João I e D. João IV, cruzam se em Vila Viçosa. Na primeira crise, vem a imagem de Inglaterra, por S. Nuno de Santa Maria, e, vencida a segunda crise da nossa Independência, em 1640, é proclamada Padroeira.

Pode então dizer-se que Vila Viçosa reveste-se de uma extraordinária importância na nossa História?

Vila Viçosa sintetiza a ajuda do céu, à nossa independência, ou seja, à nossa liberdade, à proclamação deste povo, com o seu direito a ser povo. Falamos de liberdade, falamos de esperança. A esperança de uma Pátria que oferece aos seus filhos, uma liberdade de serem, com identidade, aquilo que a sua própria genética, o seu ADN nacional, trazia e que era essa grande aspiração à independência. Nós queremos dizer que, hoje, Vila Viçosa é uma esperança, é um futuro, porque estas raízes manterão esta árvore viva e é importante ir às raízes para percebermos a identidade de um povo. Não escamotear aquilo que é verdade histórica e perceber que é importante renovar a raiz para que a árvore seja viçosa, dê flor e fruto. É a liberdade, é Portugal.

Daí, a importância e a atualidade deste congresso?

Completaram-se os 375 anos, exatamente em 2021. Foi proclamado, então, um Ano Mariano, dedicado a Nossa Senhora da Conceição, e, inclusivamente, o Santo Padre, o Papa Francisco, fez a oferta da indulgência plenária durante todo o ano e proclamou este Jubileu como acontecimento remissivo e misericordioso de Deus para todos os que quisessem ir rezar a Vila Viçosa, e pedir a Deus, por intercessão de Nossa Senhora, perdão dos seus pecados.

Agora, vamos encerrar, já passando 376 anos, tendo em conta a situação de Covid que tivemos que enfrentar. É importante, contudo, referir que estamos enriquecidos com toda esta caminhada que nos foi proporcionada com vários momentos altos, como foi a possibilidade da ordenação em Vila Viçosa de um diácono ou de um presbítero de uma congregação religiosa. Houve momentos muito fortes no Santuário durante este Ano Jubilar. A pandemia acabou por criar a possibilidade de pararmos e aprofundarmos Vila Viçosa.

Este congresso encerra todo um ano atípico, mas seguramente muito significativo. Que preocupações estão inerentes a este grande evento?

Olhe, este congresso tem uma preocupação que é passar da devoção do culto ao cultural, ou seja, aprofundarmos a vitalidade das próprias raízes. Escavarmos, teologicamente, através da Mariologia da Eclesiologia, e, historicamente, através de toda a dimensão que este caminhar de Portugal com Maria, guarda, para descobrirmos novidade, encontrarmos novos olhares e abrir janelas para o futuro.

Isso traduz-se no programa que foi definido?

Sim. Vamos ter, por exemplo, uma primeira sessão dedicada à Historiografia, que nos pode trazer, de facto, novidades. Há uma segunda sessão com os fundamentos bíblicos da Marialogia, ou seja, toda a oratória sacra, toda a poética, tudo aquilo que na literatura aparece na dimensão de olhar e contemplar na beleza, Maria. Teremos também uma outra sessão sobre as representações institucionais, plásticas e artísticas de Nossa Senhora. A iconografia, esta grande marca que se estendeu além-mar por terras do Brasil, de Angola, de Moçambique, Timor, de Macau para o Oriente. Queremos, portanto, descobrir estas peugadas marianas na cultura dos povos.

Vamos ter também um momento muito profundo que será olhar para religiosidade popular, discursos teológicos e vivências culturais. De facto, só quando se torna cultura, quando se entranha na vida de um povo, podemos dizer que uma devoção atinge plenamente a naturalidade, a respiração, como o ar e a água. E, Nossa Senhora entrou na religiosidade popular, na poética popular, no canto alentejano, entrou um nos aforismos, nos ditados, naquilo que é a sabedoria de um povo e, ao mesmo tempo, em discursos teológicos e vivências culturais de grande riqueza, onde se procurou encontrar na Senhora, a força, a coragem, a esperança, e muitas vezes, também, a consolação e a ternura para os momentos duros que cada comunidade viveu. Por isso, nós queremos ir mesmo até ao concreto, não ficarmos apenas na instituição Igreja, no eclesiástico, mas queremos ir ao eclesial, queremos ir ao povo de Deus, queremos experimentar e bater à porta de uma história vivida pela comunidade cristã, porque o povo de Deus, como nos lembra o Concílio Vaticano II, a Igreja, não são apenas aqueles que vão à Igreja, mas são a Igreja.

