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Refugiados sentem “muita dificuldade no mercado de arrendamento”

07 dez, 2021 - 15:12 • Henrique Cunha

A denúncia é do Serviço Jesuíta aos Refugiados, que fala na “existência de barreiras artificiais” que prejudicam o acolhimento em Portugal. Até ao momento, foram acolhidos 500 refugiados afegãos e há mais a caminho.

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O diretor do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS), André Costa Jorge, revela a existência de dificuldades por parte dos refugiados para arrendar casa e a existência de “receios infundados” de quem as pode arrendar.

Em entrevista à Renascença, Costa Jorge lembra que, “para que estas pessoas possam viver com o máximo de normalidade em Portugal, é preciso pensar em coisas muitas práticas e do apoio de todos”.

Por isso, não se cansa de alertar contra “essas barreiras artificiais baseadas em receios infundados que encontramos no mercado de arrendamento de habitação, que tornam o processo de acolhimento mais difícil”.

E lembra que “a nossa capacidade de acolhimento e a nossa resposta aos desafios lançados pelos nossos governantes depende também da capacidade que temos de acolher cada família".

Exige-se “um apoio mais claro e robusto a quem acolhe”

O Serviço Jesuíta aos Refugiados já acolheu 260 pessoas afegãs e está disponível para acolher mais e “continuar a ajudar no esforço que o país está a desenvolver para prosseguir com o acolhimento de refugiados do Afeganistão”.

Até ao momento, Portugal recebeu 500 refugiados afegãos e vai acolher mais, de acordo com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, à Renascença.

André Costa Jorge revela que já foi contactado para acolher mais pessoas, mas alerta para a necessidade de haver, da parte do Estado português, "um apoio mais claro, mais forte e mais robusto" a quem acolhe.

O responsável refere que o JRS tem vindo “a conversar com o Governo, com os responsáveis quer na Secretaria de Estado das migrações, quer com o Ministério dos Negócios Estrangeiros e temos manifestado a disponibilidade de sempre de participar em processos de acolhimento e acompanhamento de refugiados e apoio no seu processo de integração em Portugal”.

“Naturalmente que também queremos ver, do lado dos responsáveis políticos, e do Estado português um apoio mais claro, mais forte, mais robusto a quem está no terreno a fazer o acolhimento”, refere Costa Jorge, adiantando ter tido também a oportunidade de “fazer chegar esta nossa preocupação junto dos decisores políticos".

JRS constrói Centro de Acolhimento em Vendas Novas

O Serviço Jesuíta aos Refugiados não só acolheu 260 pessoas afegãs, como iniciou “um programa de comunidades de hospitalidade que procurarão que estas pessoas que estão em estruturas de acolhimento e estruturas de emergência possam sair para casas, para habitação autónoma e possam ter o apoio de uma comunidade que os acolha”.

Além disso, André Costa Jorge revela que, “em parceria com a Arquidiocese de Évora, paróquia de Vendas Novas”, o JRS “está a construir um centro de acolhimento”.

“O Papa leva um grupo de refugiados para o Vaticano e nós queremos fazê-lo na nossa realidade portuguesa”, justifica o diretor do Serviço Jesuíta aos Refugidos.

Igreja deve “participar ativamente no acolhimento e na hospitalidade”

Nesta entrevista à Renascença, André Costa Jorge sublinha a importância da mensagem deixada pelo Papa na sua mais recente viagem ao Chipre e à Grécia sobre a necessidade de se acolher os migrantes e, em particular, as duras palavras de Francisco em relação à possibilidade utilização de fundos comuns para se construírem barreiras.

O responsável do Serviço Jesuíta aos Refugiados afirma que o financiamento de barreiras artificiais alimenta "o mercado paralelo dos traficantes”.

"Enquanto nós não percebermos que temos de criar vias legais e seguras para as migrações, estamos a alimentar os traficantes, e quando nós financiamos barreiras artificiais ou reforçamos as que são naturais – no caso do Mediterrâneo – nós estamos a alimentar o mercado paralelo dos traficantes, a aumentar o preço de migrar, a tornar mais caro migrar”, sublinha.

Por outro lado, André Costa Jorge recorda que “só aqueles que mais podem é que conseguem migrar, porque todos aqueles que estão em busca de salvação, e em busca de proteção, esses não têm hipóteses, pois ficam na fronteira sujeitos a todo o tipo de violência e abuso e sujeitos também à morte porque entram muitas vezes em migrações forçadas e em esquemas ilegais".

André Costa Jorge entende que as palavras do Papa são também uma interpelação à Igreja europeia e portuguesa. O responsável apela "aos bispos portugueses e à Igreja, nas suas realidades locais, para participarem ativamente no acolhimento e na hospitalidade".

"Não basta estarmos preocupados. Se não fizermos nada, nada acontecerá", reforça.

O diretor da JRS entende que “na Igreja portuguesa temos de pensar o que é que temos feito para fazer da hospitalidade, deste desafio do Papa uma ação concreta e como é que a Igreja está a responder ao acolhimento, ao desafio”.

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