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Toxicodependência

Associação que distribui metadona em Lisboa sem aumento há 16 anos

08 abr, 2024 - 11:30 • João Cunha

Associação Ares do Pinhal, responsável pelas carrinhas de distribuição de metadona em Lisboa, reduz o horário de funcionamento para metade devido a falta de verbas. 1.300 utentes são acompanhados diariamente.

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A Associação Ares do Pinhal, que recupera toxicodependentes e tem duas unidades móveis a funcionar na zona oriental e na zona ocidental de Lisboa, está a informar os habituais utentes que, “face ao orçamento atual disponibilizado para a implementação do Programa Substituição em Baixo Limiar de Exigência”, se vê obrigada “a fazer uma readaptação dos horários de funcionamento” das carrinhas, que passam, a partir de amanhã, a funcionar apenas no período da manhã.

Porque é impossível manter o serviço, tal qual ele está. "Sim, completamente impossível. Chegámos a uma situação em que tivemos de tomar esta decisão, que foi muito ponderada durante muitos anos. Nesta altura, não temos outra hipótese senão fechar os serviços à tarde, mantendo-o na mesma, mas apenas durante o período da manhã", explica Hugo Faria, coordenador da Associação, que explica que os ajustes se deram também ao número de elementos das equipas. Por uma razão simples: "A questão de base é a mesma. O dinheiro que está em causa para este projeto é o mesmo há 16 anos".

Os custos são elevados e, apesar de o contrato do Programa de Substituição em Baixo Limiar de Exigência ter sido novamente assinado entre a Ares do Pinhal, o Instituto para os Comportamentos Aditivos e Dependências, que financia 80% do programa, e a Câmara Municipal de Lisboa, que comparticipa com 20%, o dinheiro não chega para manter a qualidade do serviço.

Basta lembrar que, à taxa de inflação, se junta o aumento do ordenado mínimo, que, em 2006, não chegava aos 500 euros e que, agora, é de 820 euros mensais, o que torna muito difícil manter este serviço.

Hugo Faria, coordenador da Associação Ares do Pinhal  Foto: João Cunha/RR
Hugo Faria, coordenador da Associação Ares do Pinhal Foto: João Cunha/RR

"Eu espero que seja ajustado o valor, que não está de todo ajustado aos tempos atuais. Não há justificação para que assim não seja", confessa Hugo Faria.

"Isto é um programa de saúde no terreno, móvel, que vai ao encontro das pessoas que mais necessitam dele, não apenas para a toma da metadona, mas complementado com uma série de serviços de referenciação de saúde e social", lembra o coordenador da Ares do Pinhal.

Os toxicodependentes são rastreados nas carrinhas móveis para as principais doenças infeciosas e, para os que dão positivo a essas doenças, os técnicos da Associação ajudam nos tratamentos, no encaminhamento para os hospitais e na ligação às consultas, "o que, para a sociedade em geral, é um grande benefício".

Vai fazer diferença

Frente a uma das saídas de emergência da ETAR de Alcântara, por volta das oito da manhã, já várias viaturas se amontoavam, enquanto a carrinha da metadona não chegava. Já parada no local habitual, começa a formar-se uma fila com algumas dezenas de toxicodependentes que, ordeiramente, aguardavam pela sua vez.

Um deles chama a atenção para as dificuldades que as mudanças de horário vão trazer.

"Claro que sim. Se fosse de manhã, por exemplo, fazia diferença para mim. Porque saí do trabalho e só tenho oportunidade de passar aqui agora", diz, enquanto coloca no caixote de lixo no interior da carrinha o pequeno copo de papel onde tomou a dose diária de metadona.

Acredita que foi por causa deste programa de toma de metadona que diminuíram certos tipos de criminalidade.

"Quando a tomamos deixamos de ressacar, de estarmos aflitos e de fazermos muitas asneiras. Falo por mim, que já fiz muitas asneiras por estar a ressacar. E quando estamos desesperados, por falta de metadona, por exemplo, pode acontecer. Podemos voltar às asneiras", admite.

"É evidente que vai trazer problemas", diz um outro toxicodependente que vem tomar a sua dose diária de metadona.

"Como se não bastasse isto provocar todo o mal e a estupidez que provoca - e eu ando aqui há 20 anos - ainda há estas nuancezinhas em questões de humanismo e de direitos. É ridículo", desabafa.

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