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Autárquicas 2021

Há muito em jogo no concelho mais pequeno do país

21 set, 2021 - 06:30 • Júlio Almeida

João Almeida, que lidera a coligação PSD/CDS/Iniciativa Liberal, quer impedir continuidade do PS em S. João da Madeira, concelho do ministro Pedro Nunos Santos.

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Autárquicas em São João da Madeira - Reportagem de Júlio Almeida
Autárquicas em São João da Madeira - Reportagem de Júlio Almeida

PSD e CDS, agora com apoio também da Iniciativa Liberal, formaram em S. João da Madeira uma nova coligação encabeçada por João Almeida. O deputado centrista compromete-se ficar dedicado exclusivamente à função de autarca, afastando nova incursão na liderança partidária.

Para já, tem de recuperar a câmara perdida em 2017 para o socialista Jorge Sequeira, também líder da distrital 'rosa'. Os três partidos dominam os órgãos autárquicos locais, onde a CDU completa a lista das forças partidárias com representação no concelho mais pequeno do país.

"O centro industrial mais importante do distrito de Aveiro". Este é um dos principais argumentos presentes no decreto de emancipação concelhia de S. João da Madeira, em 1926, levando à separação de Oliveira de Azeméis.

A indústria dos chapéus e do calçado, hoje retratada através de relevantes espólios museológicos locais, começou a ganhar força no século XIX e manteve-se até aos nossos dias. S. João da Madeira é mesmo conhecida como 'Cidade do Labor" e disso tem orgulho.

Indissociável da história industrial do concelho é, também, a antiga fundição OLIVA, marca popularizada pelas suas máquinas de costura, um colosso metalúrgico onde chegaram a trabalhar três mil pessoas. Restam as paredes do emblemático complexo fabril de arquitetura moderna, hoje reconvertido para centro de arte moderna e serviços vários, como uma incubadora de empresas.

José Esteves, 80 anos já feitos, trabalhou ainda moço como sapateiro antes de passar a fundir ferro. Na altura, não faltavam empresas a pedir mão de obra.

"A OLIVA era uma grande empresa, dava trabalho a centenas e centenas de pessoas, não só em S. João, como destas redondezas todas. Também passei pelo calçado, nessa altura o que existia mais aqui era calçado, chapéus, camisas. Foi sempre uma terra industrializada. Já não é tanto como era agora, havia mais empresas a funcionar. Agora é capaz de existir menos, mas com mais pessoal", lembra o antigo metalúrgico desafiado a contar as suas memórias por um grupo de amigos com quem vai passando o tempo na Praça Luís Ribeiro, a zona central mais antiga da cidade que foi requalificada no atual mandato. Intervenção precedida da demolição ocorrida em 2017 de um polémico elemento escultório que ali existia em forma de chaminé, mas conhecido localmente como 'pirilau'.

Os pequenos comerciantes sorriem mais depois do desconfinamento. Maria José, dona de uma sapataria, instalou-se no centro em busca de mais clientes, que a nova praça está a ajudar a trazer. "Gosto do sítio, gosto mais consoante está", afirmou.

"O único problema é a falta de estacionamento" mais próximo dos estabelecimentos e serviços com a autoridade policial sempre atenta aos 'abusos' em zonas proibidas. "Mesmo nós para descarregar alguma coisa, chegamos aqui e estão sempre os dois lugares cheios. Onde vamos estacionar? Vamos andar às voltas até as pessoas saírem?", questiona Maria José em jeito de lamento.

A gozar a reforma, Carlos Esteves nem por isso deixa de manter rotinas na sua terra de adoção, para onde veio viver ainda novo, reconhecendo que tem havido progresso.

"É uma cidade em que a maioria das pessoas trabalha, o desemprego parece que reduziu muito agora, está tudo em desenvolvimento e oxalá continue a desenvolver", diz Carlos Esteves, sem ver "razão de queixa". Sobre as eleições autárquicas que se avizinham, refere que, para si, "conta mais quem trabalha", sem se interessar pela "cor do partido" com que os candidatos se apresentam. Dá nota positiva ao atual mandato, antecipando assim o voto na continuidade.

Oposição aponta falhas, maioria responde com ações

Os dias de contacto 'porta a porta' para fazer campanha eleitoral não obrigam a grandes percursos em S. João da Madeira, já que tem apenas uma freguesia no seu território de escassos 8,11 km², é mesmo o mais pequeno concelho do país - são recorrentes os debates locais e mesmo tentativas legislativas, até agora frustradas, de anexar freguesias vizinhas, como o caso de Milheirós de Poiares, do concelho de Santa Maria da Feira.