Depois desses dias, em Fátima, o congresso encerra na arquidiocese de Évora, em Vila Viçosa. O que é que vamos ter?

Vamos ter um momento muito bonito e eu espero que o saibamos aproveitar, porque precisamos muito. Vivemos um momento, que eu referiria como um futuro opaco, baço, assim com nevoeiro. Não vemos muito longe. Vivemos um momento de violência na Europa. Há alusões impressionantemente fáceis ao recurso nuclear, um tema que devia ser interdito e nem sequer nunca referido. Fala-se no evitar de uma terceira guerra mundial e queremos pensar que tudo isto são miragens e pesadelos que não passem disso mesmo e que ao acordar, graças a Deus, sentirmos que não eram mais do que monstros sonhados.

Mas, vivemos também um pós-pandemia com consequências sociais, com grandes movimentações populacionais, de modo especial do povo que chega da Ucrânia e Portugal é assim, um berço, um colo, é um povo acolhedor e, por isso, se vai tornando uma espécie de segunda Pátria. É uma situação que necessita de momentos de grande esperança, consolação, afago e ternura.

Assim, no dia 26, pelas 21h00, vamo-nos juntar na Igreja dos Agostinhos, junto ao Seminário de São José, e vamos sair em procissão presidida por D. Rino Fisichella, que vem de Roma e é responsável pelo Dicastério dedicado à nova evangelização e por organizar o próximo Ano Santo da Redenção, em 2025. Esta procissão culminará com uma eucaristia. É possível que tenhamos a presença do senhor Presidente da República, ainda não está confirmado, e do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. No domingo, recordo que muda a hora nesse fim-de-semana, teremos a eucaristia às 10h30, não às 11h00 como era nosso desejo, porque é transmitida pela RTP 1, e, por isso, o horário é condicionado aos tempos da televisão. Vai ser presidida pelo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. José Ornelas, uma vez que eu propus que este acontecimento transcendesse a arquidiocese de Évora, sendo um acontecimento da CEP, onde vão marcar presença quase todos os bispos de Portugal. Queria também salientar que será renovada a consagração a Nossa Senhora.

Da parte da tarde, teremos possivelmente, a assinatura de um protocolo entre várias instituições, como a arquidiocese de Évora, nomeadamente a Régia Confraria de Nossa Senhora da Conceição, a Câmara Municipal de Vila Viçosa, a Direção Regional de Cultura do Alentejo e a Fundação Eugénio de Almeida, para o apoio a um projeto de recuperação do Santuário de Vila Viçosa, que precisa de algumas obras.

Para terminar, senhor arcebispo, é importante sublinhar também que este acontecimento não envolve apenas o Santuário de Vila Viçosa?

Sim, é bom salientar que este acontecimento reúne Vila Viçosa, Fátima e Sameiro. Os três santuários unidos à volta da Padroeira. E, como tal, queremos dar um sentido de unidade muito grande com a exposição das três coroas de Nossa Senhora. A coroa de Nossa Senhora de Fátima, é a coroa que Ela leva nos dias 13 de maio e outubro, e onde está a bala que atingiu o Papa João Paulo II. Vai estar também a grande coroa, porque é a mais pesada e a mais valiosa, materialmente falando, em ouro, da Senhora do Sameiro. Estará, naturalmente, a nossa coroa da Senhora da Conceição, que é a coroa Mãe, dedicada a Nossa Senhora por D. João VI, quando fomos libertos da presença francesa, da ocupação do nosso território, e o Rei pôde regressar do Brasil. Em ação de graças, ofereceu essa coroa. A coroa de D, João IV, a primitiva, não a possuímos, não sabemos o seu destino, não sabemos se se perdeu no tremor de terra ou se foi levada pelos franceses. Portanto, há muitos e bons motivos para que saibamos aproveitar esta ocasião importante e, já agora, que a nossa arquidiocese de Évora, corra a Vila Viçosa.

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