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Criopreservação de óvulos não é “garantia absoluta” de gravidez

11 jun, 2024 - 22:00 • Fábio Monteiro , Marisa Gonçalves

No ano passado, 926 mulheres congelaram óvulos em Portugal. Em declarações à Renascença, Miguel Raimundo, médico especialista em ginecologia e obstetrícia, confessa-se “impressionado” com o número. Ana Sofia Carvalho, especialista em ética e professora catedrática, aponta que não estão a ser congeladas "vidas humanas", apenas o material genético que pode dar origem a uma vida.

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Em 2023, 926 mulheres congelaram óvulos em Portugal, um aumento de 65% face ao ano anterior (572), avança o “Expresso” esta terça-feira. Trata-se do número mais elevado desde que há registo.

Das 926 mulheres, apenas sete fizeram a criopreservação no SNS, que “não realiza o procedimento sem motivos de doença”. Ou seja, as restantes 919 fizeram o procedimento no setor privado – e pagaram, de acordo com o semanário, cerca de três mil euros.

Em declarações à Renascença, Miguel Raimundo, médico especialista em ginecologia e obstetrícia, confessa-se “impressionado” com o número. Mas nota também: cada vez mais, há uma “grande sensibilização” para o tema.

“As mulheres estão mais informadas. Os ginecologistas estão mais informados. A própria comunicação social.”

O especialista sublinha não há uma única explicação para o aumento de procura. Ainda assim, arrisca uma leitura do ponto de vista social: “Quem é a pessoa com 30 anos que tem autonomia financeira em Portugal, com os rendimentos em Portugal? Muito poucas. E as pessoas pensam em ter filhos quando tiverem uma autonomia financeira maior.”

Miguel Raimundo recorda que criopreservação de óvulos é algo muito comum, já há algum tempo, noutros países. Nos EUA, por exemplo, “há empresas que incentivam as suas funcionárias a congelar óvulos. Sabem que são mais produtivas aos 30 anos. Então, pagam o congelamento de óvulos aos 30 anos e quando quiserem usar, aos 40, usam”.

Em Portugal, “que saiba não conheço nenhuma empresa que pague ciclos de preservação da fertilidade”. Num futuro próximo, contudo, isso pode mudar. “Vai ser provavelmente um cenário que algumas empresas vão optar para incentivar as suas funcionárias.”

Nos últimos anos, a técnica de criopreservação de óvulos tem vindo a melhorar. Por norma, entre 80 e 90% dos óvulos sobrevivem, “o que dá muito maior conforto para a mulher congelar o seu material genético e depois usar mais tarde”.

O especialista, em todo o caso, deixa um alerta.

“Não é por nós congelarmos os óvulos que vamos ter 100% a certeza de gravidez. Claro que é importante as pessoas congelarem o seu material genético. As pessoas congelam os óvulos, quase com a ideia de que vão ter uma gravidez garantida. Isso não existe na medicina de reprodução. Por muito que as técnicas tenham melhorado, a taxa de sucesso global de uma mulher, entre os 30 e 35 anos, ronda os 50, 60%. Nunca é uma garantia absoluta”, diz.

E acrescenta: “Claro que é mais confortável para a mulher decidir: 'Tenho 35 anos, congelo os meus óvulos, agora vou entrar para esta empresa, quero atingir este patamar, quero atingir esta fonte de rendimento, e não fico preocupada com a fertilidade'. Mas, efetivamente, aquilo também não é 100% certo.”

Necessidade de adiar a maternidade pode ser fator do aumento

Para Ana Sofia Carvalho, professora catedrática do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), problemas oncológicos e necessidades gerais de adiar a maternidade podem estar na base deste aumento do número de mulheres a congelar óvulos.

"Quando uma senhora é submetida a uma quimioterapia, um tratamento mais agressivo há, obviamente, a possibilidade de perda da funcionalidade dos gâmetas, que têm os ovócitos. Nesses casos, é recomendado realmente que se faça vitrificação. É um dos métodos de congelação, que é diferente daquele que é realizado para os espermatozoides e para os embriões", salienta a especialista em bioética.

Outro fator, que "parece um bocadinho evidente" para Ana Sofia Carvalho, é "a questão de as pessoas irem conhecendo mais e, portanto, quando há adiamento da maternidade, deixarem algum stock disponível para quando efetivamente estiverem capazes de fazer face a uma gravidez, terem os ovócitos em condições mais favoráveis, para que realmente possa ocorrer uma fertilização".

"Nós estamos a congelar gâmetas, não estamos a congelar vidas humanas. Estamos a congelar o material que eventualmente, quando colocado junto de um espermatozoide, pode dar origem a uma vida humana. Se não for colocado, não pode", pelo que, do ponto de vista ético, "as situações clínicas são quase eticamente obrigatórias", defende a especialista de ética e bioética.

"Do ponto de vista social", acrescenta Ana Sofia Carvalho, esta é "uma questão de opção e um pouco um sinal dos tempos, e daquilo que são as circunstâncias do Portugal de hoje em dia. Do ponto de vista ético, a questão não se coloca com a mesma acuidade que se coloca quando há a congelação de um embrião".

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