"Precisamos de habitação a preços controlados e cooperativas como tivemos no passado"

De acordo com os últimos Censos, S. João da Madeira tem 22.162 habitantes, um crescimento de 2,1%, o maior da Área Metropolitana do Porto.

Um dado que motiva a reflexão do cabeça-de-lista da CDU para Câmara, Jorge Cortez, 66 anos, engenheiro mecânico, rosto conhecido do PCP local, que já foi vereador pela antiga APU nas longínquas intercalares de 1984.

"A habitação social não tem acompanhado o crescimento do concelho", alerta o candidato, dando conta que "dezenas e dezenas de jovens saíram para o estrangeiro ou para concelhos vizinhos, porque não temos oferta".

"Precisamos de habitação a preços controlados e cooperativas como tivemos no passado, para tornar mais fácil ter casas para jovens", defende o candidato da CDU, apontando, também, a existência de "muitas assimetrias" dentro da cidade, com "lugares onde as ruas ainda parecem que estão como no princípio do século XX". Proposta da coligação liderada pelo PCP: "É preciso urbanizar com qualidade, com zonas verdes adequadas, espaço para continuar a industrializar, que é um factor fundamental".

Os comunistas são um dos quatro partidos com representação na Assembleia Municipal, procurando marcar a diferença entre PS, PSD e CDS, os últimos dois voltam a surgir nestas autárquicas coligados.

João Almeida, deputado na Assembleia da República do CDS, que tem raízes familiares em S. João da Madeira, onde já foi deputado municipal, surge à frente da coligação PSD-CDS-Iniciativa Liberal para enfrentar a recandidatura ao segundo mandato de Jorge Sequeira (PS).


O CDS liderou a Câmara sanjoanense sozinho, com Manuel Cambra, já falecido, durante 17 anos (1984-2001). Castro Almeida recuperou a presidência para o PSD (2002-2013). Seguiu-se Ricardo Figueiredo, de 2013 a 2017 (primeiro sozinho pelo PSD e na ponta final, após as intercalares de 2016, coligado com o CDS).

João Almeida, que concorre com o lema "A melhor cidade do País", não vê razões para a população renovar o mandato da maioria PS, pelo contrário.

"A cidade precisa de políticas públicas que potenciem aquilo que são as suas qualidade naturais, a capacidade de trabalho e sentido empreendedor. Muitas vezes, as pessoas encontram na Câmara obstáculos, o mais marcante são as saídas de empresas durante este quatro anos, ao mesmo tempo que temos uma nova zona industrial, que não foi ocupada. A Câmara tem ficado aquém das expetativas que criou e do que os sanjoanenses precisam", critica o candidato.

João Almeida tem já tem um compromisso para concretizar até ao Natal, se for eleito: criar meia centena de lugares de estacionamento em redor da Praça Luís Ribeiro, o centro da cidade, acreditando que pode ser "a melhor maneira de rentabilizar o estacionamento periférico" que está disponível, "numa gestão integrada" com o estacionamento do mercado municipal, "que inexplicavelmente este executivo não conseguiu concluir em quatro anos".

O candidato acredita que "S. João da Madeira tem a força para ser a melhor cidade do país". Mas, para isso acontecer, a "Câmara tem de remover obstáculos", como a existência de "burocracia inexplicável".

"Se alguém pensa que tenho expetativas partidárias [CDS], lamento desiludir. Eu vou estar mesmo todo o mandato"

Por outro lado, "precisa de criar dinâmicas" para atrair mais população. Com 22 mil habitantes, existem durante o dia cerca de 40 mil pessoas nas escolas e empresas que a falta de habitação não ajuda a fixar. "Os executivos liderados pelo CDS e PSD permitiram que famílias com menos recursos tenham habitação, hoje é preciso tornar essas casas dignas, e ter uma preocupação que não existe: habitação para a classe média baixa, jovens, a custos controlados; e reabilitação urbana no centro, para desenvolver o mercado de arrendamento que não existe".

O atual presidente, que também lidera a federação Distrital do PS, ganhou em 2017 com 55,3 % dos votos (contra 32,2% da coligação PSD-CDS). O recandidato contrapõe às críticas da oposição ações camarárias.

Por exemplo, foi assinado um acordo de financiamento, na presença do ministro das Infraestruturas e Habitação, Pedro Nuno Santos, um 'homem da terra', com várias soluções habitacionais para os próximos seis anos, "um pacote de investimento no quadro do '1º Direito' de cerca de 7 milhões de euros em casas novas, reabilitação, aquisição de casas pelo município para colocar no mercado e soluções novas no arrendamento.

O edil garante, também, que "está a ressurgir o investimento privado" que de 2009 a 2017 só teve um licenciamento. De 2017 até ao presente, foram aprovados 24 prédios de habitação coletiva, com 389 fogos.

Quanto ao estacionamento, Jorge Sequeira rejeita colocar 'marcha atrás' na pedonização das principais ruas iniciada em mandatos anteriores, garantindo que "o projeto global no centro cívico vai aumentar em 37 lugares a disponibilidade de estacionamento, para além de parques a curta distância.

"É uma política certa, não podemos retroceder, ao invés dos tempos de descarbonização e saúde pública. Temos dois parques subterrâneos com 500 lugares que servem perfeitamente, têm uma baixíssima taxa de utilização. O nosso dever como políticos é explicar isto e orientar as pessoas para o correto, não é ceder e colocar 50 carros no centro cívico", afirmou em resposta à coligação PSD-CDS-IL.

Sobre a atividade industrial, que tem sido marcada pelo fecho de algumas empresas de calçado históricas, Jorge Sequeira garante que já foi possível atrair novas empresas graças à disponibilização de lotes nos últimos anos.


"O transporte público no município é gratuito, alargado este ano para todos os utentes, afastando do uso do transporte individual"

Um dos grandes objetivos mobilizadores para o novo mandato do candidato do PS é o plano municipal para a transição energética, que traça a meta de alcançar uma redução de 49% das emissões poluentes até 2030, atingindo a neutralidade carbónica nessa data. O presidente de Câmara e recandidato quer "mobilizar as empresas, as escolas e as famílias para contribuirmos todos", aproveitando os fundos disponíveis. "Demos o exemplo na reabilitação de edifícios, mas tem de ser feito muito pelas empresas, pelos transportes, que é o maior emissão e pelas habitações particulares", apelou.

Concorrem à presidência da Câmara de S. João da Madeira, ainda, Sara Costa (Bloco de Esquerda), Manuel Londreira (Nós Cidadãos) e Pedro Lisboa (Chega).

Almeida quer ser presidente só da autarquia

João Almeida já concorreu à liderança do CDS, mas garante que as ambições autárquicas vão ser o seu foco exclusivo

"Em termos partidários" a sua vida "vai ser totalmente inexistente", tendo a pretensão de "enquanto autarca dedicar-se 100% a S. João da Madeira e aos sanjoanenses".

Portanto, "se alguém pensa que tenho expetativas partidárias, lamento desiludir. Eu vou estar mesmo todo o mandato e, desejavelmente no futuro ainda mais, dedicado a S. João da Madeira", garante João Almeida.

Consenso em torno da Linha do Vouga à espera do Governo

"Na mobilidade, quando falamos da Linha do Vouga não é só para Espinho, mas também para sul, com ligação a Aveiro. É preciso uma linha modernizada, seria muito importante para S. João da Madeira, para a região", defende Jorge Cortez, da CDU.

João Almeida gostaria que "o Governo do PS fosse tão rápido a fazer a requalificação da Linha do Vouga como a fazer powerpoints”.

“Já vimos sucessivos anúncios, não podemos esperar mais, tem de ser requalificada, a ligação em Espinho à Linha do Norte uma realidade integrados na malha de transporte público da AMP, seja qual for o Governo, é uma necessidade sem cor partidária e estamos unidos na região", sublinha o cabeça de lista da coligação PSD/CDS/IL.

Jorge Sequeira argumenta que a Linha do Vouga é uma “ambição da região” e um “investimento a ser conduzido pelo Governo central”.

“É uma ambição da região, com um trabalho intenso dos presidentes da região, estivemos unidos e em sintonia para a modernização da linha. O Governo foi muito sensível e tem uma forte aposta na ferrovia e inscreveu uma verba de 100 milhões no Programa Nacional de Investimentos (PNI) que assegura a modernização de Aveiro a Espinho, é da mais elevada importância. Hoje o transporte público no município é gratuito, alargado este ano para todos os utentes, afastando do uso do transporte individual", sublinha o autarca socialista.

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